quinta-feira, 24 de março de 2016

ELOGIATIVO E NAMORISTA

LINK

SONETO DA DAMA CAGANDO

Cagando estava a dama mais formosa,
E nunca se viu cu de tanta alvura;
Porém o ver cagar a formosura
Mete nojo à vontade mais gulosa!

Ela a massa expulsou fedentinosa
Com algum custo, porque estava dura;
Uma carta d'amores de alimpadura
Serviu àquela parte malcheirosa:

Ora mandem à moça mais bonita
Um escrito d'amor que lisonjeiro
Afetos move, corações incita:

Para o ir ver servir de reposteiro
À porta, onde o fedor, e a trampa habita,
Do sombrio palácio do alcatreiro!

Manuel Maria Barbosa du Bocage



SONETO ESCATOLÓGICO

"Cagando estava a dama mais formosa...",
assim falou Bocage num soneto
do mesmo naipe deste que cometo
sobre a reputação que a merda goza.

A crítica a compara à rara rosa
se obrada na miséria dalgum gueto.
Políticos proferem-na: "Eu prometo..."
e a mídia a tematiza em verso e prosa.

É tanto incompetente apadrinhado
fazendo merda e sendo promovido
que, quando comecei o aprendizado,

pensei: "Que seja próprio o seu sentido,
porque já me enojei do figurado!",
e então fui rei da merda com que agrido.

Glauco Mattoso



ELOGIATIVO E NAMORISTA

Cagando pela boca, e sem ser vista,
a dama mais formosa faleceu,
e quem a põe formosa não sou eu
senão Bocage, o luso beletrista.

Porque, no tempo do árcade humorista,
valia mesmo a lira de um Orfeu
a dama que limpou o cu com seu
escrito elogiativo e namorista.

Mas, tendo a visto velha, não perdera
poeta algum seu tempo em tal frescura
— cagando pela boca ela morrera.

Por reles cupidez, a formosura
recebe graças mil, demãos de cera,
porém só lhe é sincera a sepultura.

Marcos Satoru Kawanami