terça-feira, 18 de março de 2014

O meio do avesso - Rafaela Figueiredo



O meio do avesso – livro de Rafaela Figueiredo

        Um dos predicados da Poesia é revelar o que não é óbvio, um outro também é dizer o óbvio de maneira não óbvia. Rafaela Gomes Figueiredo faz tanto um quanto outro com maestria, e ainda alcança dizer o não óbvio de maneira não óbvia!
         É a raridade de uma inteligência que capta o sutil, e o transforma em sublime. E, com essa impressão, foi que eu li todo o seu livro O meio do avesso.
        Identifiquei-me com a estética pitoresca e precisa, além da imaginação mas jesuiticamente racional e firme da autora: o livro é denso e irretocável, sólido como o mármore, e fluente como o vinho!
        Há muitos livros lidos que não sinto um livro tão bom. Esta poeta é da elite dos poetas, garanto, e será reconhecida. Eu li cada poema com enlevo idêntico com que li Estrela da vida inteira, de Manuel Bandeira, nos idos de meus 16 anos de idade.



um [o]caso  [2009]

cultivei na pedra a sua flexibilidade.
esculpi em mármore, no escuro,
a efemeridade do sol, da solidificação;
dos astros em metafirmamento.

mas o mármore faliu...
e com ele todo o frio sentimento
derramado no céu branco da razão
como poça, como pó, como poção...

no palco da noite, somente a escuridão
a orquestrar o solo do sono inefável,
como plectro da mente a esmerilhar-se
no quando negro da emoção.






_ _ co _ _ leta  [2009]

se não fosse a boca
[da palavra, a sede]

se não fosse o ócio
[balouçando à rede]

se não fosse a tinta
[na tela ou parede]

se não do amarelo
[derivasse o verde]

se não redondilha
[de cinco, mas sete]

se não fosse a rima
[colhida na Net]

a alcunha poética
seria: COMPLETE!