terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

habite-se


HABITE-SE - para Andréa Manoel

No Masp, todo aquele armado vão
de nunca amado armado vil concreto
é o vazio sobre o qual ora soneto
no vazio claustroforme: a Solidão!

Amar é estar-se só na multidão,
de há muito já versou vate seleto,
mas, como na Verdade Amor decreto,
ainda vale tal definição.

Decreto de poeta vale nada,
mas este decretei material,
timbrado no concreto cordial.

E, se a moça da noite enluarada
achar meu coração de vil concreto,
desenha-me também no teu projeto!

Nhandeara, 25 de fevereiro de 2013
Marcos Satoru Kawanami

domingo, 24 de fevereiro de 2013

não tem jeito que dê jeito


LÍRIOS DO CAMPO

hebreia morena,
dei-te um lírio
por amor.
por amor,
deite um lírio
no chão frio do meu delírio,
campo gris,
quando eu não for...

Marcos Satoru Kawanami



SONETO PARALELO

Falar de Amor não vai te dar a prova
de que haja coisa sólida ou concreta
do tipo que a Ciência então não veta
a cerca de um amor que se renova.

Daí, dirá o Eu-lírico: — Uma ova! —,
pois, não se vendo o Amor, vê-se-lhe a seta
que fere o peito e a lira do poeta
em timbres que a audição assaz reprova.

Falar de Deus enseja igual polêmica,
pois, sendo uma abstração de ordem sêmica,
os olhos têm de vê-Lo por indício.

Ainda que O vejamos lá no início,
a tola confiança em nós nos trai,
querendo Deus no céu, e Deus Se vai!

Marcos Satoru Kawanami

sábado, 23 de fevereiro de 2013

confesso que fresquei - Falcão


CAPÍTULO XXII do livro Enredo do Mundo (ano: 1998)
(FARRA BOÊMIA)

Outro dia, seu bando estava cantando à janela duma menina que ele apelidara de anjinho por ser muito jovenzinha e... parecer mesmo um anjo de filme épico de Hollywood; ele ao trombone de pistões, Dario ao pandeiro, seu Fernando no violão, Henrique no clarinete, e um outro camarada cantando:

Quero... sempre te ver bem junto a mim... (*)
Por que te esquivas assim coração
De uma paixão
O teu olhar traz alegria
Mas também traz o amargor
Sem ele então... não viveria
Vida não há sem dor...

Lá pela terceira ou quarta canção, o vizinho do lado, que é coronel da aeronáutica, começou a gritar de dentro de casa:

—Já é tarde, seus vagabundos, tem gente querendo dormir que TRABALHA amanhã!

Ele não gosta de música. É o coronel Rodrigues; sério, sisudo, tem três filhas no esplendor da adolescência que ele cria na linha dura, cogita-se que as gurias nem vêem televisão. Mas talvez ele tivesse razão, aquele bando de tangarás sempre toca descompassado e até fora do tom.

Na manhã seguinte, matando mosca na repartição pública onde trabalha, ele teve uma idéia. Tem um menino no Morro do Barbante metido a conquistador; realmente ele é bonito, tem porte, mas é um pouco ignorante. Fez uns versinhos, e na sexta feira à noite os levou para o Dario e seu Fernando os musicarem. Não consegue fazer melodias; já musicou um poema do Manuel Bandeira (Baladilha Arcaica), e em 1992 fez um samba tão complicado que nem ele conseguiu tocar; mas não passou disso. Outra frustração dele é não ter coordenação suficiente para tocar no bordão —o violão.

De qualquer forma, os versos viraram valsa e no sábado foram ao Barbante na residência do Azeitona, o conquistador. Fernando disse:

—Ei, Azeite, ali na Vila dos Oficiais tem três gatinhas boas de conversa e de corpo. São irmãs, moram na casa 47. Você com esta pinta de galã e este vozeirão... eu estava pensando: que tal irmos fazer hoje uma serenata para elas? Você canta, a gente fica de longe para te dar destaque. Olha só, este nosso amigo fez até uma letra especial para você. Pelo menos uma tu vais impressionar!

Ele aceitou. Cerca de dez da noite, ele e o mesmo bando (menos o outro cantor cujo nome remanescerá ignoto) se postaram no fim da rua, quase na esquina, prontos para tudo; e o Azeitona ficou bem em frente do número 47 da Rua da Ferradura (Capitão Enilton França). E começou a cantar com todo o romantismo:

Eu saí da tua alcova (*)
Com o prepúcio dolorido
Deixando o teu clitóris gotejante
Com volúpia emurchecido
Porém, o gonocócus da paixão
Aumentou minha tensão...

Nisso, um coronel Rodrigues enfurecido e de pijama pula na janela frontal com arma em riste e começa a disparar gritando:

- Canalha! Imoral! Vai cantá pra puta que te pariu!

Antes do segundo disparo o Azeitona já estava na esquina, e os outros da esquina já estavam na guarita da saída a quase 50 metros dali.

No dia seguinte, reunidos no Ponto de 100 Réis em Vila Isabel, o Azeitona perguntou-lhe porque a reação do coronel fôra tão enérgica. Antes que ele respondesse, Fernando, o pai do Dario, se adiantou valendo-se de todo o cinismo desse mundo (uma de suas melhores qualidades, diga-se de passagem):

—Bobagem... tem gente que não sabe apreciar boa música.

Ele bem que tentou com todas as suas forças, mas sem agüentar muito, caiu violentamente sobre a mesa chorando de tanto rir e derrubando os copos e as garrafas que encontrou pela frente. E aquele que nunca pregou ou foi vítima de uma peça dessas, aquele nunca existiu.

Marcos Satoru Kawanami
...............................................

PS: Os versos assinalados com (*) são de Noel Rosa.

Rosa-Sinensis - Cantiga Breve - as time goes by...


AS TIME GOES BY...

The initial movement moves on
until today, in many
verbs and things; it’s only one
single Word all words and any;
like a row of dominos
striken by ones naughty toe.

But, unlike a foolish game,
has a purpose there above’s
naughty toe without a name,
that is struggle become love
in a row of many times
as time goes by through folks lives.

So, in beauty seek your trouble,
and delight yourself the double!

Marcos Satoru Kawanami

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Andréa Manoel - Ne pleure plus! - HIBISCUS ROSA-SINENSIS


HIBISCUS ROSA-SINENSIS - to Andréa Manoel

Having walked in life through a boulevard
of dark shadows, I found a pleasant garden
where native flowers grow without a warden,
and one another are their oun reward.

People there never eat and never starve,
and yet the garden even ever broaden
cheered with fun of the loving little children
that play upside-down, run, and climb and carve!

Hibiscus is the garden one I found,
following someone’s eyes put on the horizon,
brilliant brown eyes of soul and tears on.

Andréa is the voice that since then sounds
to me, my every day so human happiness
that only as divine can be fulfilness…

Nhandeara, 17 of February of 2013
Marcos Satoru Kawanami



SONETO ACRÓSTICO A ANDRÉA MANOEL

A duras penas, quero um finalmente,
não seja a minha morte anunciada,
dedico aqui um verso à pátria amada,
retiro o mesmo verso, inconseqüente

é isso só que sou impunemente
a vida inteira de alma abraseada...
Marcos Satoru Kawanami, a cada
aurora ele tem visto inteiramente,

nem mais, nem menos, só o que é certeiro,
o verso que faltava não é verso,
e o fim não é a morte, é o primeiro

liberto senso nosso no Universo.
Eu digo neste verso derradeiro:
te dou a minha vida por inteiro...

Nhandeara, 23 de janeiro de 2013
Marcos Satoru Kawanami



DISSONÂNCIAS - a Andréa Manoel

A verdade é só uma a verdade é
só uma a verdade é só uma a ver
dá de uma só verdade é uma só
cesura censurada sem censura?

A mentira não por favor amém
tira não por favor ah mentirá
não por favor amém tira não por
favor amém amemos amaremos?

Sem grilo cri-cri à toa a morgar
dá de uma só verdade é uma só
a verdade é só uma a verdade é

não por favor amém tira não por
a mentira não por favor amém
favor cesura sem censura amemos!

Nhandeara, 4 de janeiro de 2013
Marcos Satoru Kawanami


ROSA-SINENSIS - a Andréa Manoel

Andréa, são para ti
os versos meus mais singelos,
porquanto teus olhos vi,
e tanto mais quero vê-los.

Nos teus olhos tenho tido
ofuscamento geral,
quando sou favorecido
por visita angelical.

Eu não me lembro do Céu,
porque nunca estive lá,
mas, feliz, tiro o chapéu
quando tu vens para cá!

Depois, fico matutando
se vi mesmo a tal morena...
Sonho que, de vez em quando,
ela chega é pela antena?

Se eu pudesse, te enviava,
pela antena do telhado,
carta de papel sem trava
para um estro apaixonado.

Sobriedade me faltando,
é melhor dar fim à prosa
que já vai se assemelhando
ao desabrochar da rosa...

Nhandeara, 21 de janeiro de 2013
Marcos Satoru Kawanami

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Soneto Nacional


SONETO NACIONAL

Nasceu lá no Ipiranga a pátria amada
de um povo bonachão e sempre plácido,
mas de brio resistente ao próprio ácido
gástrico a digerir a feijoada!

Fulguras, ó Brasil da caçoada,
qual um tendão-de-Aquiles cá da América;
porque, se primas na tragédia homérica,
tua comédia é a mais esculhambada!

Mas, se ergues da Justiça a clava forte,
verás que um filho teu, se foge à luta,
o faz somente em nome da labuta;

e, ao fugir do batente até a morte,
canta mais alto seu canto guerreiro
na cadência a sambar, bem brasileiro...

Marcos Satoru Kawanami

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Zélia Duncan - Felicidade - a vida é filme - Foste à locadora pegar um filme. Já pegaste um firme hoje?


A VIDA É FILME

Por que escravo do Verso sempre vivo?;
se não faço o poema, sinto frio;
porém, após fazê-lo, estou vazio:
com fome e frio, liberto, mas cativo.

Escravos todos são, muda o motivo
que empenha a força régia do seu cio
por mares de Camões e de gentio,
a fim de nesta vida estar altivos.

Cumprimos, no planeta, um só papel
de morte e Vida igual sem exceção,
e cobre-nos o corpo, que é um véu.

Parece todo o Drama escravidão,
fugir-se deste Filme é estar no Céu,
porém filmamos nossa redenção.

Marcos Satoru Kawanami

HUMOR: "os sabores da mulher" e "funeral do ricardão" de Dicró - décima da mulher - minha nora vidente

Décima da Mulher

Mulher é um bicho esquisito:
sangue três dias lhe escorre
a cada mês, e não morre;
mas, se lhe pica um mosquito,
faz alarde igual apito.
Um bicho assim que por “regra”
sua estranheza não nega
me dá um medo patente:
pois não é que uma vidente
via tudo, sendo cega?!

Marcos Satoru Kawanami



Minha Nora Vidente

Achei, de minha parte, coisa boa
os zelos e cuidados que agora
ao meu filho dispensa minha nora,
a qual varre, cozinha, e ensaboa.

Pois, antes, nem sequer mesquinha broa
degustava meu filho ao vir da aurora,
moído a sustentar a tal senhora
que ao banho não se dava, tão à toa...

Hoje em dia, meu filho passa bem:
a mulher tomou viço e se perfuma,
cuida do lar com ânimo também!

Mas a transformação se deu, em suma,
depois que um “anjo” lá chegou, de trem,
por benzer as mulheres, uma a uma!

Marcos Satoru Kawanami

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

curti - Entrevista de Clarisse Lispector em 1977 - cantadas nerds - marcos castro e luciana d'aulizio - L'Atolerette, cinéma sur le Funk du Rio de Janeiro, fait à São Paulo, la capitale mondiale du monde interplanétaire de la modernité d'aujourd'hui. - No final, exegese hermenêutica de Tom Zé.

Entrevista de Clarisse Lispector em 1977:



TonhOliveira

CURTI

No carnaval, Antônio me pediu
que um curti eu curtisse na folia,
assim me foi dizendo Bete Bia,
fogosa como a puta que a pariu.

E a perva, me piscando, ainda sorriu,
mostrando-me um curti que ela trazia:
camisa pra vestir no pau, e eu via
que a Bia já esfregava o seu xibiu...

Abocanhei a teta entumescida,
o mamilo mais duro que meu pau
poderia meter por toda a vida.

E ela ordenando vem, seu bruto mau,
se arreganhou num cio que nunca vi,
e, curtindo, curti, curti, curti...

Nhandeara, 10 de fevereiro de 2013
Marcos Satoru Kawanami



UMA LENDA QUÍMICA

Nos manuais químicos dum laboratório
um Cloreto de Hidrogênio apaixonou-se
um dia
exotermicamente
por uma base.
Vislumbrou-a com seu olhar abrasivo
de uma reação reversível:
uma figura iônica;
olhos 2 molar, boca dativa,
corpo isobárico, seios em suspensão aquosa.
Fez da sua uma vida
à dela eletropositiva,
até que se encontraram
numa solução.
“Quem és tu?” —indagou ele
em precipitado.
“Sou filha de um Alcalino, e neta do Oxigênio.
Mas pode me chamar Hidroxila, de Sódio”.
E de falarem descobriram que eram
altamente reagentes.
E assim se amaram
num ciclo de oxi-redução
oxidando
ao léu da temperatura
e da pressão
metais, não-metais, semi-metais
por entre as colunas da Tabela Periódica.
Escandalizaram os ortodoxos
e desbancaram Lavoisier;
desmoralizaram Clayperon
e a relação de pê-vê-tê.
Enfim resolveram atingir um equilíbrio,
constituir uma família,
uma família de gases nobres!
De nobreza nada tinham;
nem um tio Xenônio,
nem um primo Hélio...
Mas o produto que tiveram
foi mais venturoso
e providencial:
no bojo dum erlenmeyer
com rendimento cem por cento
nasceram
Água e Sal.

Marcos Satoru Kawanami

"ô, mina, relaxa e goza." (Tom Zé)

JANAÍNA A BUGRA

Todos param para ver
Janaína minha irmã
que ainda não sabe ler
de selvagem cunhantã.

Eu, porém, quero aprender
com a bugra minha irmã
a maneira de escrever
dois em um só amanhã.

Janaína me parece
pintura tipo cubista,
explicação não carece(?)(!)(*).

Janaína se despista,
pudica, não fica nua,
mas não fica só na rua...

Marcos Satoru Kawanami


Para Tom Zé, uma das “ondas concêntricas” desencadeadas pela Bossa-Nova é o refrão de “Atoladinha”: “Tô ficando atoladinha / Tô ficando atoladinha / Tô ficando atoladinha”, sempre com a frase evoluindo em quartos de tom, opondo-se à “prisão” musical fundada pelo canto gregoriano - a escala diatônica . Trata-se de um “metarrefrão microtonal e polissemiótico”.

É “metarrefrão” porque é tão carregado de significados, que põe em xeque todos os refrões anteriormente existentes. O que Tom Zé quis dizer, até onde consigo entendê-lo, foi o seguinte: estruturado de uma forma musicalmente ancestral – a microtonalidade – o refrão de “Atoladinha”, carregado de sensualidade no plano da música e da letra, remete à revolta dos cristãos reprimidos pelo Papa Gregório, há mais de mil anos. É “polissemiótico” porque pode levar a uma acumulação de energia de tal grandeza, que é suficiente para que o indivíduo se masturbe.


FONTE: http://identidademusical.com.br/blog/2009/04/05/a-analise-espetacular-de-tom-ze/

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

quarta de cinzas - feitio de oração com marisa monte - provei e três apitos com tom jobim, chico buarque e os irmãos caymmi - cor de cinza, com aracy de almeida



FEITIO DE ORAÇÃO

Quem acha vive se perdendo
Por isso agora eu vou me defendendo
Da dor tão cruel desta saudade
Que, por infelicidade,
Meu pobre peito invade

Batuque é um privilégio
Ninguém aprende samba no colégio (Eu aprendi sim, na banda com Mestre Djalma Araújo de Oliveira)
Sambar é chorar de alegria
É sorrir de nostalgia
Dentro da melodia

Por isso agora lá na Penha
Vou mandar minha morena
Pra cantar com satisfação
E com harmonia
Esta triste melodia
Que é meu samba em feito de oração

O samba na realidade não vem do morro
Nem lá da cidade
E quem suportar uma paixão
Sentirá que o samba então
Nasce do coração.

música: Vadico / letra: Noel Rosa




Cor de Cinza

Com seu aparecimento 
Todo o céu ficou cinzento 
E São Pedro zangado 
Depois, um carro de praça 
Partiu e fez fumaça 
Com destino ignorado

Não durou muito a chuva 
E eu achei uma luva 
Depois que ela desceu 
A luva é um documento 
Com que provo o esquecimento 
Daquela que me esqueceu

Ao ver um carro cinzento 
Com a cruz do sofrimento 
Bem vermelha na porta 
Fugi impressionado 
Sem ter perguntado 
Se ela estava viva ou morta

A poeira cinzenta 
Da dúvida me atormenta 
Não sei se ela morreu 
A luva é um documento 
De pelica e bem cinzento 
Que lembra quem me esqueceu

Noel Rosa




TRÊS APITOS


Quando o apito da fábrica de tecidos
Vem ferir os meus ouvidos
Eu me lembro de você
Mas você anda
Sem dúvida bem zangada
Ou está interessada
Em fingir que não me vê
Você que atende ao apito de uma chaminé de barro
Porque não atende ao grito
Tão aflito
Da buzina do meu carro
Você no inverno
Sem meias vai pro trabalho
Não faz fé no agasalho
Nem no frio você crê
Mas você é mesmo artigo que não se imita
Quando a fábrica apita
Faz reclame de você
Nos meus olhos você lê
Que eu sofro cruelmente
Com ciúmes do gerente
Impertinente
Que dá ordens a você
Sou do sereno poeta muito soturno
Vou virar guarda-noturno
E você sabe porque
Mas você não sabe
Que enquanto você faz pano
Faço junto ao piano
Estes versos pra você


Noel Rosa




AGNÓSTICA DE ITAQUERA
(paráfrase ao samba “Três Apitos” de Noel Rosa)

Quando o Metrô vai chegando em Itaquera,
a estação é sempre primavera
pois me lembro de você.
Mas você anda sem dúvida bem zangada,
e está interessada
em fingir que não me vê.

Eu, da janela, vejo um estádio se erguendo,
mas cá dentro vejo o mundo estremecendo,
e você sabe por quê.
Mas você não sabe que nem artista lhe iguala
quando assisto à novela na sala,
seu nome brilha na TV?

Você, no inverno, sem meias vai para a escola,
nem pro frio você dá bola,
agnóstica em nada crê.
Mas pode crer que, se o Itaquerão é belo,
cantando isto ao violoncelo,
só é belo por você!

Nhandeara, 20 de dezembro de 2011
Marcos Satoru Kawanami

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

iml, de TonhOliveira - o último poema, de Manuel Bandeira

TonhOliveira

O ÚLTIMO POEMA

Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Manuel Bandeira



SONHAR É PRECISO

Se aos teus sonhos outros sonhos tu somares
Sob a espera da presença do irreal,
É porque estás além dos patamares
Dos arautos da frieza universal

Continua o teu sonho e não te ponhas
Na linhagem dos pétreos, sem sorriso,
Pois os Anjos te assistem enquanto sonhas
E na terra te preparam um Paraíso...

Benditos sejam os sempre sonhadores,
Fiéis aos passes de mágicos atores,
Que transformam o devaneio em realidade

Quem não sonha do seu chão não tem ciúmes,
É incapaz de lutar contra os costumes
Que corrompem os ideais de Liberdade...

Olavo Drummond



SONETO FEROZ
a Isabelle

Eu não quero o lirismo comedido,
conforme disse o velho e bom Bandeira;
eu não quero a bandeira brasileira
entre tantas de um mundo dividido.

Eu quero o amor geral, o Amor perdido,
difuso, tão confuso, assim sem eira
nem beira, só a vontade prazenteira
de viver sem jamais ser iludido.

Eu não quero este mundo decadente
que se ufana a dizer ser progressista
num suicídio lento, enquanto mente.

Eu quero é o ideal surrealista,
a doida sanidade do demente,
a lúcida loucura do autista!

Marcos Satoru Kawanami

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O cavalo do filme e o conflito no Mali



Quando entrei para a faculdade eu deixei de assistir jornal. Não foi por questões de lerdeza, alienação ou coisa do tipo, era porque os horários eram mesmo imcompatíveis. No entanto, na medida que eu fui retomando o tempo para desperdiçar na frente da TV, vi que eu já não era mais a mesma, que não conseguia mais ficar muito tempo parada ali assistindo o que a Rede Globo resolvia me empurrar.

Cresceu também uma certa revolta quanto aos telejornais, que dia após dia noticiavam conflitos atrás de conflitos, 20, 40, 200 mortos e a coisa ficando banal. Eu já falei sobre isso em algum post no passado, sobre a banalidade das coisas, sobre as pessoas já não mais se surpreenderem com a proporção das tragédias e das desgraças que ocorrem a cada instante. Provavelmente amanhã irão anunciar algum outro bombardeio, na Síria, talvez. E quem sabe isso tenha acontecido no momento em que estou aqui, sentadinha dispondo sobre isso.

O fato é que o mês de janeiro quase todo fiquei na casa do papai. E o papai assiste jornal, e na casa do papai não tem TV por assinatura, portanto eu não tive muita saída. Naqueles dias não se falava em outra coisa, a não ser do conflito no Mali, na África. Segundo o que li na internet, "o norte do Mali começou a ser ocupado por radicais islâmicos em abril do ano passado, quando o país africano sofreu um golpe de Estado. A instabilidade política permitiu o avanço dos grupos extremistas e dos tuaregues, fazendo com que o governo central não conseguisse controlar a região"¹. Depois disso, houve um ataque a uma refinaria na Argélia capturada por extremistas islâmicos..."Os extremistas disseram ter agido em represália à intervenção militar francesa no Mali"².

Enfim, provavelmente já aconteceram mais absurdos de lá para cá, mas eu deixei de acompanhar o noticiário novamente (felizmente ou não). Essa questão ficou marcada porque dias depois eu vi um filme sobre cavalo.

Eu não sou muito chegada em cavalos, sabe? É um bicho elegante e tudo o mais, porém é muito desconfortável! Eu simplesmente não entendo pessoas que trocam o conforto de um carro ou motocicleta por um cavalo. Mas o fato é que, por alguma razão, todos os filmes de cavalo que já vi me emocionaram -
Seabiscuit, Secretariat -, e agora, esse tal de "Cavalo de Guerra" do Spielberg. 

É uma história fantástica, para dizer a verdade (no sentido de irreal ou surreal), mas ao mesmo tempo tem o toque especial emocional dos filmes de cavalo. A cena mais marcante do filme (que é o que faz ligação com o meu relato sobre o conflito no Mali, haha, acharam que eu tinha surtado, né?) acontece quando o cavalo, nosso protagonista, se encontra em meio ao fogo cruzado em plena Primeira Guerra Mundial. Lembra da "guerra de trincheiras" das aulas de história? Pois é, o coitadinho do Joey (o cavalo), começa correr adoidado em meio ao bombardeio e sai arrastando tudo o que há pela frente, ficando completamente imobilizado por metros e mais metros de arame farpado. Olha aqui a foto.   î

Mas a questão não está centrada na má sorte do cavalo, mas da situação inusitada e até mesmo embaraçosa que se arma a seguir. Com pena do pobre animal, um soldado do lado inglês resolve ir até o bicho (que como eu disse está no meio do "campo de batalha" - entre a trincheira inglesa e a trincheira inimiga alemã) para resgatá-lo. Acontece que um soldado alemão também ficou comovido com a situação do animal.

Imagina a cena! Eu infelizmente não consegui encontrar essa imagem na internet, mas imaginem: você está em guerra, atirando no lado inimigo, jogando bomba e tudo o mais. Vai até o cavalo resgatá-lo e dá de cara com um cara que provavelmente estava atirando na sua direção também. Eles poderiam ter se matado ali, mas sabe o que acontece? Apesar de estarem em lados opostos na guerra, eles unem esforços para resgatar o animal.

É uma cena linda! Fantástica! Sublime! É um soco na cara da nossa sociedade. Deveria ser um soco na cara desses infelizes que estão por aí nesse mundo fazendo guerra, caçando conversa e sarna para se coçar, como o povo da Coreia do Norte que anunciou um dia desses a retomada aos testes nucleares. É uma cena que faz a gente pensar... que faz a gente ver que uma parcela de seres humanos está indo de mal a pior, pior do que bicho, porque bicho nenhum faz com seus semelhantes o que nós temos feito uns aos outros!

Eu procuro, eu juro que procuro algo que justifique toda essa matança, toda essa onda de injustiça, impunidade, banalidade e CHORO de tristeza porque eu sei que não vou encontrar justificativa. Não tem lógica! É de cortar o coração ver que em pleno século XXI ainda tenhamos que presenciar tamanhas barbáries, centenas de tragédias que poderiam ser evitadas; milhares de desalamados por aí fazendo maldade por prazer, política, poder, riqueza ou ainda pior, usando o nome de Deus. 

O que eu pensei naquela hora do filme, foi em todos esses conflitos que aconteceram e  tem acontecido. No que se tem perdido, valores, humanidade... Coisas que a meu ver valem muito mais do que tecnologias e mais tecnologias que tem tanta gente preocupada em aprimorar....

Onde foram parar o valor, o respeito e o amor à vida? Não só à nossa (vida), mas principalmente a do outro?


*Fonte das notícias transcritas no texto:
¹. http://www.jornalacidade.com.br
². http://www.ebc.com.br

domingo, 10 de fevereiro de 2013

a desejada



A DESEJADA

—Luzitânia, Luzitânia!
   —Diz aí, meu amorzinho!
—Esta insônia é uma infâmia.
   —Pois de noite estás sozinho?
—A leitura me consome.
   —Já jantaste, não tens fome?
—Tenho fome de ouvir anjos
tocando flautas e banjos.
Quero voar pelo céu
bebendo núvens ao léu...
   —Pára! Põe um pé no chão,
um pé só, um só que seja.
Na real, nada desejas
em que possas pôr a mão?
—Sim, um conto do Machado.
   —Tá... Qual? Posso ter guardado.
—“A desejada das gentes”.
   —Cá vou ver, não te apoquentes...
Achei! Posso te emprestar.
—Mas me terias pra dar?
   —Pra meter, é com cautela,
suba aqui pela janela,
seu tonto bobo lesado,
vê se vem bem retesado,
a desejada das gentes
já ficava impaciente!

Nhandeara, 10 de fevereiro de 2013
Marcos Satoru Kawanami