sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Blindness - Fernando Meirelles - Filme feito a partir do Ensaio Sobre A Cegueira, de José Saramago.

http://filmesonlinetocadoscinefilosvideos.blogspot.com.br/2013/10/ensaio-sobre-cegueira-2008-direcao.html
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POESIA,
partícula expletiva

Mundos em sucessão
muitos, muitos...
cada um diverso do precedente
outros conceitos, nova concepção
todo instante uma verdade
em número imensurável
arranjos
simultaneamente
realidades
distintas semelhantes cambiantes particulares
por causa dos mundos
concupiscente
conjugação.
Assim o "lá me faz bem",
assim o "lá não suporto",
o "que felicidades!",
e aquela situação exasperante
todo instante
um parecer
mundos em sucessão
o que é vai já deixando de ser
umas pessoas tudo bem
outro arranjo também
o mesmo arranjo e cai mal
bom-ruim-tanto faz
e Poesia onde cai?
Poesia e seus versos
luta, pro-
cura por
cura
a propor
em luta:
pareceres? reflexões?
indiferença dos céticos
herméticos ven-
cidos porém!
Poesia de alguns
compunção, talvez
con-
solação
não
a troça de outrem
troça do próprio poeta
janela
e cai
Poesia em todo mundo em ausência
plurisciência
trivi-
al tanto faz
pois toda vida
janela
e cada janela um mundo
muitos, muitos...
e o Mundo tantos mundos
em conurbação de mentes
dementes
nos põe
em social conjugação
e eu e meu vizinho e eu
e nosso vizinho ele
de um mundo terceiro
de sua janela terceiro mun-
dista assim como eu assim como tu
desde manhã percorre mundos a fio
(pela vida que vê de dentro
pela vida que vive fora)
no gesto mais efêmero
aos furtivos olhares
nas palavras soltas
no discurso grave
em tagarelices
tristes felizes
a cada mais volátil instante
ante
da vida as implicativas
combinações
de vida de mundos-instantes
cambiantes
tudo sendo instantâneo
tudo particular
        Poesia, partícula expletiva.

Marcos Satoru Kawanami




CARNAVAL EM VENEZA

Mas acho que afinal não acho não,
porque o poema acaba, e continua
o poeta, o planeta, o sol e a lua,
contudo, céu e terra passarão.

Bobagem é você fazer questão,
pois tudo quanto é orbe lhe insinua:
o fim é recomeço, isto pontua
o dia, o ano, e até seu pé no chão.

Se, nascendo, morremos, vale o oposto:
depende do seu fim a ferramenta,
e somos nós forjados para o gosto

sentir do Criador, que Se apresenta
a cada criatura, em cada rosto
a fim de nos salvar de forma isenta.



Marcos Satoru Kawanami





SONETO PARALELO

Falar de Amor não vai te dar a prova
de que haja coisa sólida ou concreta
do tipo que a Ciência então não veta
a cerca de um amor que se renova.

Daí, dirá o Eu-lírico: — Uma ova! —,
pois, não se vendo o Amor, vê-se-lhe a seta
que fere o peito e a lira do poeta
em timbres que a audição assaz reprova.

Falar de Deus enseja igual polêmica,
pois, sendo uma abstração de ordem sêmica,
os olhos têm de vê-Lo por indício.

Ainda que O vejamos lá no início,
a tola confiança em nós nos trai,
querendo Deus no céu, e Deus Se vai!



Marcos Satoru Kawanami





SONETO ÉPICO

O que não é eterno não existe,
eu digo na eternal pacificência,
pra lá de além da ingênua inocência,
e enfim sou inocente e não mais triste...

A vida me foi dada a dedo em riste,
e a dedo em riste outorgo — com anuência
do mundo já pedindo por clemência —
a Lei Geral total que tudo assiste.

O cego vê a voz clarividente;
quem não podia andar, conduz o atleta
saltando, a cada passo, um continente!

O mudo brada altivo, não se aquieta
diante da alegria onipresente
prevista em versos toscos de poeta...



Marcos Satoru Kawanami