domingo, 27 de dezembro de 2015

MARIA FLOR

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MARIA FLOR

Maria Flor, és flor além do pensamento,
envolves todo o espaço em flores de poema,
fazendo a luz sorrir na tela do cinema,
fazendo a luz luzir em todo o firmamento.

Maria Flor, te peco, e peco em desalento,
sapeco-me a bulir em luz de chama extrema,
mas aguentar não dá (como agüentar sem trema?),
e entendo que meu mal é o nono mandamento.

Seja estranho escrever o que eu agora escrevo,
poema e sensatez não travam amizade
pelo que aqui se vê, porém parar não devo.

Porquanto é sensatez ou é sobriedade,
mas não é poesia, achar aquele trevo
de quatro folhas sem lembrar da mocidade.


Nhandeara, 27 de dezembro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


sábado, 5 de dezembro de 2015

Nihil Obstat



NIHIL OBSTAT

Que belas letras letras belas fazem?,
dispostas em figuras de linguagem,
dizendo quase tudo e mais bobagem,
na tela ou no papel onde elas jazem.

As letras em um texto, embora casem,
às vezes dão vazão a sacanagem,
mormente se elas forem da linhagem
das quais usou Bocage, e aqui o trazem.

Falácia humana, é tudo palavrório,
porém diverte a gente na jornada,
pois tem o mundo um tanto de ilusório.

E, se alguma porção me é destinada
das letras belas, faço meritório
soneto que se diz e não diz nada.


Nhandeara, 5 de dezembro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


sábado, 28 de novembro de 2015

A INAUDITA DO CONSERVATÓRIO


A INAUDITA DO CONSERVATÓRIO

Nos fundos do conservatório, habita
clarinetista muda e mutuária,
que teima nessa vida proletária,
e teima em prosseguir inda inaudita.

Cantar não deixa nem a periquita,
por quem se cantariam quantas árias
quisesse, se ela fora perdulária
em termos de dar malho para brita.

Mas passa linda e loira, casta... e casta,
sem nunca reparar na silhueta,
usando sempre a mesma roupa gasta.

Também não reparando na etiqueta,
eu acho que ela pode dar um basta
na surdina que impõe à clarineta!


Nhandeara, 28 de novembro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


quarta-feira, 25 de novembro de 2015

RABUGEM


RABUGEM

Rabugem, como o nome diz, começa
pelo rabo, e avança rumo à fuça
do bicho, o qual a vista nos aguça,
inspirando cuidado, e dó à beça.

Parece lepra, mas não é, pois essa
agrava o caso pra quem se debruça
tentando esmiuçá-lo, e se esmiúça
em cômica, banal e leve peça.

Rabugem é o que tem minha cachorra!:
cheguei em casa, a vi coçando o rabo
com displicência, na maior pachorra...

Só álcool não resolve, o mal é brabo,
se tenho recorrido até à borra
de café, sem vencer em dar-lhe cabo!


Nhandeara, 25 de novembro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


segunda-feira, 23 de novembro de 2015

LUGAR DE PENITENTE


LUGAR DE PENITENTE

O meu cachorro tem a me ensinar
bastante sobre graça e lealdade,
e ajuda-me a entender a caridade,
deixando eu me botar em seu lugar.

Um gato talvez tenha a me mostrar,
com distinta e sagaz felinidade,
que dono do cachorro, na verdade,
não sou, se nem sou dono do meu lar.

Um porco é sempre espelho para mim,
que junto à porcaria estou contente
pensando que este mundo não tem fim.

Um verme estampa o quão precariamente
sustento as ilusões ao ser, e, assim,
encontro meu lugar de penitente.


Nhandeara, 22 de novembro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


sábado, 21 de novembro de 2015

TREM


TREM

É muito estranhamente apetecido
um apogeu, sabendo que lhe segue
a lei da decadência, à qual, entregue,
ladeira abaixo vai quem tem subido.

Subindo um monte, espera distraído
a hora de descer, isso não negue
quem da dinâmica beber consegue,
ou quem bastantes montes tem descido.

Então, é natural que a Humanidade
por senda sinuosa sempre esteja
sentindo algo parelho à Gravidade.

E, quem no escuro vê, que agora veja
a luz no fim do túnel da maldade,
e, findo todo o Tempo, a Eternidade.


Nhandeara, 21 de novembro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


SONETO RUPESTRE


SONETO RUPESTRE

Sejamos e ensejemos o futuro,
que é hoje, que foi ontem, não é mais
aquele de há bem pouco tempo atrás,
pois muda que nem juro sobre juro.

Nascemos, e, ao nascermos, vem o apuro
da transitoriedade e coisas tais
que herdamos sem querer dos ancestrais
viventes de caverna em tempo obscuro...

Nem lembro em que caverna fui nascer,
mas foi uma do tipo apartamento
que viu a minha infância florescer.

Floresci em completo embotamento,
e só o que aprendi foi escrever
rupestres versos para o esquecimento.


Nhandeara, 21 de novembro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


quarta-feira, 18 de novembro de 2015

MISSÃO MARTE


MISSÃO MARTE

Enforca-se na própria liberdade
igual a um cão na rua atropelado
achando que foi bom ver o outro lado
do mundo, sem portão nem muro ou grade.

Demonstra uma medonha habilidade
em se ferrar sozinho, em ser lesado,
o ser humano alegre e libertado,
vivendo uma ilusão de liberdade.

Mas lixo é o que produz, e, envaidecido,
faz marketing do lixo em toda parte,
se achando o Criador, e mais sabido.

Faz lixo até chegar no estado da arte,
e, enquanto este planeta é entupido,
já pensa em fazer lixo lá em Marte!


Nhandeara, 18 de novembro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


MARCHEMOS


MARCHEMOS

Jornal, não quero mais saber de nada
do mundo de hoje em dia, a novidade
que dá, tal qual quem tira, à Humanidade,
humanidade tosca, esvaziada.

De tanto ter a vista calejada
de infâmia, vilania, atrocidade,
começa a aceitar qualquer maldade
a alma, que se torna desalmada.

Não quero me alijar do sentimento
que dá sentido a tudo, e tenho fé
que a fé do ser humano é incremento.

Deixar o amor divino é marcha à ré;
marchemos e marchemos sempre atentos,
sensíveis à Verdade que mais é.


Nhandeara, 18 de novembro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


terça-feira, 10 de novembro de 2015

MARIANA 2015

coreto da cidade de Mariana - MG

MARIANA 2015

Mariana, o coreto nos espera
com anjos entoando o canto lírico
daquele ocaso enevoado, onírico,
da tua debutante primavera.

Em tudo, o simbolismo da atmosfera
alheia-nos do rude senso empírico,
e os anjos são apenas um eu-lírico
cantando no coreto em outra era.

A nossa juventude resplandece:
contempla, Mariana, o tempo bom,
o qual, na eternidade, permanece.

A doce melodia, o doce som,
é coisa do momento, e te entristece,
mas tudo é orquestrado em justo tom.


Nhandeara, 10 de novembro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


segunda-feira, 9 de novembro de 2015

FLATO VERÍDICO


FLATO VERÍDICO

O peido sai da peida, e é um gás
translúcido, odorífico, butano
mesclado com partículas do humano
cocô, e vem daí o seu cartaz.

O peido é igual a filho, só quem faz
aguenta. Digo isso sem engano,
pois peido é sobre a gente soberano,
e, às vezes, é questão de guerra e paz.

Falar como se a boca fosse o cu
apraz quem reconhece, na humildade,
a leda condição de ser jacu.

Mas, tendo o erudito a tal vontade,
irá peidar, e, aí, o deixo nu,
despido de qualquer vã veleidade.


Nhandeara, 9 de novembro de 2015
Marcos Satoru Kawanami



— O que uma nádega disse para a outra?
— Que merda nenhuma nos separe!
(Paulinho Gogó)


"Filho é que nem peido: só aguenta quem faz."
(Ary Toledo)


"O que seria do doce de coco se não fosse o acento circunflexo?"
(Antônio Maria)

sábado, 7 de novembro de 2015

PAPEL


PAPEL

Papel: palavra para que se guarde
palavra e mais palavra, num fichário,
num livro, num caderno, num armário,
a fim de ser palavra até mais tarde.

Papel, prensada celulose, aguarde,
no lixo reciclável, rumo vário,
pois tem a sua força em ser precário,
nascendo novamente, se não arde.

Quem sou: palavra para que se leia
quem sou agora, só que no futuro,
pois nunca existe agora, agora creia.

Quem sou, creio?, já cri, e ainda juro
que não devo jurar, o juro enleia
quem deve, e, devedor, não quero apuro.


Nhandeara, 7 de novembro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


quinta-feira, 29 de outubro de 2015

MAIS RUIM


MAIS RUIM

Eis o mais ruim soneto deste mundo,
difícil é fazer assaz mal feito
se o escopo é o mal feito ser bem feito
e ser capolavoro em vagabundo!

Se a bunda fosse macho, ela era bundo;
se faço cooper, tenho o cooper feito;
se aquele que mais rouba é que é eleito;
qualquer buraco raso ainda tem fundo.

A merda aduba a terra, e sai da bunda,
de modo que é da bunda o bom insumo
agrícola que faz os pau crescer.

Ofereço esta obra pra Raimunda,
que rege com o rabo o humano rumo
do puto que ora põe-se a escrever.


Nhandeara, 29 de outubro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Musa Feia - Ordinário


MUSA FEIA

O que te escreverei?, oh, musa feia,
se nada me afeiçoo a ser Balzac,
se há musas mais jeitosas no Projac
que vejo na TV, de estrelas cheia.

Ainda que em jornais eu pegue e leia
notícias pelas quais tomam Prozac
ou também se embebedam com cognac,
somente a musa bela é quem me enleia.

Porquanto não vou eu fazer justiça
consertando este mundo em desconserto,
musa balzaquiana não me atiça.

É de Cupido a pena por que verto
a tinta que de ingênua nunca enguiça,
mas sei que, na razão, me falta acerto.


Nhandeara, 25 de outubro de 2015
Marcos Satoru Kawanami



ORDINÁRIO

Não devo duvidar do bem eterno,
todavia, o ignoro com frequência
a fim de não viver em reticência,
contemplativamente em mundo interno.

É triste quando esqueço o tom fraterno,
partindo para a gana, a eloquência
sanguínea da profana permanência
no estado de desgraça, agudo inverno.

A minha salvação não vem de mim,
estou neste dramático cenário
porque, a cada ação, cumpro meu fim.

De modo que ser bom não é fadário
humano, pois só Deus é bom, e assim
exerço meu papel sendo ordinário.


Nhandeara, 27 de outubro de 2015
Marcos Satoru Kawanami

sábado, 17 de outubro de 2015

À Mão


À MÃO

Escrevo à mão, artesanato escrito
com escassa ou nenhuma pretensão
por parte deste anônimo artesão
que escreve à própria mão, como foi dito.

E diz a mão: “Será o Benedito?!”,
pois ela não carece reflexão,
mas piedosamente dá atenção
às musas do cerrado quando as fito.

Escrevo à mão, que é cega, quão bonita
é a ingênua musa do meu casto olhar
caipira bem feliz que o mato habita.

E a mão, que é surda, então, faço escutar
a musa sibilante que nos fita,
estando eu este verso a recitar.


Nhandeara, 17 de outubro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Pira Olímpica


PIRA OLÍMPICA

Em prol da Cristandade, transgressora
na laica sociedade em que morremos
bebendo da loucura, em que não cremos,
esgrime a minha pena defensora.

A pálida lembrança do que fora
a escola do martírio em que vivemos
outrora é o hoje em dia por que temos
de regressar à Igreja precursora.

A cada geração, o bom combate
é pira olímpica na qual persiste
a caridade, imune ao disparate.

Mas, Cristo, desde aonde tu subiste,
verte o Espírito Santo no resgate
também da pena vil que tenho em riste.


Nhandeara, 16 de outubro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


terça-feira, 13 de outubro de 2015

SOFRÊNCIA


SOFRÊNCIA

Eu via, à beira do riacho fundo,
o quanto nada vejo do que sou,
o quanto apenas vejo o que passou,
o quanto é cego meu andar no mundo.

Estranho enlevo de um meditabundo
enleva o estranho ritmo no qual vou
chegando no lugar que não chegou,
estando à beira do riacho fundo.

Porquanto um tal riacho não existe
naquela profundeza que eu sentia
a tarde enluarada em que partiste.

E é tarde enluarada todo dia
que nasce desde quando um mundo triste,
à beira do riacho fundo, eu via.


Nhandeara, 13 de outubro de 2015
Marcos Satoru Kawanami


quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Quarta Dimensão

Quem está na 1ª dimensão não percebe a 2ª dimensão, a não ser
por um ponto que por ventura cruze seu caminho.

Quem está na 2ª dimensão não percebe a 3ª dimensão, a não ser
por um segmento de reta que intercepte seu caminho.

Nós, da 3ª dimensão, não percebemos a 4ª dimensão, a não ser
por uma imagem que apareça no tempo em
que estamos.

ADORA

conciliando razão e fé,
pois a fé é um raciocínio.

ADORA

Além do tempo, ou tudo ou nada, a sorte
ou vai ou racha, ou nada de mais nada
sem sorte e sem azar, sem mais estrada
de dor ou de prazer, o fim, a morte?

Aquém do tempo, alguém há que reporte
notícia senão Deus? lá na sagrada
escritura, hoje em dia desprezada
a troco da mentira em grande porte.

Além do tempo, aquém do tempo, fora
do cosmo que conhece o telescópio,
verdade mui singela sempre mora.

E a verdade jamais está no ópio,
mas na razão, que entende a fé, e adora
a Deus, que nos irmana nEle próprio.


Nhandeara, 8 de outubro de 2015
Marcos Satoru Kawanami