sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Quando Nietzsche Chorou (2007) - Direção: Pinchas Perry

SONETO

Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assim negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida,

começa de servir outros sete anos,
dizendo: —Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta vida.



Luís Vaz de Camões




Jacó e Raquel

Sete anos pondo fé Jacó bebia
cachaça por Raquel, caipira bela;
mas não bebia só, e sim com ela,
porquanto embriagá-la pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava contentado na esparrela;
porém a moça, usando de cautela,
jamais se embriagava, só fingia.

Vendo o pinguço, assim, que com enganos
sempre escapava sóbria a sedutora,
pudicamente e nada doidivana,

despenca-se a beber outros sete anos,
dizendo: —Mais bebera se não fora
para tão longo amor... tão pouca cana!



Marcos Satoru Kawanami




JACÓ E LIA

Sete anos, por Raquel, Jacó sofria
à toa, pois já tinha se casado
e muito bem, estava afazendado
com filha de patrão. Que mais queria?

Injusto foi o Amor que o iludia,
e em prol de quê?, da espécie? avassalado
igual a bicho? e, ainda amargurado,
injusto o coagindo contra Lia!

Romântica Paixão, que a todos cega:
a Lia era muito mais bonita,
nem isso viu Jacó, por teimosia...

E a Alegria que o Amor nos nega
parece tão custosa e inaudita,
mas é-nos como a esposa que foi Lia.



Marcos Satoru Kawanami

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Bye Bye Brasil (1980) - Direção: Cacá Diegues

http://filmesonlinetocadoscinefilosvideos.blogspot.com.br/2013/06/bye-bye-brasil-1980-direcao-caca-diegues.html
Link

SONETO HEBREU

Hebreia, não permitas tu que eu morra
de amor, paixão, desejo! E, num harpejo
em sustenido ao dó de peito, arquejo:
—Feriu-me na cabeça alguma porra?

Romântico é jogar-se na masmorra;
romântico não sou, mas, ora vejo,
sou emo, dá no mesmo se o ensejo
apenas troca a touca pela gorra...

Hebreia, ver-nos-emos num sorriso;
se ver nos emos algo hilário é pouco,
cai dura: o dó de peito fez-me rouco.

Entanto, hebreu que sou sem quatro sisos
na boca, beijarei teus pés hebreus
no ninho sempre nosso aos pés de Deus...




Marcos Satoru Kawanami

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Das Tripas Coração (1982) - Direção: Ana Carolina - com Dina Sfat, Stela Freitas, Antônio Fagundes, Cristina Pereira e Ney Latorraca

http://filmesonlinetocadoscinefilosvideos.blogspot.com.br/2013/08/das-tripas-coracao-1982-direcao-ana.html
Link

ESCOLA

Rostos risonhos, sonhos juvenis;
fraternidade, amor, palpita a vida,
a vida que começa a ser vivida,
a vida que só sabe ser feliz.

Almas atentas ao que o mestre diz,
que diz como quem canta em sua lida;
em cada aluno, a sorte prometida;
e o mestre, além de mestre: um aprendiz!

Um ar de baile espraia melodia
volátil, que veloz logo se evola
como o fresco sereno ao vir do dia.

E, a cada dia, o Sol, celeste bola,
compartilha do gozo, da alegria,
que impera e se renova em cada escola.


Marcos Satoru Kawanami


La Passion de Jeanne D'Arc - com Marie Falconetti - um filme de Carl Theodor Dreyer

JOANA D’ARC

Afia numa pedra o canivete,
e enfia-o no bolso, convincente,
na cisma de querer ser indecente
a única menina entre os pivetes...

Roubou a liberdade que compete
ao seu padrão de jogo para frente,
ousou não se render ao aparente,
e, entanto, é mais mulher, sem ser coquete.

A escola ensina muita pilantragem;
nas aulas, ela emenda a professora;
por isso, tão bem vê a vadiagem...

Se acaso a transgressão é sedutora,
sofreu esta menina defasagem
moral, pois da Moral é defensora.



Marcos Satoru Kawanami

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

A Suprema Felicidade (2010) - Direção: Arnaldo Jabor

http://filmesonlinetocadoscinefilosvideos.blogspot.com.br/2013/06/a-suprema-felicidade-2010-direcao.html
Link

     Neste filme, Marco Nanini toca trombone, meu primeiro instrumento na banda do maestro Djalma Araújo de Oliveira, o que me fez sentir saudade do Rio de Janeiro, pois entrar para a banda foi a atitude mais feliz da minha adolescência. Todos que passam por aquela banda têm recordação semelhante. A cena do Zé Bonitinho (padre) fazendo o sermão do "vício solitário" e a molecada tocando punheta é impagável! Este soneto é recitado pelo Marco Nanini no final do filme:


OUVIR ESTRELAS

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."


Olavo Bilac



SONHAR É PRECISO

Se aos teus sonhos outros sonhos tu somares
Sob a espera da presença do irreal,
É porque estás além dos patamares
Dos arautos da frieza universal

Continua o teu sonho e não te ponhas
Na linhagem dos pétreos, sem sorriso,
Pois os Anjos te assistem enquanto sonhas
E na terra te preparam um Paraíso...

Benditos sejam os sempre sonhadores,
Fiéis aos passes de mágicos atores,
Que transformam o devaneio em realidade

Quem não sonha do seu chão não tem ciúmes,
É incapaz de lutar contra os costumes
Que corrompem os ideais de Liberdade...


Olavo Drummond



SONETO FEROZ

Eu não quero o lirismo comedido,
conforme disse o velho e bom Bandeira;
eu não quero a bandeira brasileira
entre tantas de um mundo dividido.

Eu quero o amor geral, o Amor perdido,
difuso, tão confuso, assim sem eira
nem beira, só a vontade prazenteira
de viver sem jamais ser iludido.

Eu não quero este mundo decadente
que se ufana a dizer ser progressista
num suicídio lento, enquanto mente.

Eu quero é o ideal surrealista,
a doida sanidade do demente,
a lúcida loucura do autista!


Marcos Satoru Kawanami



A SUPREMA FELICIDADE

Forjado a ferro e fogo é o mundo feio,
risonho mas cruel, civilizado(?),
alheio mesmo à unção do batizado
negado ou esquecido em tanto enleio;

cismando quanto a isso, assim eu creio,
indago por que sou aventurado,
senão em tudo, em tudo contentado,
cuidando ver o bem no mal alheio,

alheio do meu mal no alheio alheio.
Muitíssimo feliz, um totalmente
aqui se encaixa na definição;

total só pode ser, é pra que veio,
o lapidar feliz de tão contente
sem ismos otimismo, a Redenção...


Marcos Satoru Kawanami

domingo, 26 de janeiro de 2014

Meteorango Kid, o héroi intergalático (1969) - Direção: André Luiz Oliveira

http://filmesonlinetocadoscinefilosvideos.blogspot.com.br/2013/11/meteorango-kid-heroi-intergalatico-1969.html
Link
Um filme jovial, que só assisti agora, 45 anos depois de seu lançamento, e pareceu-me algo novo, empolgante, já nasceu um clássico este filme maluco e divertido.



SONETO MARGINAL

Silvam velozes ventos; reverberam
luzentes melodias de engrenagens;
os carros saem todos das garagens;
quatrilhões de neurônios deliberam...

Gigantes colossais gusa encarceram,
e vertem a matéria das ferragens;
nas árvores germinam as serragens,
enquanto todos sonham que prosperam...

Avante!, urbe, metrópole paulista:
“non ducor, duco”, diz teu bravo lema;
teu lema insubmisso, idealista!

Enquanto, fora, voga tal esquema
de progresso, barganhas e conquista:
eu, marginal, cinzelo este poema.


Marcos Satoru Kawanami



PARA QUEM?

Se cresce a Economia, o vulgo pensa
que tem mais moradia e mais emprego,
que pode ter mais filhos com sossego,
tendo escola e saúde em recompensa.

Mas vive o povo sempre numa prensa,
e a cada geração parece cego,
barganha o voto em troca dum emprego
que gera mais emprego, voto e a crença

dum econômico crescer do bem,
na constante esperança dum porvir
com mais casa, saúde, escola..., amém.

Contudo, não se diz que é regredir
a Vida do planeta que se tem,
crescendo a Economia, e para quem?


Marcos Satoru Kawanami
  



SONETO DO UMBIGO

É a vaidade, Fábio, mais-valia,
rezava a velha letra da gazeta
no dia em que Gregório da caneta
serviu-se em prol de nova ideologia:

Não deve o Capital fazer orgia,
cagando na cabeça do perneta
assíduo proletário da muleta,
enquanto vai Raquel, ficando Lia!

Que baita sacanagem! Vou propor,
vós ides concordar aqui comigo:
mudemos o Sistema Produtor.

Porém, a ideologia, meu amigo,
também era vaidade, e de doutor;
valia mais o bom vai dá de umbigo!


Marcos Satoru Kawanami




SONETO SHOELESS

No afã de superar minhas manias
de símio faniquítico cristão,
adotei como pai o velho Adão,
e fui circuncidar tudo o que eu via.

Eu quis Raquel, porém casei com Lia,
e ainda de pastor servi Labão;
topei com boi chifrudo em contra-mão,
lançando as bases da Cornogonia…

Corinthiano sou, e não santista,
porque não vi jogar o rei Pelé
que teria me feito um vitorista!

Eu gosto de louvar mesmo é o Mané,
o sumo do resumo idealista,
eu gosto é de mulher que tem chulé!


Marcos Satoru Kawanami



quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Pulp Fiction, um filme de Quentin Tarantino


IMITAÇÃO DE CRISTO

Não faço apologia ao sofrimento,
nem ojeriza tenho ao mundo e ao gozo;
não sou vanguarda, nem tampouco idoso;
mas, sim, dou viva ao livre pensamento.

Da graça da fé cega estou isento,
mas da graça e fé cega sou cioso,
e almejo o Paraíso esplendoroso
prometido em todo sacramento.

Cuido, porém, que Cristo deu exemplo
ao sofrer o martírio no Calvário,
altar desta verdade que contemplo:

Será no mais extremo e perdulário
despojo, sem amparo, mãe, ou templo,
que hei de ver Deus em meu itinerário.


Marcos Satoru Kawanami


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

O sétimo selo, um filme de Ingmar Bergman

http://tocadoscinefilos.com.br/o-setimo-selo/
Link

O SÉTIMO SELO - para Ingmar Bergman

A morte não me diz respeito, assim
falou o mestre Sócrates antigo,
porém relatam que foi bom amigo
do espírito de nume até o fim.

Ateu que fui, fiando só em mim,
cagava vendo a morte, e, pelo umbigo,
meu pau se invaginava de castigo
por tão ignóbil pose em cor carmim.

Se Sócrates cordato era guiado
a crer em um só Deus pelo seu nume,
aqui bem vivo está, e foi matado...

Católico que a fé no amor resume,
à morte entrego o peito despojado:
coragem, fé e amor é um só costume.

Marcos Satoru Kawanami

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Persona, um filme de Ingmar Bergman - com Liv Ullman e Bibi Andersson

http://filmesonlinetocadoscinefilosvideos.blogspot.com.br/2013/06/persona-quando-duas-mulheres-pecam-1966.html
Link

A VIDA É FILME

Por que escravo do Verso sempre vivo?;
se não faço o poema, sinto frio;
porém, após fazê-lo, estou vazio:
com fome e frio, liberto, mas cativo.

Escravos todos são, muda o motivo
que empenha a força régia do seu cio
por mares de Camões e de gentio,
a fim de nesta vida estar altivos.

Cumprimos, no planeta, um só papel
de morte e vida igual sem exceção,
e cobre-nos o corpo, que é um véu.

Parece todo o Drama escravidão,
fugir-se deste Filme é estar no Céu,
porém filmamos nossa redenção.


Marcos Satoru Kawanami



A VIDA NÃO É FILME

Quitou-me o romantismo esta verdade:
—A vida não é filme nem romance!—
Incauto o adolescente que se lance
a dar vaza ao Amor em tenra idade…

Mais vale bem-querer Sobriedade,
casta lira impassível ao alcance
da cupidez mundana que lhe avance
no esplendor da virgínea mocidade.

Não à toa os antigos, por costume,
prezavam a senil opinião,
que vivência e razão enfim resume.

Amor? Existe. Longe da paixão,
do romantismo e do carnal betume:
—Conjugo o verbo amar, sem transição.


Marcos Satoru Kawanami

domingo, 19 de janeiro de 2014

Uma história de amor e fúria - com Selton Mello, Camila Pitanga e Rodrigo Santoro

http://tocadoscinefilos.com.br/uma-historia-de-amor-e-furia-2012/
Link

JANAÍNA A BUGRA

Todos param para ver
Janaína minha irmã
que ainda não sabe ler
de selvagem cunhantã.

Eu, porém, quero aprender
com a bugra minha irmã
a maneira de escrever
dois em um só amanhã.

Janaína me parece
pintura tipo cubista,
explicação não carece(?)(!)(*).

Janaína se despista,
pudica, não fica nua,
mas não fica só na rua...


Marcos Satoru Kawanami

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

erendira, um filme de ruy guerra - com claudia ohana - da obra de gabriel garcía márquez: La increíble y triste historia de la Cándida Eréndira y de su abuela desalmada


ERÉNDIRA - una metáfora

Veo que hace una Eréndira su nieta
delante del balcón y del fogón
sudando el alma, el seso sin razón
de tanto que ha perdido en tal ruleta.

Eréndira pasó asaz inquieta
tenendo con dos mundos conexión
por medio de la concha y la visión,
un prisma con la luz que él desapreta.

La nieta aqui que veo es solo bruta
materia un tanto humana, pero no
humana como Eréndira no era.

Abuela desalmada que hizo puta
de Eréndira bañada en salvia erró,
mas veo que ese baño persevera.


Marcos Satoru Kawanami

Green Peace


GREEN PEACE

Relâmpagos, trovões, o vento fero,
um ar que não se inspira sem a tosse,
inflando priscas teias, toma posse
de um mundo antepassado e mais severo.

Notícias, comentários, lero-lero
parecem, pois, se o crânio aqui nos coce,
sentimos que não há razão que endosse
crescer a economia até... o zero(?)!

Comentamos à toa sobre o clima,
neguinho vira preso federal
se arrisca a vida pois a vida estima.

Sócrates morreu em seu ideal,
morreram igualmente nesta rima
aqueles que não morrem, na real.



Marcos Satoru Kawanami