sexta-feira, 29 de março de 2013

soneto de outrora - a María Carolina González Rojas, desde o início dos tempos - dança da solidão, canção de Paulinho da Viola interpretada por Érica Albernaz

Carolina Otilia - por Temito

SONETO DE OUTRORA
a María Carolina González Rojas, desde o início dos tempos

Não vale mais valer o que valia
eu mesmo quando amava Carolina,
não vale mais um beijo de menina
de quando para sempre amá-la-ia...

Não vale ter amor que não se cria,
não valho de um poeta uma bonina,
não vale-me esta insônia que amofina
e inspira dó ou riso ou ironia:

“Que fazes, ó rapaz, a estas horas
ainda vigoroso em teu labor
com tal gosto que, em vez de suar, choras?”

Ao que eu, transido de solene horror,
respondo com a frase das outroras:
ao vate cabe o amar, mas não o amor.

Marcos Satoru Kawanami




BELEZA ETERNA DAS MOÇAS ETERNAMENTE BELAS
a Érica Albernaz Ferreira de Carvalho

Todas as CARTAS DE AMOR são
Ridículas.
Não seriam OBRAS DE ARTE se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo CARTAS DE AMOR,
Como as outras,
Ridículas.

As OBRAS DE ARTE, se há Amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
CARTAS DE AMOR
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
OBRAS DE ARTE
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas MEMÓRIAS DA LIRA VELHA
Dessas MOÇAS ETERNAMENTE BELAS
É que são
OBRAS DE ARTE.

(Todas as CARTAS DE AMOR,
Como as OBRAS DE ARTE,
São naturalmente
A BELEZA ETERNA DAS MOÇAS ETERNAMENTE BELAS.)

Álvaro de Campos, 21-10-1935
Marcos Satoru Kawanami, 14-03-2013