sábado, 30 de janeiro de 2016

CRÍTICA CRÔNICA - "Ele já me comeu, e eu vou morar com ele!"

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CRÍTICA CRÔNICA

— Ele já me comeu, e eu vou morar com ele! —,
o verso alexandrino a rapariga diz
com esmerado amor, irado amor, feliz(?)
por tão fodidamente entrar na vida dele.

Penico é meu ouvido, e a culpa é só daquele
penico que aceitou plantar uma raiz
sem galho, mas caralho, e faz a cicatriz
na cara do planeta, ele que se ajoelhe.

É o tal sexo seguro, asseguradamente
gerando pueris, cruéis contos de fada
nos quais a gente é coisa e nem parece gente.

Já, na Escola, se vê quão desestruturada
tem a Família estado, e quão impunemente
omite-se o Estado, em laica debandada.


Nhandeara, 30 de janeiro de 2016
Marcos Satoru Kawanami


quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

REPLAY

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REPLAY

A vida não tem replay,
é uma estrada só de ida:
voga sempre a mesma lei
do começo ao fim da vida.

É tirada numa rifa
a vida aqui no Brasil:
ou se vai de padrão FIFA,
ou no aperto do funil.

Viver é ter esperança,
e o que se espera é ter sorte;
mas, nem o caboclo cansa:
créu, cai nas garras da morte.

Morte faz parte da vida
desde o sul até o norte,
e é coisa bem dividida:
vida faz parte da morte.

Viver feliz é cagar
e andar para quem nos caga,
para frente sempre andar,
pois o tempo tudo apaga.

Porque quem viver verá
a vida passar por quem
morrer antes, mas será
chamado a morrer também.

Não vás fazer marcha à ré
nem andar na contramão,
quem anda trocando os pés
é caipora e beberrão.

Do começo ao fim da vida
voga sempre a mesma lei:
é uma estrada só de ida,
a vida não tem replay.

Nhandeara, 28 de janeiro de 2016
Marcos Satoru Kawanami


sábado, 23 de janeiro de 2016

CABRUNCO LAMPARÃO

Campos dos Goytacazes - RJ

CABRUNCO LAMPARÃO

Carbúnculo farol de São Tomé,
cabrunco lamparão dos Goytacazes,
por que tem o dever de tantos gazes
soltar ao pé de quem lhe está ao pé?

E diz que diz, mas nunca diz quem é
aquele que, nas horas mais audazes,
capaz se faz dos peidos mais tenazes,
que ensejariam um auto de fé.

Tristeza da nação tupinambá,
vergonha desta terra; em Pindorama,
guerreiro assim não dá! Não dá? Não, dá...

Desculpe espinafrar a sua fama,
mas tem ela chegado ao Guarujá,
e aqui também é mangue e sobra lama.


Nhandeara, 23 de janeiro de 2016
Marcos Satoru Kawanami



Referência bibliográfica: Desciclopédia


sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

MORFINA


MORFINA

O drone vai voar pelas mãos do menino
argonauta à Orfeu, vai em sonho bonito
ver tudo o que se vê mais além do infinito
e que a lira não viu para cantar em hino.

O drone vai entrar no quintal do divino
brincando com Morfeu, a filmá-lo esquisito
na quarta dimensão de um vídeo que cogito
igual nem no Youtube, igual nem um neutrino.

Despede-se do mundo, embarca bem contente
o argonauta a sonhar com neutrinos e drones,
vai sem nem perceber que é compulsoriamente.

Remanescem aqui tornados e ciclones,
a guerra, a corrupção, a dor do bem ausente
que, por ir tão feliz, nem deixou telefone.


Nhandeara, 15 de janeiro de 2016
Marcos Satoru Kawanami



Link do filme sobre os argonautas: Jasão em busca do velo de ouro

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

INIMPUTÁVEL


INIMPUTÁVEL

A concatenação do texto é necessária
como cauterizar um sangramento o é
tirando uma hemorroida ou amputando um pé,
e deve progredir conforme a faixa etária.

Outrossim confrontar opiniões contrárias
conduz ao quebra-pau, edificando a fé
de que esta Humanidade é mesmo uma ralé
e vale a pena crer que exista coisa vária.

Porém a coerência é algo coerente,
refutando um sofisma além de insofismável,
pois sempre é sim, ou não, e coerentemente.

Procure terminar de forma inoxidável,
mantendo a hemoglobina azul ou transparente,
e um texto aí está, com siso, inimputável!


Nhandeara, 8 de janeiro de 2016
Marcos Satoru Kawanami


quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

SÚMULA


SÚMULA

A bola pune, a bunda peida, a pena
escreve pune e peida e bunda e bola
que pune, a pena escreve o peido evola
dum árbitro que arbitra entrar em cena.

Mas árbitro moderno tem antena,
e pune se uma pena entrar de sola
na bola, quando escreve e se rebola
mais bunda que uma bola pune e pena.

Assim, tenho entendido que entendido
é o árbitro, e não meta a mãe no meio,
ou no meio da mãe fica metido...

A bola pune, escreve sem receio
a pena, a bola, a bunda, o sem sentido
soneto que por súmula me veio.


Nhandeara, 6 de janeiro de 2016
Marcos Satoru Kawanami



"A bola pune." (Muricy Ramalho)

sábado, 2 de janeiro de 2016

DESBOTOU


DESBOTOU

A estampa desbotou, foi alvejante,
por sobre a camiseta derramado
a fim de subtrair do maculado
desenho a testemunha de um instante.

Não teve outro remédio o destoante
emblema que, estampado no estampado,
desfez completamente o desenhado,
e a mancha de um só pingo era gritante.

Saiu pior a emenda que o soneto,
conforme já foi dado a perceber
na estória em que eu agora me intrometo.

Melhor do que alvejante era esquecer
a mancha, pela qual me comprometo
a diluí-la em verso ao escrever.


Nhandeara, 2 de janeiro de 2016
Marcos Satoru Kawanami