sexta-feira, 25 de abril de 2014

isso, ninguém viu...



ISSO, NINGUÉM VIU...

Fritaram o pastel em óleo frio;
isso, ninguém viu...
Jogaram o pastel em óleo frio,
só fui eu quem viu!

Quem não é de reclamar,
ao comer aquela massa,
não parava de agachar;
e, quem viu, achava graça.

Eu fiquei no fim da fila;
ao chegar a minha vez,
teve até quem, pela axila,
da bagagem se desfez.

Evitei constrangimento:
recusar, não recusei;
eu guardei o provimento,
mas, depois, o desguardei.

Corajoso foi o Empada,
trombonista de primeira,
levou tudo para a amada,
que passou por corneteira.

Quem tem pressa, come cru;
com o Empada, foi assim;
se, na pressa, foste tu,
este mundo não tem fim.


Nhandeara, 25 de abril de 2014
Marcos Satoru Kawanami

quarta-feira, 23 de abril de 2014

a merda da tua vida


A MERDA DA TUA VIDA

A merda mais sulfúrica que fiz
foi ter cagado no ventilador,
feito uma rima tipo dor e amor
que se rabisca, sem autor, a giz.

Caguei como quem caga e é feliz,
e foi a vida inteira o meu pendor
continuar cagando sem supor
que, em tal ofício, fui eu aprendiz.

Passei por maus bocados ventilando
o enxofre que encontrei na terra, arauto
do que não encontrei na terra, andando.

Caguei por ser poeta, e fui incauto;
e, agora, a tua vida avaliando,
que merda seguirás sempre lembrando?




Nhandeara, 19 de abril de 2014
Marcos Satoru Kawanami

locus amoenus


LOCUS AMOENUS

Esteve a tarde inteira ali sentada
a velha que nos olha, sendo cega;
um cão vadio passando agora rega
os pés da pobre velha sem ver nada.

A velha percebeu que foi mijada,
devido à experiência que carrega;
os velhos são bons nisso, não se nega,
e, cega, soube que não foi cagada.

Melhor assim, pensou, agora posso
ficar mais um pouquinho aqui na praça,
sem ver que o cão vadio fazia um troço.

Sentindo a iminência da desgraça,
corri com tanta gana, que alvoroço
causei ao derrapar por sobre a massa.




Nhandeara, 19 de abril de 2014
Marcos Satoru Kawanami

terça-feira, 22 de abril de 2014

cão e gato


CÃO E GATO

O gato olhava o cão, e, em si, pensava
maneira pra poder sacaneá-lo,
até que a ideia veio num estalo,
enquanto que o feijão eu preparava.

O cão, estranhamente, me assombrava
ralando rabanete sobre o ralo
com tal habilidade que eu não ralo,
pois gosta de ajudar, e me ajudava.

Janela aberta, surge o bom felino,
em duas patas, meio sem noção,
seguido pelo cão que perde o tino.

O cão fere a panela-de-pressão
que emite aquele timbre assaz mofino,
e é cão, é gato, é tudo na explosão...



Nhandeara, 19 de abril de 2014
Marcos Satoru Kawanami

domingo, 20 de abril de 2014

Páscoa: os desencanados serão salvos - Paulo Leminski: distraídos venceremos



OS DESENCANADOS SERÃO SALVOS

Carvão, tu és bem preto, feito Adão,
hebreu e pai de todos os mortais
que, dos remotos tempos ancestrais,
representamos, hoje, a sucessão.

Carvão, carbono, irmãos mais do que irmãos,
irmanam diferenças diametrais,
mesquitas, sinagogas, catedrais,
grafite e diamante em contramão.

Porque, de diametrais, as diferenças
só têm uma questão de alotropia
organizando tantas desavenças.

De todos, novo alótropo se cria
desencanado, harmônica presença
que tinha o pai Adão, e não sabia.



Nhandeara, 20 de abril de 2014
Marcos Satoru Kawanami

terça-feira, 8 de abril de 2014

Itaquerão: inauguração do estádio do Corinthians será domingo, dia 18 de maio em partida Corinthians vs Figueirense. - Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) - Direção: Glauber Rocha - com Yoná Magalhães, Geraldo Del Rey, Othon Bastos e Maurício do Valle

http://tocadoscinefilos.net.br/deus-e-o-diabo-na-terra-do-sol/
Link

Deus e o Diabo no Itaquerão

        Eu desci do Metrô, e comecei a subir a escada quando brotaram luzes das minhas calças; devia ser coisa do Metrô, sempre tem luz percorrendo a gente em São Paulo; mas daí passei a caminhar na passarela aberta, e as luzes das calças eram mais fortes que a claridade solar. Raciocinei profundamente: Fodeu.
        Uma nuvem adamastórica se formou ao longe, e veio célere parar juntinho da passarela. Jesus Cristo caminhou em cima da nuvem até o corrimão da passarela, saltou-o feito um atleta, e veio me encarar:
        — É hoje, misinfio! — disse-me o Filho de Deus.
        — Ecco, agora entendi estas luzes saindo por tudo quanto é buraco de mim: será que eu sou o diabo? Mas tu viste bem que, nascendo de mulher e sendo homem como tu o fizeste, eu fui muito obediente a Deus...
        — Né isso não, seu Zé Mané! — exclamou o Cristo, abraçando-me num arroxo forte, e me dando aquele beijo, reportando-me à história antiga que me deixou cabreiro...
        Falou para a gente pegar o Metrô, que estava tendo jogo no Itaquerão: Corinthians e Palmeiras.
        Chegando em Itaquera, estava tudo lindo, as pessoas eram anjos:
        — É o Paraíso...
        — Ô, meu, Paraíso é outra estação; entra logo que vai fechar. — advertiu-me Jesus.
        Começou a partida, jogo normal, mas Jesus falou displicente:
        — Ó, tá vendo isso aí, é tua Teologia das Probabilidades; cê não disse que o mal é sempre intencional, e que o aleatório é divino? Um jogo de futebol é um evento aleatório com inúmeras variáveis e que dura 90 minutos, ponha aleatório nisso! Se o Corinthians vencer, estabeleço já o Reino de Deus; se o Palmeiras vencer, o quebra-pau vai ser tamanho, que a Teoria do Caos entra em cena, e, numa onda de violência efeito dominó, começa a Guerra Nuclear.
        — Vai, Corinthians, vai! — torci.
        — Agora é vai? Você é palmeirense desde pequenininho. Lembra do Evangelho?, diabo é porco. Deus é Fiel...
        — Corinthians! Corinthians! Corinthians! — continuou torcendo o diabo com o cu na mão, e muito amigo de Deus por fim.

Nhandeara, 28 de dezembro de 2011
Marcos Satoru Kawanami
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Escrito em 28 de dezembro de 2011:
http://memoriasdaliravelha.blogspot.com.br/2011/12/deus-e-o-diabo-no-itaquerao-corinthians.html