domingo, 31 de agosto de 2014

último gracejo

CANÇÃO   -   FILME

ÚLTIMO GRACEJO - paródia à canção Último Desejo, de Noel Rosa

Nosso amor que eu não esqueço,
e que teve o seu começo
na boleia do caminhão,
dorme hoje sem chiclete,
sem Jontex e sem boquete,
sem luar, sem pegação...

Perto de você, meu falo
tanto dói, que tudo calo,
tenho medo de pingar...
Nunca mais quero desejo,
mas meu último gracejo
você não pode negar:

Se alguma pessoa amiga
pedir que você lhe diga
se você me quer ou não,
diga que você patola
a xoxota, e se atola
comigo na imaginação...

Às pessoas que eu detesto,
diga sempre que eu não presto,
que meu lar é o Tribunal.
Que eu me formei em Direito,
que eu estudei por despeito,
e defendo marginal!


Nhandeara, 17 de dezembro de 2012
Marcos Satoru Kawanami

terça-feira, 19 de agosto de 2014

ato de contrição


ATO DE CONTRIÇÃO

Perdão, Senhor, porque demais pequei;
e vós, irmãs e irmãos, por mim rogai
perdão também a Deus, de todos Pai
em Cristo, condenado sendo a Lei.

Esqueço-me amiúde que não sei
aquilo que é melhor, e o que me vai
na mente é um saber que em si se trai
traindo o sacrifício do meu Rei.

Um Rei que foi plebeu por entre a plebe,
e morto pra salvar Seu filho Adão
ingrato, que evadiu-se além da sebe.

Estou eu cá na mesma ingratidão
vexado porque Cristo me recebe
de graça, ainda quitando meu perdão!




Nhandeara, 19 de agosto de 2014
Marcos Satoru Kawanami

Bendito Agricultor


BENDITO AGRICULTOR

Trabalho bom é na cozinha, eu digo
a quem tiver juízo pra entender;
garçom eu fui, e sempre o de comer
estava ali, à frente deste umbigo.

E fome eu não passei, por ser amigo
da fonte da comida, que, ao meu ver,
está no cozinheiro e seu dever
de transformar em pão o que era trigo.

Mas trigo vem da terra, a agricultura
é profissão divina, diz o escrito
sagrado das Sagradas Escrituras.

Por isso, o agricultor seja bendito
por mim, que agora lido nas misturas,
a bem de não ter fome, como hei dito.




Nhandeara, 19 de agosto de 2014
Marcos Satoru Kawanami

sábado, 16 de agosto de 2014

fado

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FADO

Se o meu amor me pedisse,
dava-lhe, “do pé à mão”,
tudo o que a vista não visse,
tudo o que está à visão.

Se o meu amor me pedisse
verdade, e não poesia,
calava aquilo que disse,
e minha mão lhe estendia.

Se o meu amor me pedisse
mesmo assim a poesia,
diria, ao frio que sentisse:
coração quente, mão fria.

Se o meu amor me pedisse
lírio de terra estrangeira;
para que nunca partisse,
dava a flor da laranjeira.

Mas temo que pressentisse
— no meu peito lacerado —
não haver o que pedisse,
nunca tendo eu sido amado.

E este poema expedisse
a fria mão estendida,
sem que meu amor pedisse,
sem nem saber que é querida.



Nhandeara, 16 de agosto de 2014
Marcos Satoru Kawanami

ENGLISH BEAUTY - to Lily Cole

Lily Cole is an English actress.

ENGLISH BEAUTY
to Lily Cole

Poor young beauty that falls into my eyes,
you seem so helpless in your strength of sight
simulating a wrath of mighty knight,
but being a child that soon rushes by.

And the child in me may want so to cry,
because it is cold, because it is night,
instead you fell in my soul to make bright
the sky so blue like your eyes, so blue sky.

Where you are going in your state of mind,
when you find evil, stay cool and than switch
the tramway to a better path you’ll find.

But if you ever meet the strange blind witch
of time to get old and ugly, remind
yourself to come back for love to me teach!




Nhandeara, 16 of August of 2014
Marcos Satoru Kawanami




Florbela Espanca, poeta portuguesa.

Minha Culpa
a Artur Ledesma

Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem
Quem sou?! Um fogo-fátuo, uma miragem...
Sou um reflexo... um canto de paisagem
Ou apenas cenário! Um vaivém...

Como a sorte: hoje aqui, depois além!
Sei lá quem sou?! Sei lá! Sou a roupagem
Dum doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!...

Sou um verme que um dia quis ser astro...
Uma estátua truncada de alabastro...
Uma chaga sangrenta do Senhor...

Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados,
Num mundo de vaidades e pecados,
Sou mais um mau, sou mais um pecador...


Florbela Espanca

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

parar a desmontagem

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PARAR A DESMONTAGEM

Um oco terapêutico é aberto
no glóbulo ocular pernicioso
em ver no mundo só o que é formoso
igual às tais miragens de deserto.

E, sob a nova óptica desperto,
perambula um sujeito desairoso
por ver o humano afã, que desastroso
milagre torto opera, achando certo.

Desmonta-se o planeta lindamente
criado tão perfeito que bastava
contemplá-lo ao usarmos nossa mente.

Se o oco nos seus olhos não cegava
aquele que assim viu mui cegamente,
um oco bem maior cá nos agrava.




Nhandeara, 14 de agosto de 2014
Marcos Satoru Kawanami

domingo, 10 de agosto de 2014

canção de rádio


CANÇÃO DE RÁDIO

Queria nunca ter escrito nada,
em troca da amizade adolescente
que me fez abrir mão do expediente
de escrever à mulher eternizada.

Tem quatorze anos sempre a doce amada;
por ela, o tempo passa impunemente,
e entanto permanece incandescente
meu coração, à beira de uma estrada.

E sintonizo-me à canção do Erasmo,
porém além da estrada nunca avisto
o horizonte cantado e tão bem quisto.

Mas nada abate o meu entusiasmo
em busca do horizonte jamais visto,
sabendo que no mundo eu não existo.




Nhandeara, 10 de agosto de 2014
Marcos Satoru Kawanami

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Belas Artes


BELAS ARTES

Sente a consistência do objeto,
sombras, luzes e volume.
Então, lapida a escultura.
O objeto é abstrato,
está em tua mente,
e a escultura é o poema.

Porém, faz ainda melhor:
inclui nele uma cadência
de redondilha maior,
e uma rima na sequência.

Poderás falar de tudo,
mas se o Lula não censura,
que hoje quem andar bocudo
cai no tacho da fritura.

Assunto mais elevado
tens nos costumes do povo,
que muito demasiado
faz do antigo assunto novo.

Podes cantar feito um Dante
a vaidade da Ciência,
mas, sem querer ser pedante,
há nisso pouca prudência.

Louva o Cristo em rima boa,
que assim fez Camões, o tal,
desde Goa até Lisboa
elevando Portugal.

Eu, que sou bocagiano,
sinto meu desbocamento,
mas não é pendor mundano,
é não me passar por bento.

Enfim, canta o teu amor,
assim cantei meu primeiro
verso, que faz-me propor
tom igual no derradeiro.




Nhandeara, 6 de agosto de 2014
Marcos Satoru Kawanami