quinta-feira, 25 de setembro de 2014

PURGANTE

video


PURGANTE

Cagar é nossa norma, cague bem
e sem vergonha, cague todo dia;
cagar é coisa mais do que sadia,
cague cá, cague lá, e cague além.

Cagada, quem já fez aprova, e tem
apreço na cagada à revelia;
se aquele que não caga a repudia,
está só no despeito seu desdém.

Contudo, a ser cagão não seja afeito,
nem queira ser seu cu intrometido
em demandar, em ir pro pau em pleito.

E creia que a cagada mor tem sido
o não cagar conforme é de direito,
e assim morrer de fezes entupido!



Nhandeara, 25 de setembro de 2014
Marcos Satoru Kawanami

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Spiral on the Sphere - Espiral na Esfera

Em graus, mas o gráfico fica melhor em radianos.



Uz = unidade do eixo Z
explicação para a folha 2




ESPIRAL

Como el clavel sobre su vara,
como el clavel, es el cohete:
es un clavel que se dispara.

Como el cohete el torbellino:
sube hasta el cielo y se desgrana,
canto de pájaro en un pino.

Como el clavel y como el viento
el caracol es un cohete:
petrificado movimiento.

Y la espiral en cada cosa
su vibración difunde en giros:
el movimiento no reposa.

Octavio Paz


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O IDIOTA - filme feito a partir da novela de Fiódor Dostoiévski

LINK

Soneto ao Idiota

Tudo de bom já foi escrito; e eu:
que poderei somar à arte escrita?,
pois, hoje em dia, quem escreve, imita
as ideias de alguém que já morreu.

Infeliz todo aquele que nasceu
na era Huxley, época maldita:
com pena não se escreve, se digita
o grito! que é da máquina, ou meu?

Não termino o soneto, e já se esgota
a lástima que eu tinha a esparramar,
e, quem lê, faz a vez de um idiota

que quer ver onde é que isto vai dar:
vai dar no céu, no mar, na flor que brota...
de todos os clichês da dor de amar.



Dumont, 1 de abril de 2005
Marcos Satoru Kawanami

terça-feira, 9 de setembro de 2014

LÍRIOS DO CAMPO

LINK

"O melhor filme que já vi foi Casablanca."
(Chico Anysio)

Eu finalmente vi o filme Casablanca, e, apesar de preferir outros, achei-o bom.



LÍRIOS DO CAMPO

hebreia,
dei-te um lírio
por amor.
por amor,
deite um lírio
no chão frio do meu delírio:
campo gris,
quando eu não-for...

Marcos Satoru Kawanami



AS TIME GOES BY - canção do filme

You must remember this

A kiss is still a kiss
A sigh is just a sigh

The fundamental things apply
As time goes by
And when two lovers woo
They still say ,"I love you"
On that you can rely

No matter what the future brings

As time goes by
Moonlight and love songs
Never out of date
Hearts full of passion
Jealousy and hate
Woman needs man
And man must have his mate
That no one can deny

It's still the same old story
A fight for love and glory
A case of do or die
The world will always welcome lovers
As time goes by

Herman Hupfeld



AS TIME GOES BY...

The initial movement moves on
until today, in many
verbs and things; it’s only one
single Word all words and any;
like a row of dominos
striken by ones naughty toe.

But, unlike a foolish game,
has a purpose there above’s
naughty toe without a name,
that is struggle become love
in a row of many times
as time goes by through folks lives.

So, in beauty seek your trouble,
and delight yourself the double!


Marcos Satoru Kawanami

domingo, 7 de setembro de 2014

Francisco Convenciona

Estação da Luz e Avenida Tiradentes em 1900.


SONETO NACIONAL

Nasceu lá no Ipiranga a pátria amada
de um povo bonachão e sempre plácido,
mas de brio resistente ao próprio ácido
gástrico a digerir a feijoada!

Fulguras, ó Brasil da caçoada,
qual um tendão-de-Aquiles cá da América;
porque, se primas na tragédia homérica,
tua comédia é a mais esculhambada!

Mas, se ergues da Justiça a clava forte,
verás que um filho teu, se foge à luta,
o faz somente em nome da labuta;

e, ao fugir do batente até a morte,
canta mais alto seu canto guerreiro
na cadência a sambar, bem brasileiro...


Marcos Satoru Kawanami




Escrevi este conto com 16 anos de idade, foram 11 páginas manuscritas em 7 de setembro de 1992:


FRANCISCO CONVENCIONA
  
            Manhã de segunda-feira; adejava a asmática São Paulo cinzento véu de estopa suja. Por ocasião do sete de setembro, José, menino, encontrava-se desocupado em casa quando o telefone soou. Era seu primo Francisco, que lhe convidava a acompanhá-lo ao desfile da independência. Combinaram se encontrar a caminho, no Viaduto Dona Paulina, em frente ao Sebo do Messias. Assim fizeram, e seguiram de metrô o restante do percurso.
            Apesar de ser dia do sol aparecer: segunda-feira, início da semana e dia útil, era feriado e, portanto, agraciava o paulistano chuva e frio, infalível... Nestas condições subiam os dois primos  pelas  escadas  rolantes da estação Tiradentes,  e já desciam  a  avenida  onde  dobrados  e  marchas  insinuavam anunciar a passagem de um grande circo. A certa distância, uns cinqüenta metros de onde estavam, o povo se aglomerava. José quis saber das arquibancadas, pois só via o palanque de autoridades,  em destaque,  e os espectadores ao longo da pista. A ele e seus dez inocentes  anos  de  idade,  respondeu Francisco com ares de presunçosa  superioridade  de dezesseis, dizendo que o outro estava a confundir a metralhadora  do  soldado  com o  reco-reco do passista, e os dourados do  almirante  de  fragata  com os da porta-bandeira e mestre-sala;  misturando pelotão de artilharia com  escola de samba,  e desfile da pátria com carnaval.   Pois  arquibancada  na rua,  só no  carnaval,  e cara. Sim, vamos assistir em pé.
            José pareceu não gostar muito  desse  negócio  de  não haver onde acomodar as pequenas nádegas, mas aguentou-se calado por  alguns minutos ao cabo dos quais mais nada queria com a pátria malvada que não deixava ele se sentar, e já conspirava uma maneira de enredar o primo a seguir as mesmas intenções suas: ir embora!
            —Chato essa chuva, não é?   Olha,  pela cor do céu e pelo que a moça da televisão disse, vai continuar.   E  a  gente nem pra lembrar do guarda-chuva...ai ai ai.
            Francisco mantinha postura ereta, "garbosa e varonil", impecavelmente patriota, impecavelmente encharcado. Pense na nobreza deste dia —começou a dizer—  imagine o sacrifício dos heróis que fizeram do Brasil um país livre, e verás quão insignificante é este nosso incômodo.
            —Ora pois sim,—  José buscava argumentos  que  favorecessem seu lado (ir embora) e depreciassem a  importância  do desfile  —que sacrifícios?  que heróis? Você delira.   "Independência ou morte!"  e acabou-se.  A colônia do pai virou império do filho; tudo em família, tudo na santa paz.
            —Disse pouco, mas disse bem, tudo na  santa  paz.   Assim  foi nossa independência,  o que não é vergonha alguma. Antes, é fato que vem a distingui-la mais ainda,  posto que maior proeza que  valer-se da  espada por um agravo qualquer  é guardá-la precavidamente na bainha,  e tê-la  segura  à  mão quando de uma emboscada.
            —Espada? bainha? emboscada? quiii...
            Pondo de lado sua vontade de ir embora, José começava a se preocupar com o raro comportamento do primo.  Com efeito, Francisco nunca havia se revelado ser assim um filho  tão ardoroso da pátria. Pelo contrário, sempre se mostrava indiferente  e quase  cético ante as paixões da coletividade ou as aspirações pessoais próprias da mocidade, nele inexistentes. Sobre essa disfunção de comportamento, José  ponderava  em sua mente infantil que Francisco só poderia estar ensandecendo.   Levando a mão ao rosto do primo ainda lhe perguntou se não estaria com febre;   o  outro  respondeu  cantando:   "Amor febril...pelo Brasil".
            Não passaria isso  de uma troça das que os mais velhos costumam tascar nos menores?   Acometido por esta ideia, José franziu a testa e fez brincando:
            —Ô, senhor, não venha você agora com chacota pro meu lado!
            Vendo ele que o primo  não  atentara  às  suas palavras,  proferidas em meio ao zumbido da multidão  e  ao  repicar das caixas-de-guerra, aproveitou para examiná-lo melhor, porém um tanto  ainda  desconfiado.   Francisco não lhe pareceu estar agindo muito  conforme  o  ordinário  de sua personalidade; também, por outro lado, sinal nenhum de  representação  ou disfarce deixava-se transparecer sob seu semblante.
            Francisco  era outro.   Símbolos nacionais,  armas e generais,  motivos seus de indiferença,  ojeriza  e  mofa de outrora, mais pareciam nesse instante inspirar-lhe contemplação, orgulho e respeito.
            —Ei, acorda Fran-cis-co!
            —Eu.
            —Que aconteceu contigo?   Donde  veio essa ideia de heróis com espada embainhada, nobre dia, amor febril... que raio  de patriotismo é esse que menos deve ter caído do céu que fugido do inferno?! Assusta-me com a brincadeira.  Olha, não tem graça nenhuma: você está todo molhado,  eu também, e a pátria nem aí conosco.   Sua mãe eu não sei, mas a minha vai ficar fula da vida quando me  ver nesse estado de roupa no varal.   Está me escutando, sim?
            Francisco escutava muito bem.   Na  verdade não era sua intenção aparentar-se tão absorto em seu patriotismo.   Buscava  tão  somente  ilustrar um assunto sobre o qual discorreria ao término do desfile.
            —Sabe o que é, tenho coisas a contar para você.
            —Correto  —replicou José ironicamente  —e por isso,  concordo, havemos de ficar na chuva.
            —Não, ali.
            Afastando-se da multidão,  encontraram  abrigo  sob um ponto de ônibus que se achava  deserto devido à interdição  da avenida aos veículos.   Da mesma  forma  como  esteve  até agora,  com a fronte voltada para o lado do desfile, Francisco iniciou o que tinha a dizer.
            —A questão é simples: convencionar.
            —Eu —prosseguiu Francisco em tom  mais grave e voltando-se para o outro —falo do viver. Raramente pode ser que eu tenha dado mostras de que penso nisso, mas acredite, é o que mais vem me afligindo de tempos para cá. Por isso, conto a você.   Vejo a vida ser traçada  por  convenções,  e  dessas dependem nosso estado geral de ânimo,  idéias,  reações; são como bússolas internas a nortear nossas ações. Não importa que rumo tome a nossa existência desde que  esteja  previamente convencionado,  e que seja respeitada integralmente a convenção.
            José, atordoado,  mais querendo saber o porquê destas palavras do que compreender sentido algum que viessem a ter. Francisco, falando.
            —O desequilíbrio não é  necessariamente  a loucura; são coisas distintas.   Fique claro:  o louco, pela própria loucura, já chegou ao equilíbrio. Porque o louco é coerente.   Prova é que,  depois  de conhecido, suas ações são previsíveis, ou previsivelmente imprevisíveis. O louco convencionou-se. Portanto, o desequilíbrio pode até anteceder a loucura, mas esta sobreviria como benefício.   De modo que nada  do que digo faz menção à loucura,  abordo a questão do desequilíbrio.
            Algo vinha, de forma crescente,  a preocupar-lhe  já há algum tempo; inicialmente uma intuição  desagradável.   Cada vez  mais  a vida  ia como que esvaindo-se das pessoas.   Os ponteiros  dos relógios,  os  carros nas ruas, a agitação usual da cidade,   e tudo  que provinha  desta  Humanidade,  parecia mover-se por inércia, existir pelo hábito de existir,  tudo assim parecia ficção, depois sonho, ao fim, farsa!   Estava no mês de maio, neste ponto sua aflição era máxima: a civilização  prestes a parar.   Sim, parar porque não encontrava motivo concreto a explicar o sentido  das  coisas  humanas estarem dispostas como estão ou, ao menos, de assim permanecerem.
            —Chegava primeiro de setembro.  Mas nada parava. Ainda, era eu que sentia estar  parando  perante a indiferença agonizante com que tudo se acelerava ao meu redor. Foi neste dia que correu em meu auxílio Fernando Pessoa: sofreria dos olhos quem pensasse? Estaria eu vendo a realidade pelos enganosos prismas do  —foi então que me ocorreu— desequilíbrio? Ou desequilibrada era essa gente que vivia a sustentar  a  farsa?   Para facilitar o problema, preferi considerar a primeira hipótese.   Porém, as  divagações  recusavam-se perniciosamente a seguir o traçado prescrito,  conduzindo-me  o  mais das vezes a procurar o desequilíbrio em outrem. Não raro, o encontrei.
            Francisco com ademanes fez uma pausa.  O outro, que permanecia calado, aproveitou para se pronunciar:
            —Então você não era desequilibrado?   Mas  todo o mundo  também não poderia ser. Quem ficaria sendo finalmente?
            —Priminho, vamos mais devagar.  O desequilíbrio  é  muito  comum e suas causas diversas.   A princípio,  um exemplo,  o que nos dá meu tio,  seu pai.
            —Não! —o menino se assustou —É bem verdade que de uns anos para cá ele  tenha ficado estranho,  meio triste,  fala menos...  mas para lá de ser louco!
            —Louco? nem pensar. Digo desequilibrado, e com justa causa. Não era seu pai que,  quando moço, imaginava o homem a dobrar por completo a natureza a sua vontade? que acreditava que seu trabalho engrandeceria o país, e traria a si reconhecimento e prestígio?
            —Sim.
            —Pois não é ele mesmo que vinte anos mais tarde,  hoje, vê aquele homem retroceder perante  a  revolta da natureza,  e vê seu  país vinte anos mais moderno e endividado?   Não  é ele  mesmo que  projetava ser  através de seu esforço reconhecido,  e que trabalhou  com  afinco  pra  que  dois anos atrás fosse suprimido por um amontoado de fios e plástico e ferro?
            —Estou entendendo...
            —Os antigos valores —concluía Francisco  —sobre  os quais  seu  pai edificou a vida extinguiram-se, e ele quedou desequilibrado.  Veja, esses valores extintos nada mais  são  que  convenções quebradas.  Apesar de se apresentarem de formas distintas,  a causa  régia do  desequilíbrio  de  seu pai é a aflição  que se instalou na mente dele por ocasião da dissolução de suas convenções. E isto é igualmente válido para os demais casos.
            —Agora atropelei as idéias, confundi...
            —Você entenderá. Conhece Hurtado?
            —É,  por acaso, aquele bandoleiro —ele já ensaiava um sorriso maldoso no canto da boca —que foi preso quando se confessava na igreja!?
            —Ele mesmo,  o lendário  Hurtado  de Santa Cruz De La Sierra,  o demônio branco; que foi preso no confessionário. Era desequilibrado.
            —Os malfeitores   —retrucou José absoluto  —são  desequilibrados.   O desequilíbrio leva à prática do insensato, ao mal caminho.
            —Pois eu digo que o desequilíbrio de Hurtado foi o bom caminho.  Ele era bandido e portava-se como tal, era astuto e por isso nunca era pego; suas ações eram ditadas pelo ruim; sua vida, pecado; sua consciência,  limpa;  ele, feliz. Naquele momento da confissão, suas convenções  dissolveram-se.  A fé, equilíbrio de outros, foi, no caso de Hurtado,  refúgio  do desequilíbrio.   De maneira que o problema reside primeiro nas convenções,  segundo na quebra das mesmas; e ainda depende da personalidade.
            —Quer dizer que todos estamos sujeitos?
            —Desde que  deixemos  de  crer  nas razões dos motivos de nossas ações, nas diretrizes de nossas vidas. Seja uma balança, dum lado os motivos, do outro a crença; esta desaparece e os motivos  não têm mais resposta, seu peso faz pender  a  haste,  eis que se estabelece o desequilíbrio.   O resultado imediato  é  aparentado  pelo  profundo  desgosto,  desânimo,  tristeza; o que hodiernamente  recebeu na  terminologia psiquiátrica a designação de  depressão.
            —A amargura,  a tristeza  —deduzia José alumiado  —a tristeza  do Policarpo, de Lima Barreto? era ele desequilibrado?
            —Policarpo? —Francisco fez surpreso   —Vejamos o sonhador major Policarpo Quaresma:  não, desequilibrado não, triste, quiçá...Mas você conhece a estória?
            —Sim.
            —Bem,  as convenções dele nunca se quebraram.   O seu martírio veio de fora. Aos dezoito anos convencionou: seu ideal seria a pátria,  a  pátria seu maior afeto, e pela pátria viveria.   No cárcere,  anos depois, uma lágrima despontava em sua face a percorrer rugas sexagenárias, testemunhas do ideal, do amor da vida de um pobre bastardo do mundo,  que sempre fechou os olhos ao que até os cegos poderiam ver,  que  até  o  último minuto guardou seguro no peito aquele mesmo sopro inquieto dos  dezoito anos,  e que uma vida depois diante do pelotão de fuzilamento  não  reconheceria a pátria na farda verde-oliva do soldado cujo  pau-de-fogo  viria a deferir-lhe  o projétil letal;  pois nos dias de prisão em Villegagnon,  era também  a  pátria carcereiro;   ele não via.
            Pode ser que as  convenções  de  Quaresma  tenham  sido firmadas no sonho,  mas importante é não ter ele sido desperto. É, pois, exemplo de equilíbrio. As convenções são arbitrárias, pessoais, o indivíduo as determina sem regras a seguir;  elas são as regras.  Não há verdade única que indique as convenções, absolutamente.
            Meu caso  foi, na ocasião em  que  desacreditei da importância da civilização  existir  da forma que existe, ter negado a todas as convenções possíveis. O desequilíbrio  foi  completo.   Acredite,  é um estado entre afogante e afogado.
            Francisco calou esperando a reação do primo,  ao que este lhe perguntou admirado:
            —E você ainda está assim?
            —Creio que não —fez o outro balançando a cabeça. Hoje pela manhã, pouco antes de ligar para  você e  convidá-lo  a  acompanhar-me no assistir o desfile das armas,  foi aí,  ideias  que  vinham  fermentando  em minha  mente quase  no inconsciente deixaram a estéril passividade da divagação e expandiram-se para o campo saudável da ação:   Convencionei-me!  E para tal fazer é de mister a humildade de adotar valores que a  Humanidade  criou,  ainda que careçam de razão plausível. E o que resta é viver,  ter aspirações, decepções, pelejar pelas esquinas da vida,  ter momentos de glória (alheia, pessoal ou coletiva),  momentos  de  prantina e consolo,  tristeza e alegria; é ter mais a arrepender-se do que fez que do que  deixou por fazer,  é  não  ter medo de estar iludido; é também tomar parte nos  sentimentos da coletividade,  sim; de seus anseios e lutas. É viver também... —e a música sobressai-se à voz dele.
            Nesse instante a banda  executa a  Canção do Soldado.  Ele corre para ver. Marcha o último destacamento de infantaria.
            Alguns aplaudiam,  outros cantavam, todos em manifestação. Acercando-se da multidão que  começava  a se  dispersar,  Francisco,  endireitando o corpo, pôs-se encostado ao lado do priminho, e ambos a cantar:

           “Como é sublime
             saber amar;
             com a alma adorar
             a terra onde se nasce!
           Amor febril...”

            A manhã  estava por terminar.  O  nosso  raquítico  sol do meio-dia da independência, com toda deferência  reservada  ao dia,  despontava por entre as sombras  da  senhora chuva que já se apressava em tomar rumo de seu caminho para reclamar em outras freguesias,  pois terça-feira, por decreto, tudo haveria de estar seco e limpo, o céu aberto, uma temperatura agradabilíssima, um domingo fantástico,  e as chaminés fumegantes, é claro. Era o fim de mais um sete de setembro.  Como de costume, o pessoal do palanque, que não tomou chuva, saía aborrecido mas aliviado por ter se findado o maçante compromisso.  Os militares a ponto de chorar  de  emoção (embaixo da armadura de ferro: coração de manteiga).  Os  demais,  cada  um a sua maneira: muitos, pela falta de recreio melhor, vieram sem nada a perder e saiam satisfeitos com a máscara do cidadão  exemplar;  outros,  típicos  foliões  (finados, carnaval, tanto faz); a maioria alegre sem saber por quê.
            Os dois  meninos nossos conhecidos,  igualmente, plenos de contentamento seguiram atrás marchando logo  que  a  derradeira  fileira de fuzileiros passou: os pés a chapinhar nas poças,  sobrancelhas  cerradas,  o  sangue à cadência do bumbo,  áurea radiante.  Os sentidos  vagando inertes no infinito sagrado; em nada pensariam?
            Tomados de benévola  ingenuidade,  brilhavam seus  bons olhos,  seus olhos sãos.


Marcos Satoru Kawanami

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

CIDADE ALERTA 2: GAROTA VIOLADA EM PLENO PALCO



CIDADE ALERTA 2: GAROTA VIOLADA EM PLENO PALCO

        Agora, eu vou contar uma historinha para o telespectador. Mas antes, olha, meu povo, do jeito que a coisa está, está desse jeito. A mãe de família sai de casa para o mercado, e não sabe se vai voltar para fazer o almoço. O pai de família trabalha o ano inteirinho para o Governo roubá-lo de tudo quanto é jeito, e, naquele bendito dia que pega aquele bendito ônibus, acaba carbonizado por vândalos que fazem festa junina com ônibus. As crianças têm de ficar espertas com pedófilo que não acaba mais, quando não vem uma bala perdida, e aí é família no IML pra reconhecer um coitado que mal começou a viver.
        Mas prestem atenção nessa história. Era uma vez uma garota que amava os Beatles e os Rolling Stones, e essa garota juntou todo dinheirinho que tinha para ir a uma apresentação de rock, e olha ela aí. Põe na tela do Cidade:
        Vai vendo, vai vendo, dá trabalho pra fazer! Olha o show que beleza. A rapaziada lá tocando, e a galera cantando junto. Agora pára a imagem. Estão vendo esta figurinha aqui? Olha o que ela vai fazer. Solta a imagem! Vocês estão vendo, né? Ó, parece que está trepando num muro, subiu no palco, aí o cara vem e ó. Pára a imagem. Mas cês tão vendo a estampa da garota? Olha que cara medonha. Sem os dois dentes da frente, cabelo com tudo que é tinta, espinha na testa. Ô, meu povo, o guitarrista se assustou. Eu, se fosse ele, achava que era assombração, e dava com o violão na cabeça dela. E foi o que ele fez. Roda a imagem. Aqui, olha no canto da tela, ó, créu! A garota é violada em pleno palco! E não era qualquer violão, não. Devia de ser desses de marca. Olha que desperdício, acabou com o violão por conta de uma doida, e uma doida baranga, o que é pior. E só Percival sabe quanto tempo o moço vai puxar de cadeia. Não é, Percival? Fala, homem! Ô, múmia!
        Agora, vamos ver o caso do triplo homicídio seguido de morte.

Nhandeara, 4 de setembro de 2014
Marcos Satoru Kawanami



CIDADE ALERTA

Meus amigos, essa onda de bandidagem já beira as raias da ignorância. Ninguém mais sabe nem onde nem quando vai ser arregaçado pelo avesso, queimado, e mal pago. Depois a bomba explode é no IML que tem de decifrar em código morse se aquilo ali é homem, mulher, ou ser humano. E eu digo em código morse por causa da máfia, do crime organizado mesmo, infiltrado em todas as esferas da máquina pública, inclusive, meu povo, no Necrotério, que é pra continuar roubando o cidadão contribuinte de bem até no Bairro do Pé Junto!
Agora, meu povo, vejam vocês, a gente não tem mais o direito nem de saber por que a rua em que o meliante resolveu nos subtrair um pertence qualquer tem o nome que tem: ninguém responde. É delegado, é sub-prefeito, é vereador, representante de moradores, em muitos casos, ninguém vai te responder, meu amigo telespectador. Eu vou te dar um exemplo: Lá no Rio de Janeiro, pouca gente sabe por que a Avenida Marechal Floriano tem esse nome, o que é um absurdo. A Avenida Rio Branco, uma das principais da capital fluminense, você pode perguntar pra neguinho que tá passando nela mesmo, não sabe quem foi o Barão do Rio Branco. Se uma vítima for jogada por uma das janelas do Edifício Avenida Central, olha, eu acho que é capaz da polícia demorar para achar o presunto, porque ninguém mais sabe que a Avenida Rio Branco era a antiga Avenida Central.
E aqui em Sampa? A Rua Hadock Lobo tem esse nome por quê? Rua Domingos de Morais por quê? Se eu for assaltado na Loef Green, por que essa rua tem um nome bisonho desses? E se aquela dentista que foi deixada pelo amante no motel em plena Marginal Tietê, e arrumou a desculpa de que o carro quebrou, tivesse com o carro quebrado na Rua Augusta? Ah, mas daí, meus senhores, nós só temos uma explicação: o consultório da dentista faliu.
      E essa agora, parece até que Salvador Dalí ressuscitou para escrever esta novela. Nunca antes na história deste país se importaram médicos, e estamos importando. Aí é que eu pergunto: Tem cupa eu? Tem cupa eu?! Claro que não! Não sou eu que ando por aí roubando o erário público, e fazendo essa cagada toda. Aliás, mamãe pregou um botão na minha bunda. Percival sabe bem do que eu estou falando, não é, Percival? Fala, Percival. Ô, múmia! Bom, quem cala consente.
Mas tudo bem, corta pra 18. Que foi? Não gostaram? Então, segue o programa. Põe na tela aí o furo de reportagem. Estão vendo o furo? Digam-me uma coisa: o projétil que furou este cidadão foi desferido por um artefato calibre 38, 45, ou esta coisa medonha é tiro de fuzil? Em alguns assuntos, é melhor manter a ignorância, não é?, meu amigo, minha amiga. Quer saber? Corta pra 18 mesmo.

Nhandeara, 28 de agosto de 2013
Marcos Satoru Kawanami