quarta-feira, 19 de novembro de 2014

quaresma


QUARESMA

Cortei os pulsos, não queria a morte,
queria só saber como é que era
a morte, sem morrer, numa atmosfera
à parte até cicatrizar-se o corte.

Assim aconteceu, pois tenho sorte;
caí de supetão numa cratera,
matei, por ser cristão, a Besta fera,
e, agora, só em Cristo tenho um norte.

Escrevi, não queria ser poeta,
queria só saber se dava certo,
já que Camões também fora um atleta.

Atleta eu era, amava o campo aberto,
e vocação não tinha para esteta,
mas flores plantou Cristo em meu deserto.



Nhandeara, 19 de novembro de 2014
Marcos Satoru Kawanami



Note Bem: Nunca cortei os pulsos. Quase tudo o que escrevo é ficção, mas na blogosfera cabe esse tipo de explicação, porque é um ambiente em que se costuma ser autobiográfico.

2 comentários :

Laura Santos disse...

Que ressurreição a tua!
E que grande fascínio e homenagem a Cristo e a Camões num belo soneto!
xx

José Carlos Sant Anna disse...

É para nos deixar em silêncio... Este poema é uma expiação por ter cortado os pulsos?