sábado, 28 de novembro de 2015

A INAUDITA DO CONSERVATÓRIO


A INAUDITA DO CONSERVATÓRIO

Nos fundos do conservatório, habita
clarinetista muda e mutuária,
que teima nessa vida proletária,
e teima em prosseguir inda inaudita.

Cantar não deixa nem a periquita,
por quem se cantariam quantas árias
quisesse, se ela fora perdulária
em termos de dar malho para brita.

Mas passa linda e loira, casta... e casta,
sem nunca reparar na silhueta,
usando sempre a mesma roupa gasta.

Também não reparando na etiqueta,
eu acho que ela pode dar um basta
na surdina que impõe à clarineta!


Nhandeara, 28 de novembro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


quarta-feira, 25 de novembro de 2015

RABUGEM


RABUGEM

Rabugem, como o nome diz, começa
pelo rabo, e avança rumo à fuça
do bicho, o qual a vista nos aguça,
inspirando cuidado, e dó à beça.

Parece lepra, mas não é, pois essa
agrava o caso pra quem se debruça
tentando esmiuçá-lo, e se esmiúça
em cômica, banal e leve peça.

Rabugem é o que tem minha cachorra!:
cheguei em casa, a vi coçando o rabo
com displicência, na maior pachorra...

Só álcool não resolve, o mal é brabo,
se tenho recorrido até à borra
de café, sem vencer em dar-lhe cabo!


Nhandeara, 25 de novembro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


segunda-feira, 23 de novembro de 2015

LUGAR DE PENITENTE


LUGAR DE PENITENTE

O meu cachorro tem a me ensinar
bastante sobre graça e lealdade,
e ajuda-me a entender a caridade,
deixando eu me botar em seu lugar.

Um gato talvez tenha a me mostrar,
com distinta e sagaz felinidade,
que dono do cachorro, na verdade,
não sou, se nem sou dono do meu lar.

Um porco é sempre espelho para mim,
que junto à porcaria estou contente
pensando que este mundo não tem fim.

Um verme estampa o quão precariamente
sustento as ilusões ao ser, e, assim,
encontro meu lugar de penitente.


Nhandeara, 22 de novembro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


sábado, 21 de novembro de 2015

TREM


TREM

É muito estranhamente apetecido
um apogeu, sabendo que lhe segue
a lei da decadência, à qual, entregue,
ladeira abaixo vai quem tem subido.

Subindo um monte, espera distraído
a hora de descer, isso não negue
quem da dinâmica beber consegue,
ou quem bastantes montes tem descido.

Então, é natural que a Humanidade
por senda sinuosa sempre esteja
sentindo algo parelho à Gravidade.

E, quem no escuro vê, que agora veja
a luz no fim do túnel da maldade,
e, findo todo o Tempo, a Eternidade.


Nhandeara, 21 de novembro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


SONETO RUPESTRE


SONETO RUPESTRE

Sejamos e ensejemos o futuro,
que é hoje, que foi ontem, não é mais
aquele de há bem pouco tempo atrás,
pois muda que nem juro sobre juro.

Nascemos, e, ao nascermos, vem o apuro
da transitoriedade e coisas tais
que herdamos sem querer dos ancestrais
viventes de caverna em tempo obscuro...

Nem lembro em que caverna fui nascer,
mas foi uma do tipo apartamento
que viu a minha infância florescer.

Floresci em completo embotamento,
e só o que aprendi foi escrever
rupestres versos para o esquecimento.


Nhandeara, 21 de novembro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


quarta-feira, 18 de novembro de 2015

MISSÃO MARTE


MISSÃO MARTE

Enforca-se na própria liberdade
igual a um cão na rua atropelado
achando que foi bom ver o outro lado
do mundo, sem portão nem muro ou grade.

Demonstra uma medonha habilidade
em se ferrar sozinho, em ser lesado,
o ser humano alegre e libertado,
vivendo uma ilusão de liberdade.

Mas lixo é o que produz, e, envaidecido,
faz marketing do lixo em toda parte,
se achando o Criador, e mais sabido.

Faz lixo até chegar no estado da arte,
e, enquanto este planeta é entupido,
já pensa em fazer lixo lá em Marte!


Nhandeara, 18 de novembro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


MARCHEMOS


MARCHEMOS

Jornal, não quero mais saber de nada
do mundo de hoje em dia, a novidade
que dá, tal qual quem tira, à Humanidade,
humanidade tosca, esvaziada.

De tanto ter a vista calejada
de infâmia, vilania, atrocidade,
começa a aceitar qualquer maldade
a alma, que se torna desalmada.

Não quero me alijar do sentimento
que dá sentido a tudo, e tenho fé
que a fé do ser humano é incremento.

Deixar o amor divino é marcha à ré;
marchemos e marchemos sempre atentos,
sensíveis à Verdade que mais é.


Nhandeara, 18 de novembro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


terça-feira, 10 de novembro de 2015

MARIANA 2015

coreto da cidade de Mariana - MG

MARIANA 2015

Mariana, o coreto nos espera
com anjos entoando o canto lírico
daquele ocaso enevoado, onírico,
da tua debutante primavera.

Em tudo, o simbolismo da atmosfera
alheia-nos do rude senso empírico,
e os anjos são apenas um eu-lírico
cantando no coreto em outra era.

A nossa juventude resplandece:
contempla, Mariana, o tempo bom,
o qual, na eternidade, permanece.

A doce melodia, o doce som,
é coisa do momento, e te entristece,
mas tudo é orquestrado em justo tom.


Nhandeara, 10 de novembro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


segunda-feira, 9 de novembro de 2015

FLATO VERÍDICO


FLATO VERÍDICO

O peido sai da peida, e é um gás
translúcido, odorífico, butano
mesclado com partículas do humano
cocô, e vem daí o seu cartaz.

O peido é igual a filho, só quem faz
aguenta. Digo isso sem engano,
pois peido é sobre a gente soberano,
e, às vezes, é questão de guerra e paz.

Falar como se a boca fosse o cu
apraz quem reconhece, na humildade,
a leda condição de ser jacu.

Mas, tendo o erudito a tal vontade,
irá peidar, e, aí, o deixo nu,
despido de qualquer vã veleidade.


Nhandeara, 9 de novembro de 2015
Marcos Satoru Kawanami



— O que uma nádega disse para a outra?
— Que merda nenhuma nos separe!
(Paulinho Gogó)


"Filho é que nem peido: só aguenta quem faz."
(Ary Toledo)


"O que seria do doce de coco se não fosse o acento circunflexo?"
(Antônio Maria)

sábado, 7 de novembro de 2015

PAPEL


PAPEL

Papel: palavra para que se guarde
palavra e mais palavra, num fichário,
num livro, num caderno, num armário,
a fim de ser palavra até mais tarde.

Papel, prensada celulose, aguarde,
no lixo reciclável, rumo vário,
pois tem a sua força em ser precário,
nascendo novamente, se não arde.

Quem sou: palavra para que se leia
quem sou agora, só que no futuro,
pois nunca existe agora, agora creia.

Quem sou, creio?, já cri, e ainda juro
que não devo jurar, o juro enleia
quem deve, e, devedor, não quero apuro.


Nhandeara, 7 de novembro de 2015
Marcos Satoru Kawanami