sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

FORMICULAR


FORMICULAR

Andando pelo chão, sagaz formiga
parece a maioral, superlativa
eficácia da fauna automotiva,
um bicho musculoso e sem barriga.

Se avista uma parede, ela nem liga,
mantém a marcha avante e intensiva,
até que um dedo humano vem e esquiva,
da rota em que seguia, a nossa amiga.

O que é o ser humano para ela
transcende suas forças cerebrais,
retoma seu caminho sem dar trela.

E aos anjos das moradas surreais
parece o ser humano como aquela
formiga de motores ideais.


Marcos Satoru Kawanami


domingo, 15 de janeiro de 2017

BOQUEJAR


BOQUEJAR

— Eu acho que é mentira que é verdade,
ou, pior, que é verdade que é mentira
a prosa da comadre Arminda Elvira,
que é só quem te defende na cidade! —

Mulher, quando boqueja, põe vontade,
e eu sempre da patroa estou na mira
ouvindo tudo quanto ela delira
no doce lar da nossa intimidade.

Mas me ofende de modo tão mimoso,
que eu acho que é com gosto que ela o faz,
expressão de um amor mais caloroso:

Exaltada epopeia de Luís Vaz,
esbraveja em estilo grandioso,
enquanto um tácito soneto jaz.



Marcos Satoru Kawanami

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

GOOGLE IMAGES

Dercy Gonçalves *1907+2008

GOOGLE IMAGES

Em fotos velhas, vejo gente nova,
gente que agora é velha ou já morreu
(e, nisso, o Imagens Google é museu),
o tempo passa, e nos escracha a prova.

A primeira impressão fica na trova,
o amor, ao procriar-nos, leva o seu,
e, a foder-se, é que sempre se fodeu,
pois primeira impressão é uma ova!

Não há verdade em uma bela estampa,
há uma ilusão com toques de magia,
é caixa de bombom que se destampa.

E a caixa de bombom fica vazia,
e aquela bombonzada vira trampa,
por conta do que foi fotografia.


Marcos Satoru Kawanami

sábado, 7 de janeiro de 2017

PRISÃO DE VENTO


PRISÃO DE VENTO

Em meio ao meu barulho interior,
lá fora nada, nada, nada, nada,
e escuridão, que até alma penada
omite-se, o vazio lhe dá pavor.

Não tarda a morte, chego eu a supor
em ânsia derradeira; a madrugada
ergue sanguíneos dedos de alvorada
alcançando o meu último estupor.

Porém, golfando, espirro uma aspirina
nos olhos do doutor já sonolento,
que acorda dando viva à Medicina.

Por pouco vou-me à cova, e não aguento
lembrar que até um padre de batina
via eu morrer só de prisão de vento!



Marcos Satoru Kawanami