quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Clara Nunes (1943-1983)


SONHO

Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento,

Minha alma não tem alma.

Se existo é um erro eu o saber. Se acordo
Parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero nem tenho nem recordo.
Não tenho ser nem lei.

Lapso da consciência entre ilusões,
Fantasmas me limitam e me contêm.
Dorme insciente de alheios corações,

Coração de ninguém.


Fernando Pessoa, 6-1-1923



HIBISCUS

Eu tenho a minha dor, a dor é minha,
não é de mais ninguém, quem diz-me é ela,
cantante trovadora, Lira aquela
de quem a Flor do Lácio se avizinha

nas noites tais e quais o povo tinha
no tempo do Catulo e as tão singelas
canções favorecidas de aquarelas
plangentes ao orvalho com mantinha...

De um tempo, o que restou? A poesia,
e nunca a dor; porque não é a dor
dos que viram e nem dos que virão.

A dor é do poeta que sorria
e que sofria enquanto trovador
em um violão, balcão, porão... No chão.


Marcos Satoru Kawanami

4 comentários :

Rafaela Figueiredo disse...

comecei a ler o primeiro poema e pensei q fosse de Florbela, mas é de Pessoa - acho q eles têm mesmo uma afinidade poética.
e adorei os diálogos todos: Pessoa, MM e Marcos.
lindo soneto sonado, musical!

beijo

Viiii disse...

Não existe uma poesia, reza ou feitiço para mandar a dor ir embora? Ou ao menos tirar umas férias tempo suficiente para nos recompor-nos?

Ai, como eu queria estar em condições de convertê-la em prosa ou verso.
Acho que me ajudaria.

Abraços de ano novo, Marcos!

BAR DO BARDO disse...

Torcida poética. O dom está contigo.

JAIRCLOPES disse...

Sonho

Sonho pois que sou vate inspirado
Que sabe de tudo e muito mais diz
Que proclama seu saber imoderado
E que isso torna o povo mais feliz

Sonho que descrevo tudo que quis
E escrevo verdades incontestáveis
E que obras primas foi o que fiz
Que tornam pessoas mais amáveis

Sonho que este planetinha inundo
Com meu saber profano e fecundo
E que o mundo louva essa parada

E quando vou voando tão alto
E das nuvens me atrevo um salto
Acordo no solo e não sou nada.