domingo, 31 de março de 2013

Augusto dos Anjos: versos íntimos, solilóquio de um visionário - soneto solilóquio - a Christina Montenegro

Marcos Satoru Kawanami


“A mão que joga a pedra é a mesma que apedreja.”
(Falcão, compositor cearense citando um pedreiro)


VERSOS ÍNTIMOS

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Augusto dos Anjos



SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO

Para desvirginar o labirinto
Do velho e metafísico Mistério,
Comi meus olhos crus no cemitério,
Numa antropofagia de faminto!

A digestão desse manjar funéreo
Tornado sangue transformou-me o instinto
De humanas impressões visuais que eu sinto
Nas divinas visões do íncola etéreo!

Vestido de hidrogênio incandescente,
Vaguei um século, improficuamente,
Pelas monotonias siderais...

Subi talvez às máximas alturas,
Mas, se hoje volto assim, com a alma às escuras,
É necessário que ainda eu suba mais!

Augusto dos Anjos



SONETO SOLILÓQUIO – a Christina Montenegro

Naturalmente em mim autista hermético,
o drama foi fazendo-me... dramático!,
extravazando até o esquema tático
em prol de um benefício mais estético.

Atleta mais melódico que atlético,
sou simbiose de um sopro pneumático
trompista, e artifício matemático;
e em síntese resumo do frenético.

Pois disse-me a parteira no meu parto
que eu fosse à merda!; eu ri, e teve início
a minha saga errante de Pinóquio.

E dentro do meu crânio existe um quarto
em cena teatral onde o bulício
da platéia é aplauso a um solilóquio...

Marcos Satoru Kawanami