terça-feira, 1 de janeiro de 2013

versos que faltam - soneto já antigo - álvaro de campos, heterônimo de fernando pessoa



SONETO JÁ ANTIGO

Olha, Daisy: quando eu morrer tu hás de
dizer aos meus amigos aí de Londres,
embora não o sintas, que tu escondes
a grande dor da minha morte. Irás de

Londres p'ra Iorque, onde nasceste (dizes...
que eu nada que tu digas acredito),
contar àquele pobre rapazito
que me deu tantas horas tão felizes,

embora não o saibas, que morri...
mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar,
nada se importará... Depois vai dar

a notícia a essa estranha Cecily
que acreditava que eu seria grande...
Raios partam a vida e quem lá ande!

Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa



VERSOS QUE FALTAM

Fuleira margarida, flor querida,
quando eu morrer, tu dá risada, e manda
à merda a Daisy lá de Londres, anda
um pouco além, a Iorque, e, de varrida,

soletra ao mulheril que, em toda a vida,
lembrava delas todas pelas bandas
do mundo, por vencer cruéis demandas,
e, a cada rosto, a bunda era aludida.

Contudo, aquela estranha Cecily,
não manda à merda não, que dê o cu,
pois sempre disse que eu era jacu.

E, se o soneto pára por aqui,
do jeito que parou o do Fernando,
os versos é que vão se me faltando...

Nhandeara, 1 de janeiro de 2013
Marcos Satoru Kawanami