quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Beethoven symphony 9 chorus - L'amitié com Françoise Hardy - Dança da Solidão de Paulinho da Viola pela norte-americana Kara Doyle


Hino à Fraternidade (Oh, Freunde!)

Oh, amigos, mudemos de tom!
Entoemos algo mais prazeroso
E mais alegre!

Alegre, formosa centelha divina,
Filha de Eliseu,
Ébrios de fogo entremos
Em teu santuário celeste!
Tua magia volta a unir
O que o costume, com brutalidade, dividiu.
Todos os homens se irmanam
Ali onde teu doce vôo se detém.

Quem já conseguiu o maior tesouro
De ser o amigo de um amigo,
Quem já conquistou uma mulher amável
Rejubile-se conosco!
Sim, mesmo se alguém conquistar apenas uma alma,
Uma única em todo o mundo.
Mas aquele que falhou nisso
Que fique chorando sozinho!

Alegria, bebem todos os seres
No seio da Natureza:
Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.
Ela nos deu beijos e vinho e
Um amigo leal até a morte;
Deu força para a vida aos mais humildes
E ao querubim que se ergue diante de Deus!

Alegremente, como seus sóis corram
Através do esplêndido espaço celeste
Se expressem, irmãos, em seus caminhos,
Alegremente como o herói diante da vitória.

Alegre, formosa centelha divina,
Filha de Eliseu,
Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
Abracem-se milhões!
Enviem este beijo para todo o mundo!
Irmãos, além do céu estrelado
Mora um Pai Amado.
Milhões se deprimem diante Dele?
Mundo, você percebe seu Criador?
Procure-o mais acima do céu estrelado!
Sobre as estrelas onde Ele mora.




L'AMITIÉ (A AMIZADE)

Muitos de meus amigos vieram das nuvens,
Com o sol e a chuva como simples bagagem.
Fizeram a estação da amizade sincera
A mais bela das quatro estações da terra.

Têm a doçura das mais belas paisagens,
E a fidelidade dos pássaros migradores.
E em seu coração está gravada uma ternura infinita,
Mas, as vezes, uma tristeza aparece em seus olhos.

Então, vêm se aquecer comigo,
e você também virá.

Poderá retornar às nuvens,
E sorrir de novo a outros rostos,
Distribuir à sua volta um pouco da sua ternura,
Quando alguém quiser esconder sua tristeza.

Como não sabemos o que a vida nos dá,
Talvez eu não seja mais uma pessoa.
Se me resta um amigo que realmente me compreenda,
Me esquecerei das lágrimas e penas.

Então, talvez eu vá até você aquecer
Meu coração com sua chama.



A fonte de água pura a qual Paulinho da Viola se referiu no samba Dança da Solidão está em Apocalipse, capítulo 22 – último capítulo da Bíblia:
"Ele mostrou-me depois um rio de água da vida, brilhante como cristal, que jorrava do trono de Deus e do Cordeiro."


Cifra para trompete de Dança da Solidão:



O SENTENCIADO

Ter alma de poeta é sacrifício
a Deus, por sacerdócio leigo infame
ainda que o poeta, em vão, derrame
o sangue de si mesmo em prol do ofício.

Ter alma de poeta é ter por vício
o verso, mesmo que ninguém declame
a ninfa cujo zelo ora lhe inflame
o crânio a meningítico artifício.

Ter alma de poeta, enfim, é isto:
é parecer saudável na doença;
é parecer pagão mas seguir Cristo;

é acrescentar penhor se não compensa;
é dar bom dia à noite, e ainda, insisto,
é redigir na testa uma sentença!

Marcos Satoru Kawanami





FELICIDADE CANINA

Um tal instinto bom eu tenho tido,
que desde a aurora tosca de menino
conduz-me em descaminhos cujo tino
teria diplomado um falecido.

Por mais que me quisesse desistido
o mundo de cumprir o meu destino,
o bom talante alegre e olhar canino
feliz em si tem sempre persistido.

Cachorros são felizes porque querem:
lá na indigência hostil do viaduto,
ou no trabalho árduo do polo.

E nesse olhar canino que os diferem,
conforme é mais o afável que o astuto,
pessoas há que têm dos anjos colo.


Marcos Satoru Kawanami



AVE MARIA PÓS-MODERNA

A luz que passa pelo cristalino
dos olhos chega ao fundo cerebral
recomposta em elétrico sinal
diverso do universo extra-tino.

A taça diz que “veritas in vino”,
em forma inversa, imagem espectral
vertendo na retina uma anormal
verdade aceita por qualquer menino...

Talvez o impulso elétrico reflita
externamente apenas algo novo
e tão antigo quanto a luz bendita

no céu de cada qual de cada povo
cujo drama tem sido a mãe aflita
dos elétrons por quem eu me comovo.

Marcos Satoru Kawanami

6 comentários :

Jacques disse...

Olá, Marcos.
Grandes reflexões; creio que, num mundo onde todos somos diferentes física e mentalmente, não se pode precisar com certeza o que é ou não normal e é perda de tempo preocupar-se com isso.
Abraço.

Sissym Mascarenhas disse...


Marcos,

Adorei ver e ouvir cada video.
Fantastico o primeiro sobre Beethoven. A musica é divina.

Bjs

Rafaela G. Figueiredo disse...

pós-modernos são os teus versos, de que gosto muito e de que senti falta! essa mescla do extremamente humano ao sacro...

bem, estou em um hiato profundo. :|
mas farei visitas, para, quiçá, me inspirar.

beijo
feliz tudo novo!

manuela baptista disse...

bonitas ilustrações poéticas, Marcos

Patrícia Pinna disse...

Poemas maravilhosos, cada qual tão diferente em si, que traduz imensa riqueza.
Paulinho da Viola foi muito feliz na composição, e Marisa Monte é um espetáculo.
Parabéns por todas as suas criações.
Não sei se somos amigos no face, caso não, aí vai:

https://www.facebook.com/patricia.pinna.7

Tenha um domingo de muita paz!
Beijos na alma!

JAIRCLOPES disse...

Fidelidade canina

Esse animal tendo mais que tal instinto
Ao que ele chama de amigo é mui fiel
Como a roupa do corpo, como chapéu
Não sabe trair, nunca é infiel, eu sinto.

Por mais que o homem não o quisesse
Segue-o até seu último e cruel destino,
Sem quaisquer deslustres ou desatino
Até o fim, até que último suspiro cesse.

Porquanto o cachorro escolhe ser feliz
Seja no palácio ou no meio da avenida
Se ali está, é justamente porque o quis.

Não lhe interessa como estará sua vida
Se a sorte por ser fátua está por um triz
Vale apenas sua fidelidade a toda brida.