sábado, 26 de janeiro de 2013

bonde no carnaval - bonde de Santa Teresa, última linha de bonde em atividade na cidade do Rio de Janeiro

Em 1994, eu terminei uma aula na UFRJ,
e subi Santa Teresa de bonde.

BONDE NO CARNAVAL

O bonde se incorporou ao temário carnavalesco por volta de 1930 e até sua agonia, em 1962, era pixado ou badalado nos dias de Momo. Algumas composições ficaram eternas como O Bonde São Januário, de Wilson Batista e Ataulpho Alves, sucesso em 1941 na voz de Ciro Monteiro. Originalmente a letra era:


O Bonde São Januário
Leva mais um sócio otário
Só eu não vou trabalhar.

Lourival Fontes, chefe da censura do Estado Novo, não gostou do incentivo à malandragem e deu um arrocho, obrigando os autores a desagravarem o trabalho. Ficou assim:

O Bonde São Januário
Leva mais um operário
Sou eu que vou trabalhar.

Em 1938, Alvarenga e Ranchinho já haviam estourado com Seu Condutor, cujo refrão, reproduzindo o tilintar da campainha, pegou fácil:

Seu condutor dim dim
Seu Condutor dim dim
Pára o bonde pra descer o meu amor.

No mesmo ano J. Casacata e Leonel Azevedo brilharam com a marchinha Não Pago o Bonde, onde a instituição nacional do pistolão funcionava:

Não pague o bonde iaiá
Não pague o bonde ioyô
Não pague o bonde
Que eu conheço o condutor.

Nos festejos de 32, Noel Rosa e Eduardo Souto lançaram o engraçado Palpite:


Palpite
Palpite
Nasceu no crânio de quem teve meningite
Num dia desses perguntaste ao condutor
Se os bondes passavam pela rua do Ouvidor.

Mais antiga ainda é a marcha Zizinha de José Francisco de Freitas, abordando a bolinação nos coletivos, fato corriqueiro na época, e que fez o maior sucesso no carnaval de 1926:

Noutro dia num bondinho
Um coronel já bem velhinho
Deu-me um beliscão
Pegou-me na mão.

Cai, Cai de Roberto Martins, foi muito cantado em 1940;

Cai, cai
Eu não vou te levantar
Cai, cai
Quem mandou escorregar
Cai a rosa da roseira
Cai do bonde o passageiro
Pra morena mais faceira
Do meu bolso cai dinheiro.

Em 1942, os campeoníssimos Haroldo Lobo e Milton de Oliveira criticavam, com verve, alguns bondes que eram verdadeiras feiras livres:

Tem galinha no bonde
Tem, tem que eu vi
Galinha no bonde
É abacaxi.

Ainda em 1942, Joel e Gaúcho foram sucesso com a foliona Mulher do Padeiro.

A mulher do padeiro trabalhava noite e dia
E viajava só no bonde da Alegria
Cantava e pulava
E o padeiro não sabia.

Em 1966, o bonde já despertava saudades em J. Roberto Kelly e Meira Guimarães:

Saudosos carnavais de antigamente
De tanta gente no bonde.

A última referência carnavalesca ao bonde parece ter sido a marcha de 1972 O Bonde da Lapa, gravada pelas As Gatas.

O bonde que deixou saudade
Na cidade
Foi o Lapa
O Lapa que ficou no mapa
Na lembrança de ioiô e iaiá.

Fora do Carnaval ele foi também muito citado. O Bonde Camarão de Cornélio Pires e Mariano da Silva, data de 1929:

Aqui em São Paulo o que mais me amola
É esses bondes que nem gaiola
Cheguei, abri uma portinhola
Levei um tranco e quebrei a viola...
E inda pus dinheiro na caixa de esmola.

O bonde deu lugar a muitas expressões populares, como neste samba de Paulo Carvalho, que Carmem Miranda gravou em 1938:

Amor eu sei que você não tem não
Mas isso faz mal algum
Seu coraçãozinho é um estribo de bonde
Que tem sempre lugar pra mais um.

Noel Rosa gostava de cantar o bonde. Coisas Nossas é um delicioso desfile de tipos:


Martinho da Vila regravou
com sua filha Mart'nália.

Baleiro, jornaleiro, motorneiro
Condutor e passageiro, prestamista e vigarista
E o bonde que parece uma carroça
São nossas coisas, são coisas nossas.

Na marcha Seu Jacinto goza um debilóide:

Parou o bonde, o motorneiro disse à gente
Que é por falta de corrente
Que o bonde não sobe o morro
E o Seu Jacinto foi correndo bem ligeiro
Pra buscar no seu terreiro
Uma corrente de cachorro.

As Rosalinas curtiam bonde:

Mas Rosalina por que tu me feres tanto
Não te comove esta mágoa que vivo a sofrer
Pois eu te juro minha fruta de conde
Que até pingente de bonde
Eu vou ser para morrer (Orestes Barbosa).
O bonde do horário já passou
E a Rosalina não me chamou
Fazem cinco dias que não vou trabalhar
(Haroldo Lobo e M. Oliveira).

Vassourinha fez o bonde divã de psicanalista:

Pára o bonde, pára o bonde, que vai entrar mais um
Quando eu pego o bonde errado vou até o fim da linha
E pra passar as mágoas
Vou tocando a campainha.
(Chik-Chik-Bum de Antonio Almeida).

Mas desde o princípio do século que o bonde era tema musical. O modinheiro cearense Ramos Cotoco, implicava com as Bondemaníacas:

Numa rua onde passa o bonde
Moça não pode engordar
Não trabalha, não estuda
Não descansa... é um penar
Se o bonde passa está na janela
Se o bonde volta ainda está ela
Namora a todos, é um horror
Aos passageiros, ao condutor.

Os saudosistas não faltam, como Martinho da Vila:

Não chore, meu amor
Aqui já não tem mais bonde
Vou de outra condução.

Edu Lobo no Cordão das Saideirasrecorda:

Tempo do corso na rua da Aurora
O moço do passo, menino e senhora
O bonde de Olinda pra baixo e pra cima.

Billy Blanco em Rio do Meu Amor não o esquece:

Rio do Vasco e Botafogo, América e Bangu
Maracanã vibrando em dia de Fla-Flu
Do bonde que é saudade ornamentando praça.

Até a turma jovem lembra dele:

E viva o mundo inteiro
Mineiro não compra bonde
Pois inventou o avião.
(Salve, Salve de Eduardo Araújo e Durães).

Gordurinha canta outro protesto mineiro:

Quem disser que o mineiro é bobo
Vai cair na boca do lobo
As coisas boas que o mineiro inventa
Ninguém comenta
Todo mundo esconde
Só sabem dizer quer o mineiro
Foi pro Rio de Janeiro
Pra comprar um bonde.

O tropicalismo não podia ignorá-lo:

O táxi, o bonde, a luta
Meu amor é indiferente
Minha mãe, meu pai, a rua.
(Caetano Veloso e Torquato Neto).

Milton Nascimento e Fernando Brant tiveram um bonde no caminho do bar:

E lá vinha o bonde
No sobe e desce ladeira
E o motorneiro parava a orquestra um minuto
Para me contar casos
Da campanha da Itália.

Por fim a glória suprema: virou tema musical de novela:

Menina dos cabelos longos
Quero te levar pra longe
No primeiro bonde a gente pode partir.



Um comentário :

Larissa Bello disse...

Muito bom esse passeio no bonde musical. Sofro de Nostalgia profunda, até mesmo por aquilo que não vivi. Os tempos de hoje não me agradam nem um pouco.

Bjos!