quinta-feira, 5 de março de 2015

Irmã Dulce - soneto: caravana



CARAVANA

Eu sei que não saber não dá ciência,
a mim, do que não sei, sabendo ou não,
de tudo que, com lógica e razão,
conheço e sei que sei, por evidência.

Conduz-me tosca mão, rapaz prudência,
contudo, se é o saber a devoção
à qual, estulto, entrego o coração
no torpe turbilhão das aparências...

Pondero que não há que mais saber,
nem houve nunca, desde aquele pomo,
que vem se deglutindo sem querer.

A bem desses milênios, quê hoje somos
além de caravana a percorrer
o espaço numa busca do que fomos?



Marcos Satoru Kawanami

4 comentários :

Arco-Íris de Frida disse...

Sabemos algo?

Laura Santos disse...

E continuaremos apenas e sempre a ser essa caravana que busca infinitamente.
xx

Rafaela Figueiredo disse...

pois é, poeta, incessantes...

tua rima lembrou a minha:
(...)
pois que ao dia julga-se o cansaço
das horas rasas do que somos
mas somente à noite tem-se a prova
da visível massa do que fomos

bjo

JAIRCLOPES disse...

Estultice em mim

Eu não sei que saber dá ciência boa,
O que sei não vale um tostão furado,
Meu saber desliza para o nada a toa,
Sapiência é somente um cu apertado.

Talvez seja qualidade a minha burrice
Que carrego neste mundo aborrecido
Apedeuta, em mim profunda estultice
Que conspícua e humilhante tem sido.

Como mais aprender, não tenho ideia
De todos que conheço fico pois atrás
Nunca o palco, meu lugar é na plateia.

Essa burrice em mim é total, contumaz
Se algum dia, o saber em mim estreia
Nem imagino do que poderei ser capaz.