segunda-feira, 29 de abril de 2013

o poste

Praça XV - Rio de Janeiro


O POSTE

Pintado a fogo, outrora, lembra o Império
aquele poste preto de fundido
ferro; pela ferrugem corroído,
guarda, dos tempos, líricos mistérios...

Decrépito, vergado, deletérios
insultos de bandidos tem ouvido;
ânsias de Amor jamais correspondido
moldaram-lhe este aspecto assim funéreo.

Vinhetas ornamentam sua base,
e, acima, sua luz, à noite, aventa
a memória que eu guardo e me atormenta:

Eu era adolescente, e um dia quase,
ao pé do poste, lívido a beijei,
amor sem nome, estado, crença e lei.

Marcos Satoru Kawanami

sábado, 27 de abril de 2013

FALSO MORALISTA


FALSO MORALISTA

Você condena o que a moçada anda fazendo,
e não aceita o teatro de revista,
arte moderna pra você não vale nada,
e até vedete você diz não ser artista.
Você se julga um tanto bom e até perfeito,
por qualquer coisa deita logo falação.
Mas eu conheço bem os seus defeitos,
e não vou fazer segredo não.
Você é visto toda sexta no Joá,
e não é só no carnaval que vai pros bailes se acabar.
Fim de semana você deixa a companheira,
e no bar com os amigos bebe bem a noite inteira.
Segunda-feira chega na repartição,
pede dispensa para ir ao oculista,
e vai curar sua ressaca simplesmente.
Você não passa de um falso moralista.

Nelson Sargento

quinta-feira, 25 de abril de 2013

A VIDA COMO ELA É - a vida é amor



OPOSTOS

O mundo foi criado
para o bem ser espalhado
no drama da redenção.

Quem mais tiver pecado
mais será santificado
ao receber o perdão.   [se receber o perdão, nota de Jonas sob a mamoneira]

O mal, subordinado
ao bem e aniquilado,
cumpre assim sua função.

Opostos, lado a lado,
conceitos polarizados
seguem por auto-indução.

Quem mais tiver errado
mais será retificado,
e terá mais gratidão.

Marcos Satoru Kawanami

Lua no céu do Brasil em 25 de abril de 2013




quarta-feira, 24 de abril de 2013

Justine na Padaria


JUSTINE NA PADARIA

Justine, pra teu nome não trovei
nenhuma rima aqui na padaria,
porque rimar é fácil com Maria,
mas, com Justine, a raridade é lei.

No banco do balcão me aboletei
suando a água fria da agonia
ao ver que um certo anel te bem cabias
da esquerda no anelar, e me engasguei!

Pensei: que sacanagem!, ou melhor,
que baita, que tremenda falta dela...
E... peço ao Mário um pão com mortadela!

Porém, dos males todos, o menor,
pois cessa uma sangria desatada
contemplando Justine atarefada...

Nhandeara, 22 de abril de 2013
Marcos Satoru Kawanami

segunda-feira, 22 de abril de 2013

século do progresso


SÉCULO DO PROGRESSO

A noite estava estrelada
Quando a roda se formou.
A lua veio atrasada,
E o samba começou.

Um tiro a pouca distância
No espaço forte ecoou.
Mas ninguém deu importância,
E o samba continuou.

Entretanto ali bem perto
Morria de um tiro certo
Um valente muito sério,
Professor dos desacatos
Que ensinava aos pacatos
O rumo do cemitério.

Chegou alguém apressado
Naquele samba animado
Que cantando dizia assim:
No século do progresso,
O revólver teve ingresso
Pra acabar com a valentia.

Noel Rosa

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Maria Bethânia, Viver com Fé. - o acendedor de lampiões - jorge de lima


O acendedor de lampiões

Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!

Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite aos poucos se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.

Triste ironia atroz que o senso humano irrita:
Ele que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade,
Como este acendedor de lampiões da rua!

Jorge de Lima

segunda-feira, 15 de abril de 2013

o ideal e o real - o idealizado e o realizado - o idealismo e o realismo - o drama e a comédia - pelos clássicos compositores Chico Buarque e Noel Rosa




Carolina
Chico Buarque

Carolina, nos seus olhos fundos
guarda tanta dor, a dor de todo esse mundo.

Eu já lhe expliquei, que não vai dar,
seu pranto não vai nada ajudar.

Eu já convidei para dançar,
é hora, já sei, de aproveitar.

Lá fora, amor, uma rosa nasceu,
todo mundo sambou, uma estrela caiu.

Eu bem que mostrei sorrindo,
pela janela, ói que lindo!
Mas Carolina não viu...

Carolina, nos seus olhos tristes,
guarda tanto amor, o amor que já não existe.

Eu bem que avisei, vai acabar,
de tudo lhe dei para aceitar.

Mil versos cantei pra lhe agradar,
agora não sei como explicar.

Lá fora, amor, uma rosa morreu,
uma festa acabou, nosso barco partiu!

Eu bem que mostrei a ela,
o tempo passou na janela
e só Carolina não viu.






MENTIRAS DE MULHER

Noel Pela Primeira Vez (Volume 2 CD 3 Faixa 9)
Intérprete: Noel Rosa e Arthur Costa
Composição: Noel Rosa
Ano de composição: 1931

São mentiras e mulher,
Pode crer quem quiser.

Que eu tenho horror ao batente,
E não sou decente,
Poder crer quem quiser.
Que eu sou fingido e malvado,
E até que sou casado,
São mentiras de mulher.
(bis)

Quando no reino da intriga,
Surge uma briga,
Por um motivo qualquer,
Se alguém vai pro cemitério,
É porque levou a sério,
As palavras da mulher.
(bis)

Esta mulher jamais se cansa,
De fazer trança,
Na mentira é um colosso!
Sua visita tão cacete,
Que escrevi no gabinete:
"Está fechado para almoço".
(bis)

Esta mulher, de armar trancinha,
Ficou magrinha,
Amarela e transparente.
Quando vai ao ponto marcado,
De um encontro combinado,
Dizem que ela está ausente...

sexta-feira, 12 de abril de 2013

soneto do coro angelical



SONETO DO CORO ANGELICAL

Simone, na presença tua sei
que o mundo é uma bola, ora essa;
estou feliz contigo, alegre à beça
até dizer-te adeus, e chorarei...

Mas tu que sabes bem decor a lei,
me salva dessa angústia que não cessa,
botando um torniquete e uma compressa
na chaga que em pecado estoporei!

O tempo nunca passa para ti,
porém, se estou contigo, o tempo voa,
e, logo que cheguei, eu já parti.

O coro angelical um hino entoa,
se escrevo pra Simone isto daqui
em forma de soneto e rima boa.

Nhandeara, 10 de abril de 2013
Marcos Satoru Kawanami

sábado, 6 de abril de 2013

além da taprobana - le baiser - o beijo - Auguste Rodin

le baiser - o beijo
Auguste Rodin

ALÉM DA TAPROBANA

Conheço você, Márcia, desde quando
o mundo foi criado, talvez antes,
no tempo angelical e altissonante
desde o qual Deus nos foi orientando...

Aqui neste planeta ora chegando
a fim de nos unirmos como amantes,
seremos sempre um só a cada instante,
em noite turbulenta ou dia brando.

Conheço você, Márcia, pelo cheiro
gostoso natural que nos irmana
em laços de lençol e travesseiro.

Passemos mais além da Taprobana
também na paz geral e o derradeiro
sentido para o qual é a raça humana.

Marcos Satoru Kawanami

terça-feira, 2 de abril de 2013

o sétimo selo - Ingmar Bergman - filme de 1956



O SÉTIMO SELO - para Ingmar Bergman

A morte não me diz respeito, assim
falou o mestre Sócrates antigo,
porém relatam que foi bom amigo
do espírito de nume até o fim.

Ateu que fui, fiando só em mim,
cagava vendo a morte, e, pelo umbigo,
meu pau se invaginava de castigo
por tão ignóbil pose em cor carmim.

Se Sócrates cordato era guiado
a crer em um só Deus pelo seu nume,
aqui bem vivo está, e foi matado...

Católico que a fé no amor resume,
à morte entrego o peito despojado:
coragem, fé e amor é um só costume.

Nhandeara, 2 de abril de 2013
Marcos Satoru Kawanami



O HOMEM E A MORTE

O homem já estava deitado
Dentro da noite sem cor.
Ia adormecendo, e nisto
À porta um golpe soou.
Não era pancada forte.
Contudo, ele se assustou,
Pois nela uma qualquer coisa
De pressago adivinhou.
Levantou-se e junto à porta
— Quem bate? Ele perguntou.
— Sou eu, alguém lhe responde.
— Eu quem? Torna. — A Morte sou.
Um vulto que bem sabia
Pela mente lhe passou:
Esqueleto armado de foice
Que a mãe lhe um dia levou.
Guardou-se de abrir a porta,
Antes ao leito voltou,
E nele os membros gelados
Cobriu, hirto de pavor.
Mas a porta, manso, manso,
Se foi abrindo e deixou
Ver — uma mulher ou anjo?
Figura toda banhada
De suave luz interior.
A luz de quem nesta vida
Tudo viu, tudo perdoou.
Olhar inefável como
De quem ao peito o criou.
Sorriso igual ao da amada
Que amara com mais amor.
— Tu és a Morte? Pergunta.
E o Anjo torna: — A Morte sou!
Venho trazer-te descanso
Do viver que te humilhou.
— Imaginava-te feia,
Pensava em ti com terror...
És mesmo a Morte? Ele insiste.
— Sim, torna o Anjo, a Morte sou,
Mestra que jamais engana,
A tua amiga melhor.
E o Anjo foi-se aproximando,
A fronte do homem tocou,
Com infinita doçura
As magras mãos lhe cerrou...
Era o carinho inefável
De quem ao peito o criou.
Era a doçura da amada
Que amara com mais amor.

Manuel Bandeira

segunda-feira, 1 de abril de 2013

soneto erótico


SONETO ERÓTICO

Ao ferir meu sensível nervo óptico,
a forma feminina desejada
da carne exuberante e cobiçada
inspira o meu primeiro texto erótico.

Beleza de um pujante apelo exótico,
desvelo minha Vênus despojada,
desnuda por completo, abraseada
pelo pudor desfeito em cio caótico!

O quadril abundante e tão carnudo
se oferece ao olhar inebriado
do vate sempre casto, assim sisudo.

Desprezando o pudor civilizado,
eu lhe osculo o clitóris já tesudo,
e enfim desfruto o fruto bem amado.

Marcos Satoru Kawanami