quinta-feira, 30 de junho de 2016

O GAMBÁ E A CONDIÇÃO HUMANA


O GAMBÁ E A CONDIÇÃO HUMANA

Sarnento e definhando em mortuária
postura sorumbática cadente
aparece um gambá noturnamente
lá no pomar da dona Januária.

Em termos de gambá, tem faixa etária
de alguém que já viveu eternamente,
assombração albina e recorrente,
que é mais assombração por ser precária.

Não acho o que me diz o tal gambá,
talvez alguma coisa visceral,
alguma coisa ruim mas sem ser má.

Porém o bicho é feio, e, na real,
convocando a razão mais para cá,
cagaço não define a coisa mal...


Marcos Satoru Kawanami



O GAMBÁ

Meu falecido pai não deixava
passar um só gambá batido.
À panela, o pobre bicho, levava,
cozia e comia num zás o fedido.

Ainda vinha e me oferecia,
mas nem matando eu comeria.
Dizia-me ter gosto de galinha
mesmo fedendo toda a cozinha.

Eu falava: "Não quero nem saber,
isso não como, prefiro morrer."
Ele dava de ombro e só ria.

Sobrava mais para ele comer.
Então, beleza, era só alegria.
Menos pro gambá que tudo fedia.

Rosemeri Carla Pellens


sexta-feira, 10 de junho de 2016

SARAPATEL

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SARAPATEL

Vai-se a primeira pomba despertada,
sai do pombal ao meu encontro, certa
que o seu cocô me acertará, e acerta
a bomba de cocô teleguiada.

Direis então: — Coitado camarada,
ama para entender, cloaca aberta,
cagada na camisa, é um alerta,
melhor nem trabalhar nesta jornada... —.

E quanta gente, usando uma camisa
limpa, engomada e nova, sai vaidosa
sem temer o que pelo céu desliza.

Porém, feito uma chaga cancerosa,
um mal secreto cai e lhe matiza
a roupa, que antes era tão vistosa!

Marcos Satoru Kawanami



AS POMBAS

Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada...

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais...

Raimundo Correia



OUVIR ESTRELAS

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir o sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".

Olavo Bilac



MAL SECRETO

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja a ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!

Raimundo Correia

quarta-feira, 8 de junho de 2016

CAFEÍNA A LOTE


CAFEÍNA A LOTE

Trincado, insone, cafeína a lote,
foi tudo ao mesmo tempo o tempo todo;
deitado na sarjeta, inalo lodo
cegado pela luz de um holofote.

Capotei de repente num pinote,
dormi ou desmaiei, só não me explodo
pois tal conjugação é feito fodo,
dois verbos lacerados a serrote.

E tudo nunca acaba, sempre existe
a coisal existência do planeta,
este vácuo que em ser matéria insiste.

Porém acabará minha opereta,
e, quando ela acabar, terei em riste
a cruz, e minha cruz: esta caneta.


Marcos Satoru Kawanami


domingo, 5 de junho de 2016

COVEIRO

http://gshow.globo.com/webseries/causos-do-ze-coveiro/no-ar.html
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COVEIRO

Mudei-me para o bairro do pé junto,
lugar calmo e de muita urbanidade,
porém recanto morto da cidade,
pois, pra vizinho, tenho só defunto.

Eu mesmo me respondo se pergunto,
e, sem por que falar amenidades,
já penso com maior profundidade,
comendo pão de queijo com presunto.

Coveiro sou, estou a edificar
um bairro para baixo, nos canteiros
onde todos irão se aconchegar.

Sou construtor dos lares derradeiros,
e vou cavando sem me preocupar,
pois nunca vi enterro de coveiro!


Marcos Satoru Kawanami