sábado, 28 de maio de 2016

OBITUÁRIO


OBITUÁRIO

Morreu porque já tinha redundado,
em sua redundância faleceu,
e tanto redundou que agora eu
começo a redundar feito o finado.

Vestiu um paletó envernizado,
que foi o marceneiro que coseu;
não queiras um igual para ser teu,
se manténs o bom gosto cultivado.

Aquele que falece em redundância
de certo ainda quer redundar mais,
pois todos têm da morte repugnância.

Mas, fora das moradas eternais,
a vida é sempre pouca, uma fragrância
volátil para todos os mortais.


Marcos Satoru Kawanami


terça-feira, 24 de maio de 2016

BRISA


BRISA

Para aquém, para além e para a brisa,
que venta sem ser vento e sem ser venta,
mas cuja serventia se incrementa
quando o muito calor desajuíza.

Para aquém, para além, mas não avisa,
propaganda não faz, e está isenta
do mal que traz o vento da tormenta,
é anônima no bem, e só o bem visa.

Assim, algumas almas de brandura
afagam do planeta a humanidade
levando o Criador à criatura.

Mas, se melhor se prova a amenidade
da brisa na infernal temperatura,
é aquém que vai-se além, na eternidade.


Marcos Satoru Kawanami


sábado, 21 de maio de 2016

ESQUIVAMENTE


ESQUIVAMENTE

Pensar é uma virtude pensativa
de quem pensar resolve em pensamento,
discernindo, pois tem discernimento,
e agindo, ativamente, na passiva.

Parece que pensar é coisa viva
que atinge por si só o seu intento,
porém, se de pensar morre o jumento,
pensarei em pensar de forma esquiva.

Eu penso, logo existo, diz contente
quem não existe mais pois já não pensa,
e, mesmo estando morto, está presente.

Pensar não é tão mau, mas é doença
se alguém põe-se a pensar constantemente,
e penso que pensar não me compensa.


Marcos Satoru Kawanami


quinta-feira, 19 de maio de 2016

FEUDALISMO CONTEMPORÂNEO


FEUDALISMO CONTEMPORÂNEO

Um novo feudalismo configura
a civilização que se anuncia,
e agora o feudo tem tecnologia
para fazer miséria com fartura.

Achando aquela ingênua criatura
que exista em seu país soberania
imune ao feudo, imune à tirania,
combate a corrupção com mais bravura.

O estado nacional se vê vencido
diante do poder da vassalagem,
que parecia ter adormecido.

Adormecido nada, é sacanagem
dizer que tal poder tenha dormido,
esteve foi usando camuflagem.


Marcos Satoru Kawanami


quarta-feira, 18 de maio de 2016

ACERCA DE UM POETA PRÉ-HISTÓRICO


ACERCA DE UM POETA PRÉ-HISTÓRICO

Eu era um pré-histórico e selvagem
menino analfabeto quando, um dia,
passei a converter em poesia
ideias que carecem de linguagem.

Alheias ao vernáculo, as imagens
pocavam em solares melodias,
instantes perfumados de alegria,
virtude imaculada e vadiagem.

Hoje, longe de mim fazer poema
igual aos que eu fazia analfabeto
no tempo em que não ler era meu lema.

Troquei aquele ar livre por um teto,
e vejo-me a escrever sobre este tema
que diz que, ao poetar, não mais poeto!


Marcos Satoru Kawanami


terça-feira, 17 de maio de 2016

OS PRÉ-SOCRÁTICOS 4: uma crônica corintiana


UMA CRÔNICA CORINTIANA

         Perdeu a graça torcer para o Corinthians Paulista: agora, todo começo de campeonato, o Corinthians é favorito ao título. O bom de ser corintiano era ter um time ruim, ou ter um time bom e perder do mesmo jeito.
         Pelé nos deu tanta alegria no Santos, ou melhor, nos deu tanto gosto em sofrer com o Timão a cada derrota diante do glorioso alvinegro praiano... Eu não era nascido, mas ouvia com devoção as lamentações da velha guarda. Sofrer por tabela era uma das virtudes do corintiano.
         Mazzaropi estampou nossa sofrência nas telas do cinema. Aquele barbeiro que não cobrava de corintiano era coisa bem nossa — mas não cobrava desde que o freguês apresentasse a carteirinha de Parque São Jorge!
         Hoje, o nosso parque é a melhor arena do mundo intergalático. Eu tenho até medo de entrar lá e me perder no meio dos mármores. Talvez seja um medo semelhante ao que aniquilava minha curiosidade de ver por dentro o Copacabana Palace, quando vivi no Rio; um medo inconsciente, nunca entrei naquele hotel nas vezes em que passei à sua porta, ficava curioso, mas sabia que aquilo era um cenário pintado em madeira, uma obra de ficção nas chanchadas da Atlântida.
         É, foi-se o tempo em que vencer um campeonato era questão de pé de anjo, diria Basílio (não o da Gama, nem o primo, refiro-me ao pé de anjo propriamente dito). Em 1977, eu não via televisão, só via o móbile sobre o berço. Fui ver o Corinthians campeão somente após a derrota na Copa de 86 diante de “la mano de Diós” e la água benta, quando o Viola se consagrou no Brasileirão de 1990. Antes, pude entender um pouco o que significava a expressão aritolediana “mais apertado que cu de corintiano em final de campeonato” — nosso time não parava de levar, levar na bunda mesmo. Falando nisso, devia existir muito veado corintiano, mas não assumiam, que eram corintianos. E eu, como corintiano, devo esclarecer que não como corintiano. Nem santista, nem sãopaulino, nem palmeirense, nem...
         Bons tempos eram quando o presidente do Corinthians era o Vicente Matheus, aquele presidente sim era corintiano. O meu orgulho era ter um confrade integrante do folclore nacional, ao lado do Mané Garrincha, do Curupira e da Mula sem cabeça.
         Enfim, saudade de ouvir jogo do Corinthians no radinho a pilha com a minha bisavó, cuja alma já era corintiana desde antes de nascer, pois foi educada no budismo, mas ia à missa, era devota de São Judas Tadeu (das causas impossíveis!), e ainda acreditava em macumba.


Marcos Satoru Kawanami

domingo, 15 de maio de 2016

MADRE TERESA DE CALCUTÁ

Madre Teresa de Calcutá aos 18 anos de idade.

MADRE TERESA DE CALCUTÁ

O bom combate, desde a juventude,
a santa das sarjetas combatia
levando uma palavra de alforria
em seu afã de zelo e de virtude.

Conforme convertia em atitude
a fé que destramente a conduzia,
também à fé a muitos convertia,
e quem se converteu não mais se ilude.

Teresa, em Calcutá, anunciou,
com as trombetas do silêncio orante,
o Cristo que, sofrendo, nos salvou.

Posto que sempre que encontrou-se diante
de alguém que, feito Cristo, a encontrou,
foi cristã de maneira radiante.


Marcos Satoru Kawanami


quinta-feira, 12 de maio de 2016

SONETO À MANDIOCA


SONETO À MANDIOCA

Aipim ou pão-da-terra ou macaxeira,
a casa de Mani, raiz, mandioca,
a Manihot utilissima pipoca
em toda a ilustre terra brasileira.

Da terra para a feira e prateleira
da urbe: pão-de-pobre na maloca;
com pouco sua roça bem se toca,
e utilidade tem a planta inteira:

A folha para sopa foi eleita;
para ração, o caule se habilita,
e a casca da raiz não se rejeita.

Enfim, a polpa é toda na marmita,
pois da mandioca tudo se aproveita,
inclusive a metáfora bendita.


Marcos Satoru Kawanami


quarta-feira, 11 de maio de 2016

ASCESE


ASCESE

Pecado, malefício cuja tese
é a si mesmo negar em verso e prosa,
mostrando a face bela e mentirosa
da escara verdadeira que lhe pese.

Eu sei, porém, por mais que eu sempre reze,
parece-me a verdade desairosa,
inodora, incolor e murcha rosa,
já a mentira liberta-me da ascese...

Verdade cristalina inatingível,
verdade tão distante do que vejo,
mas em toda a matéria aqui tangível.

Pecado da mentira e do desejo,
de tudo quanto é fácil e aprazível,
iguala-me a um verme, e assim rastejo!


Marcos Satoru Kawanami


segunda-feira, 9 de maio de 2016

AUTO DA BARCA FURADA


AUTO DA BARCA FURADA

Aviso aos navegantes, coisa à toa:
vós todos morrereis nesta viagem;
parece que isso seja sacanagem,
mas digo mesmo em tom de quem caçoa.

Se reclamais que a vida vos enjoa,
reclamais do calor e da friagem,
do trabalho e também da vadiagem,
a morte até parece coisa boa...

Aguardo a minha morte bem na proa,
cantando na maior vitalidade
a fúnebre alegria que destoa.

Só que a morte terá dificuldade;
se bobear, afundo-lhe a canoa,
e morra a morte, e viva a eternidade!


Marcos Satoru Kawanami