domingo, 2 de abril de 2017

NADA


NADA

Não venhas me dizer que eu não te disse,
pois nunca digo nada sem dizer,
e muito tenho dito sem querer,
ainda que da fala prescindisse.

A fala tem seu viço, e, se eu a visse,
vibrantemente a iria descrever,
mas creio que o já faça ao escrever
com ledo esmero tanta cretinice.

Depois de expor o supra acima exposto,
redundo este pleonasmo gracioso,
antítese antagônica do oposto.

A fim de finalmente, num raivoso
final de apoteótico bom gosto,
dizer-te que, no dito, estou ditoso.


Marcos Satoru Kawanami


terça-feira, 28 de março de 2017

ÚLTIMA FLOR DO MANGUE


ÚLTIMA FLOR DO MANGUE

Acerca dos achismos, tenho achado
que vai haver achismo sempre e tanto
que de me achar achando não me espanto,
ainda que não tenha procurado.

Achei que agora tenho escrevinhado
o nada essencial de algum encanto,
o pranto que comove e leva ao pranto
por tanta nulidade, que até nado.

Última flor do mangue, incauta e bela,
a fim de não achar que achou errado,
é sempre necessário ter cautela.

De modo que aqui jaz, arrazoado,
defunto meu achismo tagarela
no paletó de pau abotoado.


Marcos Satoru Kawanami


domingo, 26 de março de 2017

RIMA OBRIGATÓRIA

Qual é a da parada aí?

RIMA OBRIGATÓRIA

Fazer o bem, fazer alguém feliz
ao ler algum poema divertido,
de minha parte, muita vez tem sido
o lema para os versos que já fiz.

Porém tal intenção se escreve a giz,
não vejo o humor pra sempre ser retido
nas almas bem escassas que têm lido
a minha gozação, que nada diz.

Então, este soneto será triste
feito uma punhalada na rabeta,
e aqui sinto que alguém de ler desiste...

Mas gosta de bobagem a caneta,
porquanto quer lembrar, e nisso insiste,
que aceitará rimar só com buceta.


Marcos Satoru Kawanami


quinta-feira, 16 de março de 2017

PARECERES


PARECERES

Existem pareceres parecidos,
mas fazem todos eles desavença
porque cada cabeça é uma sentença
conforme a distorção do que é sentido.

E tem um entra-e-sai prevalecido
no meio de entendidos da sabença,
que leva-me a supor que não compensa
posar de sabichão ou de entendido.

Verdade é uma só, o resto empata
em ditos de verdades parciais
da razão, que pretende ser exata.

Exata é a unidade, tudo mais
desune, desagrega, desacata
às minúcias infinitesimais...


Marcos Satoru Kawanami


segunda-feira, 6 de março de 2017

PARÓDIA A “ROSA” DE PIXINGUINHA



PARÓDIA A “ROSA” DE PIXINGUINHA

Tu vais fazer o que em Marte?,
se lá é tão frio. O amor
de certo não existe
num planeta sem ardor
que vem a me fazer supor
que seja onde for
aqui na Terra tu estarás muito melhor.

Se Deus nos fez este ambiente
aqui tão coerente, divino,
pra que esculhambar assim a nossa Terra?
Teu coração lá será lacerado,
gelado e petrificado sobre a murcha flor
desse teu peito ateu.

Tu vais te encarcerar legal
naquela espacial colônia penal
do meu falido amor, subido(?) amor.
Tu vais levar muito mais longe a flor.
Tu vais fazer na Criação
rombuda expansão, chego a supor.

O riso, a fé, a dor
em Marte chegarão, mas não terão sabor
em vozes tão dolentes, seja como for.
És láctea estrela,
és Via-Láctea estrela,
és tudo enfim que tem cabelo
em todo despudor da santa natureza.

Perdão se ouso confessar-te:
eu hei de ir sempre a Marte!
Oh, flor, meu peito não consiste,
e tamanha inconsistência é triste
na vã promessa exorbitante
que vais um dia orbitar,
e orbitar naquele
tal lugar.

Fincar teu pé onipotente
em solo avermelhado, e a dor,
a dor é minha só por tua ingratidão.
Depois, se eu tiver paciência,
escrevo à Ciência
carta em que dissertarei meu parecer
do teu enlouquecer.

Marcos Satoru Kawanami

sábado, 25 de fevereiro de 2017

SONETO DE GRAÇA


SONETO DE GRAÇA

Gratuito, gracioso, gratidão,
a graça se expressando livremente
distante da rapina do aparente
despreza da aparência a servidão.

É livre todo aquele bom cristão
que mesmo encarcerado está contente,
contraste na desgraça inconsequente
do mundo, pois conhece a salvação.

A graça de Maria é seu exemplo,
a graça de Jesus é seu destino,
a fé é sua graça e amuleto.

Almejo, testemunho, enfim contemplo
a sã gratuidade do divino
que entrega-me de graça este soneto.


Marcos Satoru Kawanami


sábado, 18 de fevereiro de 2017

COBAIAS SOMOS?


COBAIAS SOMOS?

Razões ocultas por nenhum motivo
motivam ocultar razão nenhuma,
e resta sobre a terra a espessa bruma
da dúvida que serve de incentivo.

Em tudo põe a dúvida seu crivo,
e dela não escapa coisa alguma
que tenha vida ou não, e ainda, em suma,
até o que está morto mas foi vivo.

Da dúvida duvida-se, porém
assim mais uma dúvida acontece,
de dúvida mais dúvida se tem.

Coitada dessa gente que padece,
não sabe pra onde vai nem de onde vem,
cobaias somos nós, é o que parece?


Marcos Satoru Kawanami


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

PAX ET BONUM

"Um homem em paz
vence qualquer guerra."
(Tenório Cavalcante)

PAX ET BONUM

Alguém pode sofrer em ignorância,
porém sofrer em vão é desatino,
e o mundo lhe será assaz mofino
a viver infeliz de ânsia em ânsia.

Alguém pode chegar à mendicância,
e, em tanto, abençoar o seu destino
se, à luz da graça do poder divino,
sofrer de fé em fé sem arrogância.

Contando só consigo, a criatura
não pode nem consigo sobre a terra,
temendo a própria vida e sepultura.

Mas, ao sofrer amando, ninguém erra;
em paz consigo mesmo, tudo atura;
em paz, um homem vence qualquer guerra.


Marcos Satoru Kawanami


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

FRASEADO


FRASEADO

Quem nunca esteve exposto não se oculta,
quem nunca deflagrou jamais venceu,
quem nunca esteve lá nunca esqueceu,
e quem sempre foi nada não se insulta.

Se alguém bate de frente, é gente estulta,
mas quem jamais reage faleceu,
pois escreveu, não leu, o pau comeu,
e é quem bate por trás que leva a multa.

Eu nunca estive lá, mas não oculto
que, exposto a nada ser, já não faleço,
e atrás da multidão deflagro um vulto.

Eu li o que escrevi, o escrito esqueço
no breu memorial, porém insulto
a multa desleal que não mereço.


Marcos Satoru Kawanami


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

VALIDADE


VALIDADE

Atada à propaganda, a mídia inunda
a mente do zumbi consumidor
de carne humana, que o vegano ardor
consola no vazio, o qual lhe abunda.

Anárquica euforia pede bunda
na rima que eu acabo de compor,
então abundo a rima se isso for
conserto pra demência tão rotunda.

Progresso, vem!, até zerar o pote,
faz lucro, e põe a juro o que lucrar,
estende a validade deste lote.

O juro sabe bem inflacionar,
depois, Progresso, inflado, muito arrote
as almas que nem hás de sepultar.


Marcos Satoru Kawanami

sábado, 11 de fevereiro de 2017

ASTEROIDE 2016 WF9


ASTEROIDE 2016 WF9

Nos dias em que o tempo não passava,
provei da imaculada humanidade
incauto quanto ao gérmen da maldade
que, mesmo inda criança, eu carregava.

E, após aqueles dias, veio a trava
que a todos encarcera, em certa idade,
no drama, no motor da sociedade,
da sociedade do pecado escrava.

Vem vindo um asteroide, o tal talvez
acabe com a Terra, o fim da história,
e fim da racional insensatez.

Porém, ver Jesus Cristo em sua glória
voltar e, desta vez, voltar de vez
é o futuro que tenho na memória.


Marcos Satoru Kawanami

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

ESPARSAMENTE


ESPARSAMENTE

Na treva ensolarada em que partiste,
portavas radiante formosura
e um cinismo mais puro que a mais pura
persona das personas que vestiste.

A rima dos meus versos ficou triste,
e a morte me assoprava com ternura
na direção de entrar na sepultura,
sorrindo como tu jamais sorriste.

Porém, não sei por que, fui eu ficando
mais jovem, jovial, e até contente,
conforme os anos foram se passando.

Agora, apenas sofro esparsamente,
e apenas ao te ver de vez em quando,
já velha, sem o ser, sem nenhum dente.


Marcos Satoru Kawanami


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

ALOIS ALZHEIMER


ALOIS ALZHEIMER

Alzheimer, esclerose, estar gagá,
o nome não importa, a caduquice,
se pega alguém bem antes da velhice,
é boa brincadeira, sendo má.

É alguém se embriagar com guaraná,
é a gente estar num mundo que sumisse
em neurofibrilar esquisitice,
secagem de neurônios, diz Alois.

E agora bebo é pinga, não por quê?,
fumando meu cachimbo de tabaco,
que é careta, faz mal, e é démodé.

Morrerei, mas feliz igual macaco
rindo abestado até do que não vê,
conforme as normas do balacobaco!


Marcos Satoru Kawanami


sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

FORMICULAR


FORMICULAR

Andando pelo chão, sagaz formiga
parece a maioral, superlativa
eficácia da fauna automotiva,
um bicho musculoso e sem barriga.

Se avista uma parede, ela nem liga,
mantém a marcha avante e intensiva,
até que um dedo humano vem e esquiva,
da rota em que seguia, a nossa amiga.

O que é o ser humano para ela
transcende suas forças cerebrais,
retoma seu caminho sem dar trela.

E aos anjos das moradas surreais
parece o ser humano como aquela
formiga de motores ideais.


Marcos Satoru Kawanami


domingo, 15 de janeiro de 2017

BOQUEJAR


BOQUEJAR

— Eu acho que é mentira que é verdade,
ou, pior, que é verdade que é mentira
a prosa da comadre Arminda Elvira,
que é só quem te defende na cidade! —

Mulher, quando boqueja, põe vontade,
e eu sempre da patroa estou na mira
ouvindo tudo quanto ela delira
no doce lar da nossa intimidade.

Mas me ofende de modo tão mimoso,
que eu acho que é com gosto que ela o faz,
expressão de um amor mais caloroso:

Exaltada epopeia de Luís Vaz,
esbraveja em estilo grandioso,
enquanto um tácito soneto jaz.



Marcos Satoru Kawanami

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

GOOGLE IMAGES

Dercy Gonçalves *1907+2008

GOOGLE IMAGES

Em fotos velhas, vejo gente nova,
gente que agora é velha ou já morreu
(e, nisso, o Imagens Google é museu),
o tempo passa, e nos escracha a prova.

A primeira impressão fica na trova,
o amor, ao procriar-nos, leva o seu,
e, a foder-se, é que sempre se fodeu,
pois primeira impressão é uma ova!

Não há verdade em uma bela estampa,
há uma ilusão com toques de magia,
é caixa de bombom que se destampa.

E a caixa de bombom fica vazia,
e aquela bombonzada vira trampa,
por conta do que foi fotografia.


Marcos Satoru Kawanami

sábado, 7 de janeiro de 2017

PRISÃO DE VENTO


PRISÃO DE VENTO

Em meio ao meu barulho interior,
lá fora nada, nada, nada, nada,
e escuridão, que até alma penada
omite-se, o vazio lhe dá pavor.

Não tarda a morte, chego eu a supor
em ânsia derradeira; a madrugada
ergue sanguíneos dedos de alvorada
alcançando o meu último estupor.

Porém, golfando, espirro uma aspirina
nos olhos do doutor já sonolento,
que acorda dando viva à Medicina.

Por pouco vou-me à cova, e não aguento
lembrar que até um padre de batina
via eu morrer só de prisão de vento!



Marcos Satoru Kawanami