sábado, 23 de fevereiro de 2013

confesso que fresquei - Falcão


CAPÍTULO XXII do livro Enredo do Mundo (ano: 1998)
(FARRA BOÊMIA)

Outro dia, seu bando estava cantando à janela duma menina que ele apelidara de anjinho por ser muito jovenzinha e... parecer mesmo um anjo de filme épico de Hollywood; ele ao trombone de pistões, Dario ao pandeiro, seu Fernando no violão, Henrique no clarinete, e um outro camarada cantando:

Quero... sempre te ver bem junto a mim... (*)
Por que te esquivas assim coração
De uma paixão
O teu olhar traz alegria
Mas também traz o amargor
Sem ele então... não viveria
Vida não há sem dor...

Lá pela terceira ou quarta canção, o vizinho do lado, que é coronel da aeronáutica, começou a gritar de dentro de casa:

—Já é tarde, seus vagabundos, tem gente querendo dormir que TRABALHA amanhã!

Ele não gosta de música. É o coronel Rodrigues; sério, sisudo, tem três filhas no esplendor da adolescência que ele cria na linha dura, cogita-se que as gurias nem vêem televisão. Mas talvez ele tivesse razão, aquele bando de tangarás sempre toca descompassado e até fora do tom.

Na manhã seguinte, matando mosca na repartição pública onde trabalha, ele teve uma idéia. Tem um menino no Morro do Barbante metido a conquistador; realmente ele é bonito, tem porte, mas é um pouco ignorante. Fez uns versinhos, e na sexta feira à noite os levou para o Dario e seu Fernando os musicarem. Não consegue fazer melodias; já musicou um poema do Manuel Bandeira (Baladilha Arcaica), e em 1992 fez um samba tão complicado que nem ele conseguiu tocar; mas não passou disso. Outra frustração dele é não ter coordenação suficiente para tocar no bordão —o violão.

De qualquer forma, os versos viraram valsa e no sábado foram ao Barbante na residência do Azeitona, o conquistador. Fernando disse:

—Ei, Azeite, ali na Vila dos Oficiais tem três gatinhas boas de conversa e de corpo. São irmãs, moram na casa 47. Você com esta pinta de galã e este vozeirão... eu estava pensando: que tal irmos fazer hoje uma serenata para elas? Você canta, a gente fica de longe para te dar destaque. Olha só, este nosso amigo fez até uma letra especial para você. Pelo menos uma tu vais impressionar!

Ele aceitou. Cerca de dez da noite, ele e o mesmo bando (menos o outro cantor cujo nome remanescerá ignoto) se postaram no fim da rua, quase na esquina, prontos para tudo; e o Azeitona ficou bem em frente do número 47 da Rua da Ferradura (Capitão Enilton França). E começou a cantar com todo o romantismo:

Eu saí da tua alcova (*)
Com o prepúcio dolorido
Deixando o teu clitóris gotejante
Com volúpia emurchecido
Porém, o gonocócus da paixão
Aumentou minha tensão...

Nisso, um coronel Rodrigues enfurecido e de pijama pula na janela frontal com arma em riste e começa a disparar gritando:

- Canalha! Imoral! Vai cantá pra puta que te pariu!

Antes do segundo disparo o Azeitona já estava na esquina, e os outros da esquina já estavam na guarita da saída a quase 50 metros dali.

No dia seguinte, reunidos no Ponto de 100 Réis em Vila Isabel, o Azeitona perguntou-lhe porque a reação do coronel fôra tão enérgica. Antes que ele respondesse, Fernando, o pai do Dario, se adiantou valendo-se de todo o cinismo desse mundo (uma de suas melhores qualidades, diga-se de passagem):

—Bobagem... tem gente que não sabe apreciar boa música.

Ele bem que tentou com todas as suas forças, mas sem agüentar muito, caiu violentamente sobre a mesa chorando de tanto rir e derrubando os copos e as garrafas que encontrou pela frente. E aquele que nunca pregou ou foi vítima de uma peça dessas, aquele nunca existiu.

Marcos Satoru Kawanami
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PS: Os versos assinalados com (*) são de Noel Rosa.

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