quinta-feira, 29 de outubro de 2015

MAIS RUIM


MAIS RUIM

Eis o mais ruim soneto deste mundo,
difícil é fazer assaz mal feito
se o escopo é o mal feito ser bem feito
e ser capolavoro em vagabundo!

Se a bunda fosse macho, ela era bundo;
se faço cooper, tenho o cooper feito;
se aquele que mais rouba é que é eleito;
qualquer buraco raso ainda tem fundo.

A merda aduba a terra, e sai da bunda,
de modo que é da bunda o bom insumo
agrícola que faz os pau crescer.

Ofereço esta obra pra Raimunda,
que rege com o rabo o humano rumo
do puto que ora põe-se a escrever.


Nhandeara, 29 de outubro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Musa Feia - Ordinário


MUSA FEIA

O que te escreverei?, oh, musa feia,
se nada me afeiçoo a ser Balzac,
se há musas mais jeitosas no Projac
que vejo na TV, de estrelas cheia.

Ainda que em jornais eu pegue e leia
notícias pelas quais tomam Prozac
ou também se embebedam com cognac,
somente a musa bela é quem me enleia.

Porquanto não vou eu fazer justiça
consertando este mundo em desconserto,
musa balzaquiana não me atiça.

É de Cupido a pena por que verto
a tinta que de ingênua nunca enguiça,
mas sei que, na razão, me falta acerto.


Nhandeara, 25 de outubro de 2015
Marcos Satoru Kawanami



ORDINÁRIO

Não devo duvidar do bem eterno,
todavia, o ignoro com frequência
a fim de não viver em reticência,
contemplativamente em mundo interno.

É triste quando esqueço o tom fraterno,
partindo para a gana, a eloquência
sanguínea da profana permanência
no estado de desgraça, agudo inverno.

A minha salvação não vem de mim,
estou neste dramático cenário
porque, a cada ação, cumpro meu fim.

De modo que ser bom não é fadário
humano, pois só Deus é bom, e assim
exerço meu papel sendo ordinário.


Nhandeara, 27 de outubro de 2015
Marcos Satoru Kawanami

sábado, 17 de outubro de 2015

À Mão


À MÃO

Escrevo à mão, artesanato escrito
com escassa ou nenhuma pretensão
por parte deste anônimo artesão
que escreve à própria mão, como foi dito.

E diz a mão: “Será o Benedito?!”,
pois ela não carece reflexão,
mas piedosamente dá atenção
às musas do cerrado quando as fito.

Escrevo à mão, que é cega, quão bonita
é a ingênua musa do meu casto olhar
caipira bem feliz que o mato habita.

E a mão, que é surda, então, faço escutar
a musa sibilante que nos fita,
estando eu este verso a recitar.


Nhandeara, 17 de outubro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Pira Olímpica


PIRA OLÍMPICA

Em prol da Cristandade, transgressora
na laica sociedade em que morremos
bebendo da loucura, em que não cremos,
esgrime a minha pena defensora.

A pálida lembrança do que fora
a escola do martírio em que vivemos
outrora é o hoje em dia por que temos
de regressar à Igreja precursora.

A cada geração, o bom combate
é pira olímpica na qual persiste
a caridade, imune ao disparate.

Mas, Cristo, desde aonde tu subiste,
verte o Espírito Santo no resgate
também da pena vil que tenho em riste.


Nhandeara, 16 de outubro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


terça-feira, 13 de outubro de 2015

SOFRÊNCIA


SOFRÊNCIA

Eu via, à beira do riacho fundo,
o quanto nada vejo do que sou,
o quanto apenas vejo o que passou,
o quanto é cego meu andar no mundo.

Estranho enlevo de um meditabundo
enleva o estranho ritmo no qual vou
chegando no lugar que não chegou,
estando à beira do riacho fundo.

Porquanto um tal riacho não existe
naquela profundeza que eu sentia
a tarde enluarada em que partiste.

E é tarde enluarada todo dia
que nasce desde quando um mundo triste,
à beira do riacho fundo, eu via.


Nhandeara, 13 de outubro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Quarta Dimensão

Quem está na 1ª dimensão não percebe a 2ª dimensão, a não ser
por um ponto que por ventura cruze seu caminho.

Quem está na 2ª dimensão não percebe a 3ª dimensão, a não ser
por um segmento de reta que intercepte seu caminho.

Nós, da 3ª dimensão, não percebemos a 4ª dimensão, a não ser
por uma imagem que apareça no tempo em
que estamos.

ADORA

conciliando razão e fé,
pois a fé é um raciocínio.

ADORA

Além do tempo, ou tudo ou nada, a sorte
ou vai ou racha, ou nada de mais nada
sem sorte e sem azar, sem mais estrada
de dor ou de prazer, o fim, a morte?

Aquém do tempo, alguém há que reporte
notícia senão Deus? lá na sagrada
escritura, hoje em dia desprezada
a troco da mentira em grande porte.

Além do tempo, aquém do tempo, fora
do cosmo que conhece o telescópio,
verdade mui singela sempre mora.

E a verdade jamais está no ópio,
mas na razão, que entende a fé, e adora
a Deus, que nos irmana nEle próprio.


Nhandeara, 8 de outubro de 2015
Marcos Satoru Kawanami