terça-feira, 30 de junho de 2015

GRILO


GRILO

O mesmo grilo que atormenta tanto
a tantos noite adentro é companheiro
do puto que ora dorme no celeiro,
e, em tal castigo, vai deitar seu pranto.

O grilo, sobre o teto de amianto,
estorvaria um quarteirão inteiro,
porém, pro puto, agora, é seresteiro
que com um verso só canta seu canto.

O grilo, que é o poeta do poema,
consola quem escreve sem destino
uns versos que têm grilo como tema.

Mas, quem jamais apreciou um hino
de grilo, não entende este dilema,
e manda-me ao produto do intestino!


Nhandeara, 30 de junho de 2015
Marcos Satoru Kawanami
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obs: puto = menino
Escrevi no sentido que puto tem em Portugal, parece que no Rio Grande do Sul tem significado pejorativo.
Conforme o comentário 3, eu também acho que puto tem significado pejorativo em todo o Brasil, mas lá no Rio Grande do Sul é que usam puto com frequência no mau sentido. Usei puto porque menino não dava na métrica, e guri ou piá não respeitaria a prosódia do verso.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Quando Ismália enlouqueceu


ISMÁLIA

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

Alphonsus de Guimaraens



QUANDO ISMÁLIA ENLOUQUECEU
ao poeta Alphonsus de Guimaraens

Que porra é essa?! — perguntou-me Ismália
olhando aquela porra que eu não via
a pleno sol, em plena luz do dia:
às vezes, luz demais é que atrapalha...

E sempre foi de lua aquela Ismália,
então, notei que o sol a confundia,
mas ela, com mais ímpeto, insistia:
— Será que tu não vês essa caralha?!

Achei que discordar não me convinha
perante tal macheza feminina;
portanto, concordei: — A porra é minha!

Aí, olhou-me Ismália assim de quina,
dizendo: — Então, tu guarda essa sombrinha,
pois estiou, e a lua está divina...


Nhandeara, 24 de junho de 2015
Marcos Satoru Kawanami



Alphonsus de Guimaraens (Afonso Henriques da Costa Guimaraens), nasceu em Ouro Preto (MG), em 1870 e faleceu em Mariana (MG), em 1921. Bacharelou-se em Direito, em 1894, em sua terra natal. Desde seus tempos de estudante colaborava nos jornais “Diário Mercantil”, “Comércio de São Paulo”, “Correio Paulistano”, “O Estado de S. Paulo” e “A Gazeta”. Em 1895 tornou-se promotor de Justiça em Conceição do Serro (MG) e, a partir de 1906, Juiz em Mariana (MG), de onde pouco sairia. Seu primeiro livro de poesia, Dona Mística, (1892/1894), foi publicado em 1899, ano em que também saiu o “Setenário das Dores de Nossa Senhora. Câmara Ardente”. Em 1902 publicou “Kiriale”, sob o pseudônimo de Alphonsus de Vimaraens. Sua “Obra Completa” foi publicada em 1960. Considerado um dos grandes nomes do Simbolismo, e por vezes o mais místico dos poetas brasileiros, Alphonsus de Guimaraens tratou em seus versos de amor, morte e religiosidade. A morte de sua noiva Constança, em 1888, marcou profundamente sua vida e sua obra, cujos versos, melancólicos e musicais, são repletos de anjos, serafins, cores roxas e virgens mortas.
(fonte: Itaú Cultural)


Publicado no livro Pastoral aos crentes do amor e da morte: este poema, integrante da série "As Canções", foi incluído no livro “Os cem melhores poemas brasileiros do século”, Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2001, pág. 45, uma seleção de Ítalo Moriconi.


quinta-feira, 18 de junho de 2015

Sorria, você está sendo filmado!


SORRIA, VOCÊ ESTÁ SENDO FILMADO!

De tudo que foi feito à luz divina,
foi tudo muito bom e natural;
foi antes do pecado original
que a vida se vivia sem prantina.

Então, uma serpente mui ladina
achou que era bonito, ainda que mau,
guiar-nos ao processo industrial,
e dar-nos um trabalho que amofina.

A civilização nos prometia
de um tudo, e parecia a perfeição,
o ser humano a ser seu próprio guia(?).

Agora, a encruzilhada é contramão
pra todo lado, e com ebó... Sorria,
estou lhe vendo na televisão!



Nhandeara, 17 de junho de 2015
Marcos Satoru Kawanami



domingo, 7 de junho de 2015

Fogo No Rabo - uma novela do mano Elcarlos

Parte do elenco de Fogo No Rabo, da TV PIRATA.
Da direita para a esquerda: Cristina Pereira, Pedro Paulo Rangel,
Louise Cardoso, Diogo Vilela, Ney Latorraca e Débora Bloch.

FOGO NO RABO – uma novela do mano Elcarlos

         A reprise da novela Fogo no rabo tem aguçado a imaginação da minha cachorrinha, que passou a perseguir o próprio rabo e lamber a própria periquita. A senhora já lambeu a própria periquita? E o senhor, já lambeu o próprio pau? Minha cachorrinha é mais esperta que nóis tudo...
         Falando em periquita, é esse mesmo o tema da novela, cuja trama está centrada no desequilíbrio ecológico entre duas periquitas sapatonas dubladas por um papagaio tarado, que fazia as duas vozes, e ainda cantava Conceição nos intervalos.
         Conceição não atuou na novela, mas era modelo e atriz, e não tem nada a ver ficar falando da moça aqui, mesmo porque ela levou pau no teste de solfejo, dó ré mi sol fá... É, devia ter cantado fá sol.
         Voltando ao assunto. Uma das periquitas é segurança de uma boate em que só dá galinha, a Boate Galinheiro. Daí vem o ciúme doentio da outra periquita, e ciúme de sapatão... é rola! Tudo por causa do galo do galinheiro, ainda que ele foda com o cu, e durma em cima de um pau. Enfim, o mamão é macho, mas é fruta, e esse galo bota ovo.
         Típico ciúme sem fundamento, o problema é da periquita, que anda murchinha pelos cantos, mas é fértil, principalmente de imaginação. Então, você já viu, ela começa a fazer uma merda atrás da outra até terem de trocar o piso da gaiola.
         Nessa fase de mudanças, a periquita da Boate Galinheiro sofre uma crise de identidade psicofuricular, e resolve dar para o galo. Aí, fudeu, ou muito pelo contrário. A bichice do galo é justamente o que atrai a periquita, que é espada, e se vê mais confusa que corintiano em fla-flu, ou grenal, sei lá, fiquei confuso agora.
         A trama segue enovelada com sucessivos novelos novelísticos, até que Barbosa entra para resolver a parada. Ney Latorraca, que já viu a novela, sabe que Barbosa é o cara, fala feito um retardado, e vai passando o rodo.
         E, já que é reprise, posso contar o final da estória. Barbosa acaba ficando com a Boate Galinheiro, come todas as galinhas, e solta a franga, digo, o galo.
         O galo faz cirurgia de mudança de sexo, e descobre quem realmente ele é: uma franga sapatão! Assim, a periquita segurança consegue seduzir o galo franga sapatão, e o leva para casa, onde passam a viver um ménage-à-trois com a outra periquita.
         O papagaio tarado, inconformado com o desenrolar dos trabalhos, manda eu parar de escrever.
         Eu não o obedeço, afinal, minha patroa é Conceição, que voltou para o morro a sonhar, depois da pacificação e da UPP.
         Falando nisso, cadê a Conceição?
         E o papagaio filho da puta diz: “Conceição tá na UPP, seu corno! Maria UPP, Maria UPP... Canta comigo, veado!”.

Nhandeara, 7 de junho de 2015
Marcos Satoru Kawanami

sexta-feira, 5 de junho de 2015

ficar na mão


FICAR NA MÃO

Sete anos, por Jacó, Raquel sofria,
sofria a todo instante, o ano inteiro,
sentindo que queimava num braseiro
a doce mocidade, a qual partia...

Labão, ainda por cima, deu foi Lia
a fim de desposar Jacó primeiro;
e, pobre de Raquel, que pai fuleiro!,
tramava, assim, deixá-la pra titia?

E nunca se viu tanta carestia
de rola, que estampava, no trigueiro
semblante de Raquel, branca apatia.

Conforto traz às moças tal roteiro,
se, às vezes, encontrarem agonia,
tocando siririca no banheiro.



Nhandeara, 5 de junho de 2015
Marcos Satoru Kawanami