quarta-feira, 24 de junho de 2015

Quando Ismália enlouqueceu


ISMÁLIA

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

Alphonsus de Guimaraens



QUANDO ISMÁLIA ENLOUQUECEU
ao poeta Alphonsus de Guimaraens

Que porra é essa?! — perguntou-me Ismália
olhando aquela porra que eu não via
a pleno sol, em plena luz do dia:
às vezes, luz demais é que atrapalha...

E sempre foi de lua aquela Ismália,
então, notei que o sol a confundia,
mas ela, com mais ímpeto, insistia:
— Será que tu não vês essa caralha?!

Achei que discordar não me convinha
perante tal macheza feminina;
portanto, concordei: — A porra é minha!

Aí, olhou-me Ismália assim de quina,
dizendo: — Então, tu guarda essa sombrinha,
pois estiou, e a lua está divina...


Nhandeara, 24 de junho de 2015
Marcos Satoru Kawanami



Alphonsus de Guimaraens (Afonso Henriques da Costa Guimaraens), nasceu em Ouro Preto (MG), em 1870 e faleceu em Mariana (MG), em 1921. Bacharelou-se em Direito, em 1894, em sua terra natal. Desde seus tempos de estudante colaborava nos jornais “Diário Mercantil”, “Comércio de São Paulo”, “Correio Paulistano”, “O Estado de S. Paulo” e “A Gazeta”. Em 1895 tornou-se promotor de Justiça em Conceição do Serro (MG) e, a partir de 1906, Juiz em Mariana (MG), de onde pouco sairia. Seu primeiro livro de poesia, Dona Mística, (1892/1894), foi publicado em 1899, ano em que também saiu o “Setenário das Dores de Nossa Senhora. Câmara Ardente”. Em 1902 publicou “Kiriale”, sob o pseudônimo de Alphonsus de Vimaraens. Sua “Obra Completa” foi publicada em 1960. Considerado um dos grandes nomes do Simbolismo, e por vezes o mais místico dos poetas brasileiros, Alphonsus de Guimaraens tratou em seus versos de amor, morte e religiosidade. A morte de sua noiva Constança, em 1888, marcou profundamente sua vida e sua obra, cujos versos, melancólicos e musicais, são repletos de anjos, serafins, cores roxas e virgens mortas.
(fonte: Itaú Cultural)


Publicado no livro Pastoral aos crentes do amor e da morte: este poema, integrante da série "As Canções", foi incluído no livro “Os cem melhores poemas brasileiros do século”, Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2001, pág. 45, uma seleção de Ítalo Moriconi.


4 comentários :

JAIRCLOPES disse...

Ismália, a lúcida
Tentativa canhestra de homenagear Alphonsus Guimaraens e Marcos Kawanami.

Ismália, puro símbolo de toda lucidez,
Olhando aquela lua a qual eu não via:
- Ali no céu, refletida no mar, não a vês?
Indignada diante de minha sensaboria.

Para Ismália só lua e mar tinham vez
Pra mim, confuso, um balde de água fria
Não compreendia porque não nós três
Para ela apenas manter a lucidez valia.

Achei que não me convinha discordar
Diante daquela lúcida e clara assertiva:
Por último eu, na frente o céu e o mar.

Então com Ismália é melhor que se viva
Concordando talvez de maneira salutar
Assim, eliminando qualquer expectativa.

A.C. disse...

hahahaha
Gostei muito dessa "resposta". Achei muito bem bolada e criativa!
Abraços!

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Rafaela Figueiredo disse...

hahahah

esse novo olhar, lunático, me divertiu, Marquitos!
muito legal a imagem q vc reconstruiu.

beso

Elyane Lacerdda disse...

Marcos,
amigo poeta foi é muito criativo!!!!!
Gosto demais de seu trabalho solto e descontraído!
Muito bom!!!!!
Bjo e bom domingo,querido!
http://www.elianedelacerda.com