quarta-feira, 22 de abril de 2015

Aleijadinho - filme



CAPÍTULO VII
(DA SERVIDÃO HUMANA)

        Sobre a linha do trem, a solitária esperança do partir e as —mais numerosas—  objetividades da  pedra,  do pau e do aço.  Sobre a linha do trem,  o caminhar do engenho pelos  tempos,  a segurança  de  civilidade,  um rumo  a entreter  a existência,  a possibilidade  do  suicídio...  Ele  toca  a  flautinha de bambu andando na carreira do trem. Cabelo pixaim caído de lado, ainda possuía  a centelha que,  com a idade,  das pupilas vai sumindo.  Queria ser artista! artista! e militar por algo que entendesse justo! e isso!  e aquilo!  e fazer aquilo outro...  que acabou nem  fazendo o mínimo  para seu próprio bem-estar.
        Havendo sido ele cagado —é da mitologia brasileira crer que pessoas muito feias não são nascidas, porém cagadas; certamente por isso o povo do sul  prefira dizer obrar em vez de cagar ou defecar. Então, por caridoso  eufemismo,  havendo  ele  sido obrado no Planalto Central, quis ser artista, desceu às Gerais,  e se  acabou num entorpecente anonimato a esculpir pedra-sabão em Ouro Preto, a antiga e decadente capital. Arranjava-se com menos do que mendiga a subsistência,  às vezes  até envergava  o  dólmã  encurvado da indigência, e se o mal cheiro e a compleição física lhe sentenciassem a condição  de  desvalido,  a cabeça  mantinha-se dura e a altivez era a altivez  surreal dos idealistas.  Ingênuos idealistas, são bons na proporção direta em que tentam ir além do  que  exige  o trato social, e na medida  inversa  da  ojeriza que   inspiram por  suas  ações insociáveis.  Mas envelhecido, despojado de idealismo, restou o humano orgulho e vaidade, ainda que a arrogância já era banida pelo mesmo malho que  ensina  as vantagens do ferro doce sobre a rigidez do aço.  Idem, jamais veio a tentar-lhe a malícia, que é navalha para cortar os outros, mas entre os demais não distingue a carne de quem a manipula.
        Assim, intrometendo-se nas repúblicas estudantis e freqüentando as rodas da boêmia, rejeitava enturmar-se com a "ralé da feira de artesanato" --nem por isso deixou de ser mais miserável que o mais miserável  deles.  Julgava-se discípulo de uma arte  superior,  preferindo  vender suas obras apenas para amigos. E haja mecenas que o sustentassem!
        Breve foi vetado, pela desconfiança ancestral dos que crêem ter  muito a perder, na quase totalidade das repúblicas, inclusive  na dita  em  que  duma feita teve a certeza de amizades sinceras,  e na cuja que deve  aos  seus  préstimos artísticos a tabuleta de entrada mais vistosa da cidade.  Naquela noite clara de lua cheia, ele passava em frente à tabuleta:
        —Vocês envernizaram ela? —pergunta com a voz trêmula de costume.
        —Não. —responde secamente o republicano.
        —É que  de repente vi um certo brilho, assim... —persiste, com ademanes, suplicando diálogo. —Sabe quem fez esta placa? Fui eu.
        Era de se esperar que fosse convidado para beber algo,  como mandava o costume. Mas...
        —Parabéns!  —exclama o estudante em tom de burla, ante ao maltrapilho.
        As experiências de  vida são as mais custosas; a cada geração têm de ser ratificadas,  e são pagas com a própria carne. E aquele que tendo vivenciado  equivalente  humilhação,  foi  tratar  seu reumatismo crônico numa aldeia campesina ao norte da  Sibéria e absteve-se  de alguma  vez  amaldiçoar o dia em que nasceu, aquele nunca existiu.

(Trecho do livro Enredo do Mundo. Esta passagem foi escrita por mim em 1995, quando presenciei meu amigo Ismael Marcelino sofrer tal humilhação. Eu estava à janela do sobrado da esquina entre a Rua dos Paulistas e a Rua Camilo de Brito, no qual funcionava a pensão de Dona Arlete, em Ouro Preto. Percebendo a hostilidade com que ele fora tratado, saí da janela para que ele não me visse, e sua tristeza não fosse ainda maior devido à presença de uma testemunha.)



J'AI FAIM!

Quando eu era estudante secundário (ensino médio, rapeize) na grande capital paulista, eu tinha a ingenuidade de não saber nada e pensar que sabia tudo, ou quase tudo.
Eu sabia que, sabendo ler e sabendo as quatro operações matemáticas, eu poderia aprender qualquer coisa por conta própria, sendo auto-didata: então o essencial eu já sabia. Ah, e sabia também que Isaac Newton criara o Céu e a Terra.
Eu cabulava aula no Sebo do Messias, uma enorme loja de livros usados do centro velho paulistano. Apesar de os livros serem muito baratos, só às vezes eu comprava algum; via de regra, eu ficava a manhã inteira lendo lá mesmo até dar a hora de volver a casa, onde minha avó esperava o estudante exemplar que acordava às 5:30h da alvorada, e ia a pé da Rua Frei Rolim, na Saúde, até a Estação Santa Cruz em Vila Mariana, todos os dias sem falta. Eu respeitava a velha. Quando meu pai foi aprovado na 4ªsérie, minha avó lhe fez um exame com toda a matéria do ano, no qual ele não passou; aí, ela matriculou o coitado de novo na 4ªsérie; foi escutando essa história que eu tive a primeira noção do conceito de: FODER-SE.
Não sei como é hoje, mas, naquela década de 90, os professores apenas regorgitavam o que estava nos livros didáticos; já disse que sabia ler, então, lia em casa, e ia ao sebo ler outras coisas: ora, eu só tinha 16 anos e queria saber como era o Mundo antes de ter a idade suficiente para tal propósito.
Um dos livros que manusiei intitulava-se "J'ai faim!" - "Eu tenho fome!" - não tive vontade de ler, comia bem em casa de vovó, mas isso nunca mais me saiu da cabeça.
Em 1994, ingressei no curso de Astronomia da UFRJ, e logo em seguida parti para Ouro Preto, a fim de estudar Engenharia de Minas, por sugestão de minha sábia irmã.
Passei 45 dias numa república federal da UFOP comendo somente pão-com-manteiga e café puro, até conseguir emprego nos refeitórios da universidade, onde o salário era a refeição.
Em geral, a fauna republicana gastava o dinheiro que seus responsáveis lhes mandavam com coisas fúteis e pouco estudo.
Freqüentava a república um escultor de nome Frank: mulato de olho azul e magérrimo, cheirava mal por falta de banho. Logo descobri que seu nome verdadeiro era Ismael Marcelino, natural de Anápolis, uma cidade de Goiás, e que tinha olhos azuis porque sua mãe também os tinha, sendo alvíssima, enquanto seu pai era um afro-descendente do tipo creoullo tição. Chamavam-no de Frank porque o achavam deveras feio.
Desde que soube seu verdadeiro nome, eu só chamava-o por Ismael, e ele sempre queria conversar comigo porque eu tenho a pachorra de ouvir as pessoas - que nem puta de cabaré -, ao passo que os republicanos já tinham começado a menosprezar o Ismael depois que se cansaram de sua figura cadavérica.
Até que, numa noite, eu fiquei trancado para fora da república, e ninguém quis abrir a porta. Ismael estava comigo, e me ofereceu abrigo na sua casa. Chegando lá, não havia móveis na casa, só um sofá, um fogão e um guarda-comida, em que encontramos um pouco de farinha de mandioca e um único ovo. Como nós não tínhamos jantado, ele fez o ovo mexido com a farinha e colocou em dois pratos rasos, pouquíssima comida. Para minha surpresa, Ismael ainda me deu o prato com mais comida.
Passados alguns meses, eu voltava da aula quando encontrei o Ismael sentadinho todo encolhido na soleira duma farmácia. Nós conversamos amenidades, disse-me que estava tomando um pouco de sol...
Só hoje eu percebo. Careceram se passar 15 anos de ingenuidade para eu perceber: Ismael estava doente, na porta da farmácia em postura mendicante, mas sua hombridade lhe embargava a voz para dizer: "Amigo, me ajude com a conta do remédio?" ou talvez "J'ai faim!".

Nhandeara, 10 de março de 2010
Marcos Satoru Kawanami


terça-feira, 21 de abril de 2015

Guilherme de Almeida, livro Messidor, parte Nós, soneto IX

Guilherme de Almeida entrevistado
por Maria Tereza Cavalheiro.

IX

Nessa tua janela, solitário,
entre as grades douradas da gaiola,
teu amigo de exílio, teu canário
canta, e eu sei que esse canto te consola.

E, lá na rua, o povo tumultuário,
ouvindo o canto que daqui se evola,
crê que é o nosso romance extraordinário
que naquela canção se desenrola.

Mas, cedo ou tarde, encontrarás, um dia,
calado e frio, na gaiola fria,
o teu canário que cantava tanto.

E eu chorarei. Teu pobre confidente
ensinou-me a chorar tão docemente,
que todo o mundo pensará que eu canto.

Guilherme de Almeida


terça-feira, 7 de abril de 2015

a infinita dor por nada

O ser humano pode, pela força do intelecto,
superar a condição primitiva apresentada
por Arthur Schopenhauer nesta obra.

A INFINITA DOR POR NADA

Mas como explicarei a ter deixado?,
se nunca mais encontro a minha amada,
tão cedo deste mundo desterrada,
por quem, vivendo aqui, sou desterrado.

Fui réu, e meu juiz era togado
na lei mais de viés enviesada
da pena da infinita dor por nada,
a lei de alguém querer ser condenado.

Eu era bem menino, feito Dante
naquele seu amor por Beatrice,
volvi à minha pátria, tão distante...

Foi súbita a partida, e nada disse
a ela, na prisão de ser infante;
depois..., ela partiu, sem que eu a visse.



Nhandeara, 7 de abril de 2015
Marcos Satoru Kawanami




OBSERVAÇÃO: Neste soneto, imaginei um eu-lírico adepto de Arthur Schopenhauer, que afirmava que "O amor é ilusão a favor da espécie.". Eu, pessoalmente, acho que a afirmação de Schopenhauer é correta em um primeiro momento, mas a razão pode superá-la a fim de um amor mais elevado e mais completamente humano.

domingo, 5 de abril de 2015

A luz brilhou nas trevas, mas as trevas não a receberam.


1 No princípio existia o Verbo;
o Verbo estava em Deus;
e o Verbo era Deus.
2 No princípio Ele estava em Deus.
3 Por Ele é que tudo começou a existir;
e sem Ele nada veio à existência.
4 Nele é que estava a Vida
de tudo o que veio a existir.
E a Vida era a Luz dos homens.
5 A Luz brilhou nas trevas,
mas as trevas não a receberam.
6 Apareceu um homem, enviado por Deus, que se chamava João. 7 Este vinha como testemunha, para dar testemunho da Luz e todos crerem por meio dele. 8 Ele não era a Luz, mas vinha para dar testemunho da Luz.
9 O Verbo era a Luz verdadeira,
que, ao vir ao mundo,
a todo o homem ilumina.
10 Ele estava no mundo
e por Ele o mundo veio à existência,
mas o mundo não o reconheceu.
11 Veio para o que era seu,
e os seus não o receberam.
12 Mas, a quantos o receberam,
aos que nele creem,
deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.
13 Estes não nasceram de laços de sangue,
nem de um impulso da carne,
nem da vontade de um homem,
mas sim de Deus.


(Evangelho segundo São João 1, 1-13)