terça-feira, 17 de maio de 2016

OS PRÉ-SOCRÁTICOS 4: uma crônica corintiana


UMA CRÔNICA CORINTIANA

         Perdeu a graça torcer para o Corinthians Paulista: agora, todo começo de campeonato, o Corinthians é favorito ao título. O bom de ser corintiano era ter um time ruim, ou ter um time bom e perder do mesmo jeito.
         Pelé nos deu tanta alegria no Santos, ou melhor, nos deu tanto gosto em sofrer com o Timão a cada derrota diante do glorioso alvinegro praiano... Eu não era nascido, mas ouvia com devoção as lamentações da velha guarda. Sofrer por tabela era uma das virtudes do corintiano.
         Mazzaropi estampou nossa sofrência nas telas do cinema. Aquele barbeiro que não cobrava de corintiano era coisa bem nossa — mas não cobrava desde que o freguês apresentasse a carteirinha de Parque São Jorge!
         Hoje, o nosso parque é a melhor arena do mundo intergalático. Eu tenho até medo de entrar lá e me perder no meio dos mármores. Talvez seja um medo semelhante ao que aniquilava minha curiosidade de ver por dentro o Copacabana Palace, quando vivi no Rio; um medo inconsciente, nunca entrei naquele hotel nas vezes em que passei à sua porta, ficava curioso, mas sabia que aquilo era um cenário pintado em madeira, uma obra de ficção nas chanchadas da Atlântida.
         É, foi-se o tempo em que vencer um campeonato era questão de pé de anjo, diria Basílio (não o da Gama, nem o primo, refiro-me ao pé de anjo propriamente dito). Em 1977, eu não via televisão, só via o móbile sobre o berço. Fui ver o Corinthians campeão somente após a derrota na Copa de 86 diante de “la mano de Diós” e la água benta, quando o Viola se consagrou no Brasileirão de 1990. Antes, pude entender um pouco o que significava a expressão aritolediana “mais apertado que cu de corintiano em final de campeonato” — nosso time não parava de levar, levar na bunda mesmo. Falando nisso, devia existir muito veado corintiano, mas não assumiam, que eram corintianos. E eu, como corintiano, devo esclarecer que não como corintiano. Nem santista, nem sãopaulino, nem palmeirense, nem...
         Bons tempos eram quando o presidente do Corinthians era o Vicente Matheus, aquele presidente sim era corintiano. O meu orgulho era ter um confrade integrante do folclore nacional, ao lado do Mané Garrincha, do Curupira e da Mula sem cabeça.
         Enfim, saudade de ouvir jogo do Corinthians no radinho a pilha com a minha bisavó, cuja alma já era corintiana desde antes de nascer, pois foi educada no budismo, mas ia à missa, era devota de São Judas Tadeu (das causas impossíveis!), e ainda acreditava em macumba.


Marcos Satoru Kawanami

2 comentários :

Elyane Lacerdda disse...

Amigo,
não gosto de fufebol kkkkkk
mas está super bem escrita como sempre!
Bjos e linda semana!
http://www.elianedelacerda.com

Elyane Lacerdda disse...

vc é muito divertido!!!!!
Eu tbm tenho saudades de muitas coisas feitas com meus avós!!!!
bjo grande
http://www.elianedelacerda.com