terça-feira, 2 de abril de 2013

o sétimo selo - Ingmar Bergman - filme de 1956



O SÉTIMO SELO - para Ingmar Bergman

A morte não me diz respeito, assim
falou o mestre Sócrates antigo,
porém relatam que foi bom amigo
do espírito de nume até o fim.

Ateu que fui, fiando só em mim,
cagava vendo a morte, e, pelo umbigo,
meu pau se invaginava de castigo
por tão ignóbil pose em cor carmim.

Se Sócrates cordato era guiado
a crer em um só Deus pelo seu nume,
aqui bem vivo está, e foi matado...

Católico que a fé no amor resume,
à morte entrego o peito despojado:
coragem, fé e amor é um só costume.

Nhandeara, 2 de abril de 2013
Marcos Satoru Kawanami



O HOMEM E A MORTE

O homem já estava deitado
Dentro da noite sem cor.
Ia adormecendo, e nisto
À porta um golpe soou.
Não era pancada forte.
Contudo, ele se assustou,
Pois nela uma qualquer coisa
De pressago adivinhou.
Levantou-se e junto à porta
— Quem bate? Ele perguntou.
— Sou eu, alguém lhe responde.
— Eu quem? Torna. — A Morte sou.
Um vulto que bem sabia
Pela mente lhe passou:
Esqueleto armado de foice
Que a mãe lhe um dia levou.
Guardou-se de abrir a porta,
Antes ao leito voltou,
E nele os membros gelados
Cobriu, hirto de pavor.
Mas a porta, manso, manso,
Se foi abrindo e deixou
Ver — uma mulher ou anjo?
Figura toda banhada
De suave luz interior.
A luz de quem nesta vida
Tudo viu, tudo perdoou.
Olhar inefável como
De quem ao peito o criou.
Sorriso igual ao da amada
Que amara com mais amor.
— Tu és a Morte? Pergunta.
E o Anjo torna: — A Morte sou!
Venho trazer-te descanso
Do viver que te humilhou.
— Imaginava-te feia,
Pensava em ti com terror...
És mesmo a Morte? Ele insiste.
— Sim, torna o Anjo, a Morte sou,
Mestra que jamais engana,
A tua amiga melhor.
E o Anjo foi-se aproximando,
A fronte do homem tocou,
Com infinita doçura
As magras mãos lhe cerrou...
Era o carinho inefável
De quem ao peito o criou.
Era a doçura da amada
Que amara com mais amor.

Manuel Bandeira

2 comentários :

Paulo Vitor, ele mesmo. disse...

manuel bandeira é cativante. e ponto.

Marcos Satoru Kawanami disse...

estudei poesia no livrão do manuel: estrela da vida inteira.