quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

potato love - amor e flor - soneto em redondilha - Eu vivo fazendo merda. Mas cagar merda é certo. Errado é comer merda e cagar para dentro. Ou não é?



Amor e Flor

Em poesia, falar de rosa
É tão fácil quanto andar.
Mas bom mesmo é a olorosa
Fragrância que ela tem por dar.

Já o amor em verso ou prosa
É um abismo abissal;
Uma verdade duvidosa,
Diversa para cada qual.

A rosa é dentre as flores
Elegida à realeza.
Mas tem espinhos, que maldade...

Quem ao mundo dá suas cores?
Flores dão cor à natureza;
O amor dá cor à humanidade.

FIOCRUZ – Manguinhos
Rio de Janeiro, 16 de julho de 1998
Marcos Satoru Kawanami
.......................

"Eu vivo fazendo merda. Mas cagar merda é certo. Errado é comer merda e cagar para dentro. Ou não é?"
(Marcos Satoru Kawanami)

"O futuro do Brasil está saindo de dentro de você."
(porta do cagadouro da Faculdade de Filosofia da UFRJ)

sem um puto no bolso

Angelina Jolie em pintura de Manet - releitura

SEM UM PUTO NO BOLSO

Não vejo, nestes dias sem paisagem,
propícia ocasião de honrar labor
em vista a ter futuro promissor,
poupando o da velhice na bagagem.

Contudo, trabalhar não é bobagem,
se o método empregado houver favor,
e a prática do olhar me faz supor
que método certeiro é a vadiagem.

Pois sempre a vadiagem riu à toa:
“comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro”,
e sai na foto bem — é gente boa!

Já quem trabalha chora o ano inteiro
na fila do humilhante, sem um puto
no bolso, furado em sinal de luto.

Marcos Satoru Kawanami
...........................................................

LINK: LUAR DO SERTÃO

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

soneto acróstico a carissa vieira - Andanças, romance ao estilo Anne Rice.

ANDANÇAS - romance de Carissa Vieira

SONETO ACRÓSTICO A CARISSA VIEIRA

Carisma talvez seja mais certeiro
assim chamar a ela que Carissa,
repórter cultural, a qual atiça,
induz quem vê ao mundo prazenteiro

só não dos livros, telas e roteiros,
só não do belo, o carinho é premissa
ao público chamar, e com justiça.
Vigora um tal bom-gosto costumeiro

instante após instante em tudo nela,
e, quanto mais soímos costumar,
inigualavelmente é sempre ela

razão, e radical ao despojar
a plena intuição pela janela
ao povo que tem vindo lhe saudar!

Nhandeara, 27 de janeiro de 2013
Marcos Satoru Kawanami
..........................................................


Livros: Andanças
Autora: Carissa Vieira
Páginas: 136
Editora: Multifoco
Comprar: cultura | multifoco

A morte é a única certeza do ser humano, e por consequência um dos nossos maiores medos; afinal, o que vem depois? Há várias respostas para isso, ou tentativas delas... E cada um de nós nos agarramos ao que mais nos conforta. E o que acontece quando esse medo não existe mais? Ficaríamos bem? Afinal, que problemas não se tornariam pequenos quando se tem toda a eternidade para lidar com eles...

Carissa Vieira se distancia dos vampiros hoje em voga, e volta à falar do vampiro atormentado pela imortalidade. Tal imortalidade traz à tona o que há de mais humano nessas criaturas, seus questionamentos sobre a vida, o que os diferencia dos humanos, e se há alguma diferença. São angústias existenciais que ganham forma quando uma característica dos vampiros se apossa do humano transformado, a intensificação de seus sentimentos e sentidos; tudo é vivenciado de forma mais intensa.

E foram essas questões que eu pude observar nos vampiros presentes na obra, tenha ele acabado de ser transformado, como Charles, o personagem principal, ou os outros, transformados a muito mais tempo, que se envolvem na vida de Charles: Eliza, sua criadora, e Mikhail e Lorenzo, ambos se envolvem na vida de Charles devido ao relacionamento deles com Eliza em seus primeiros tempos de vampira.

Andamos, junto com Charles, pela Inglaterra do começo do século XX, passamos por Veneza, e por Nova York. As andanças dos personagens, sejam elas entendidas literal e metaforicamente, é o que me prendeu ao livro. Gostei da forma com que os relacionamentos foram descritos, e vivenciados pelos personagens. O mistério da vida de Eliza, de antes de Charles à conhecê-la, deixa-o com apenas alguns fragmentos do que outros vampiros falam para ele, e vai modificando a forma com que ele vê sua amada. O que intensifica, assim, uma trama de vingança que o livro tem como plano de fundo.

Eu já estava cansado de histórias de vampiros, principalmente por geralmente terem uma trama que não me agradam, focando excessivamente no romance. Carissa escreveu um livro adulto, um pouco nos moldes de Anne Rice, uma de minhas autoras favoritas. Ela conseguiu dosar o romance, colocando-o na medida certa, não deixando essas passagens cansativas. A trama de vingança foi muito boa, me fazendo construir, junto com Charles, o que estava realmente acontecendo ao seu redor. E o fechamento da história me deixou bem satisfeito, condizendo com a forma que a narrativa foi caminhando.

Thyeri Bione

sábado, 26 de janeiro de 2013

bonde no carnaval - bonde de Santa Teresa, última linha de bonde em atividade na cidade do Rio de Janeiro

Em 1994, eu terminei uma aula na UFRJ,
e subi Santa Teresa de bonde.

BONDE NO CARNAVAL

O bonde se incorporou ao temário carnavalesco por volta de 1930 e até sua agonia, em 1962, era pixado ou badalado nos dias de Momo. Algumas composições ficaram eternas como O Bonde São Januário, de Wilson Batista e Ataulpho Alves, sucesso em 1941 na voz de Ciro Monteiro. Originalmente a letra era:


O Bonde São Januário
Leva mais um sócio otário
Só eu não vou trabalhar.

Lourival Fontes, chefe da censura do Estado Novo, não gostou do incentivo à malandragem e deu um arrocho, obrigando os autores a desagravarem o trabalho. Ficou assim:

O Bonde São Januário
Leva mais um operário
Sou eu que vou trabalhar.

Em 1938, Alvarenga e Ranchinho já haviam estourado com Seu Condutor, cujo refrão, reproduzindo o tilintar da campainha, pegou fácil:

Seu condutor dim dim
Seu Condutor dim dim
Pára o bonde pra descer o meu amor.

No mesmo ano J. Casacata e Leonel Azevedo brilharam com a marchinha Não Pago o Bonde, onde a instituição nacional do pistolão funcionava:

Não pague o bonde iaiá
Não pague o bonde ioyô
Não pague o bonde
Que eu conheço o condutor.

Nos festejos de 32, Noel Rosa e Eduardo Souto lançaram o engraçado Palpite:


Palpite
Palpite
Nasceu no crânio de quem teve meningite
Num dia desses perguntaste ao condutor
Se os bondes passavam pela rua do Ouvidor.

Mais antiga ainda é a marcha Zizinha de José Francisco de Freitas, abordando a bolinação nos coletivos, fato corriqueiro na época, e que fez o maior sucesso no carnaval de 1926:

Noutro dia num bondinho
Um coronel já bem velhinho
Deu-me um beliscão
Pegou-me na mão.

Cai, Cai de Roberto Martins, foi muito cantado em 1940;

Cai, cai
Eu não vou te levantar
Cai, cai
Quem mandou escorregar
Cai a rosa da roseira
Cai do bonde o passageiro
Pra morena mais faceira
Do meu bolso cai dinheiro.

Em 1942, os campeoníssimos Haroldo Lobo e Milton de Oliveira criticavam, com verve, alguns bondes que eram verdadeiras feiras livres:

Tem galinha no bonde
Tem, tem que eu vi
Galinha no bonde
É abacaxi.

Ainda em 1942, Joel e Gaúcho foram sucesso com a foliona Mulher do Padeiro.

A mulher do padeiro trabalhava noite e dia
E viajava só no bonde da Alegria
Cantava e pulava
E o padeiro não sabia.

Em 1966, o bonde já despertava saudades em J. Roberto Kelly e Meira Guimarães:

Saudosos carnavais de antigamente
De tanta gente no bonde.

A última referência carnavalesca ao bonde parece ter sido a marcha de 1972 O Bonde da Lapa, gravada pelas As Gatas.

O bonde que deixou saudade
Na cidade
Foi o Lapa
O Lapa que ficou no mapa
Na lembrança de ioiô e iaiá.

Fora do Carnaval ele foi também muito citado. O Bonde Camarão de Cornélio Pires e Mariano da Silva, data de 1929:

Aqui em São Paulo o que mais me amola
É esses bondes que nem gaiola
Cheguei, abri uma portinhola
Levei um tranco e quebrei a viola...
E inda pus dinheiro na caixa de esmola.

O bonde deu lugar a muitas expressões populares, como neste samba de Paulo Carvalho, que Carmem Miranda gravou em 1938:

Amor eu sei que você não tem não
Mas isso faz mal algum
Seu coraçãozinho é um estribo de bonde
Que tem sempre lugar pra mais um.

Noel Rosa gostava de cantar o bonde. Coisas Nossas é um delicioso desfile de tipos:


Martinho da Vila regravou
com sua filha Mart'nália.

Baleiro, jornaleiro, motorneiro
Condutor e passageiro, prestamista e vigarista
E o bonde que parece uma carroça
São nossas coisas, são coisas nossas.

Na marcha Seu Jacinto goza um debilóide:

Parou o bonde, o motorneiro disse à gente
Que é por falta de corrente
Que o bonde não sobe o morro
E o Seu Jacinto foi correndo bem ligeiro
Pra buscar no seu terreiro
Uma corrente de cachorro.

As Rosalinas curtiam bonde:

Mas Rosalina por que tu me feres tanto
Não te comove esta mágoa que vivo a sofrer
Pois eu te juro minha fruta de conde
Que até pingente de bonde
Eu vou ser para morrer (Orestes Barbosa).
O bonde do horário já passou
E a Rosalina não me chamou
Fazem cinco dias que não vou trabalhar
(Haroldo Lobo e M. Oliveira).

Vassourinha fez o bonde divã de psicanalista:

Pára o bonde, pára o bonde, que vai entrar mais um
Quando eu pego o bonde errado vou até o fim da linha
E pra passar as mágoas
Vou tocando a campainha.
(Chik-Chik-Bum de Antonio Almeida).

Mas desde o princípio do século que o bonde era tema musical. O modinheiro cearense Ramos Cotoco, implicava com as Bondemaníacas:

Numa rua onde passa o bonde
Moça não pode engordar
Não trabalha, não estuda
Não descansa... é um penar
Se o bonde passa está na janela
Se o bonde volta ainda está ela
Namora a todos, é um horror
Aos passageiros, ao condutor.

Os saudosistas não faltam, como Martinho da Vila:

Não chore, meu amor
Aqui já não tem mais bonde
Vou de outra condução.

Edu Lobo no Cordão das Saideirasrecorda:

Tempo do corso na rua da Aurora
O moço do passo, menino e senhora
O bonde de Olinda pra baixo e pra cima.

Billy Blanco em Rio do Meu Amor não o esquece:

Rio do Vasco e Botafogo, América e Bangu
Maracanã vibrando em dia de Fla-Flu
Do bonde que é saudade ornamentando praça.

Até a turma jovem lembra dele:

E viva o mundo inteiro
Mineiro não compra bonde
Pois inventou o avião.
(Salve, Salve de Eduardo Araújo e Durães).

Gordurinha canta outro protesto mineiro:

Quem disser que o mineiro é bobo
Vai cair na boca do lobo
As coisas boas que o mineiro inventa
Ninguém comenta
Todo mundo esconde
Só sabem dizer quer o mineiro
Foi pro Rio de Janeiro
Pra comprar um bonde.

O tropicalismo não podia ignorá-lo:

O táxi, o bonde, a luta
Meu amor é indiferente
Minha mãe, meu pai, a rua.
(Caetano Veloso e Torquato Neto).

Milton Nascimento e Fernando Brant tiveram um bonde no caminho do bar:

E lá vinha o bonde
No sobe e desce ladeira
E o motorneiro parava a orquestra um minuto
Para me contar casos
Da campanha da Itália.

Por fim a glória suprema: virou tema musical de novela:

Menina dos cabelos longos
Quero te levar pra longe
No primeiro bonde a gente pode partir.



sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

soneto de carnaval - evocação de Jacob (Jacob do Bandolim) - jacó e raquel de camões



EVOCAÇÃO DE JACOB
(música: Avena de Castro / letra: Cristiano Ricardo)

Pedi humildemente ao céu maior
Inspiração para compor um algo mais
Que me trouxesse paz
Quem sabe poesia ou uma doce melodia
Em perfeita harmonia
Eloqüente que envolvesse a gente
E purificasse o ar

Me transportei até o céu maior
Que evocou Jacob com seu bandolim
Envolveu meu arredor
Com vibrações de sons celestiais
Jamais sentido em vida por um ser mortal

Divina melodia foi nascendo, de repente foi crescendo
Redimindo a Humanidade, ouvindo som de bandolim
Eu vi a Guerra ter um fim
Eu vi a Fome se escondendo, a Esperança renascendo
Vi o Mal se esvaindo, todo o Bem vi ressurgindo
Vi as trevas se afastando, todos os seres se abraçando
E até a lágrima vi transformar-se em sorriso
A terra de agonia, transformar-se em um paraíso



Jacó e Raquel

Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel serrana bela,
Mas não servia ao pai, servia a ela,
Que a ela só por prêmio pertendia.

Os dias na esperança de um só dia
Passava, contentando-se com vê-la:
Porém o pai usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Assim lhe era negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,

Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida.

Luís Vaz de Camões



Jacó e Raquel

Sete anos pondo fé Jacó bebia
cachaça por Raquel, mulata bela;
mas não bebia só, e sim com ela,
porquanto embriagá-la pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava contentado na esparrela;
porém a moça, usando de cautela,
jamais se embriagava, só fingia.

Vendo o pinguço, assim, que com enganos
sempre escapava sóbria a sedutora,
pudicamente e nada doidivana,

despenca-se a beber outros sete anos,
dizendo: —Mais bebera se não fora
para tão grande amor... tão pouca cana!

Marcos Satoru Kawanami



RUBICUNDA – soneto de carnaval

Eu sempre quis rimar com “rubicunda”
a farta bela boca da Mulata,
que até hoje meu peito desacata,
e meu crânio, de sangue, pois, inunda…

O Amor é fogo que arde sem que a bunda
estorve quem tem quê de diplomata
pra dizer “à francesa”, ou então na lata:
—Terreiro é pra sambar, ou levar tunda!

Mas…, por de injusto ser chamado o mundo,
não posso “rubicunda” aqui rimar
após num tal problema ir a fundo:

Insiste o Dicionário em afirmar
que é vermelho o que se diz rubicundo;
e a Mulata, esta cor, não tem pra dar…

Marcos Satoru Kawanami

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

soneto acróstico a andréa manoel



SONETO ACRÓSTICO A ANDRÉA MANOEL

A duras penas, quero um finalmente,
não seja a minha morte anunciada,
dedico aqui um verso à pátria amada,
retiro o mesmo verso, inconseqüente

é isso só que sou impunemente
a vida inteira de alma abraseada...
Marcos Satoru Kawanami, a cada
aurora ele tem visto inteiramente,

nem mais, nem menos, só o que é certeiro,
o verso que faltava não é verso,
e o fim não é a morte, é o primeiro

liberto senso nosso no Universo.
Eu digo neste verso derradeiro:
te dou a minha vida por inteiro.

Nhandeara, 23 de janeiro de 2013
Marcos Satoru Kawanami

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Rosa-Sinensis - para a compositora Andréa Manoel



ROSA-SINENSIS - a Andréa Manoel

Andréa, são para ti
os versos meus mais singelos,
porquanto teus olhos vi,
e tanto mais quero vê-los.

Nos teus olhos tenho tido
ofuscamento geral,
quando sou favorecido
por visita angelical.

Eu não me lembro do Céu,
porque nunca estive lá,
mas, feliz, tiro o chapéu
quando tu vens para cá!

Depois, fico matutando
se vi mesmo a tal morena...
Sonho que, de vez em quando,
ela chega é pela antena?

Se eu pudesse, te enviava,
pela antena do telhado,
carta de papel sem trava
para um estro apaixonado.

Sobriedade me faltando,
é melhor dar fim à prosa
que já vai se assemelhando
ao desabrochar da rosa.

Nhandeara, 21 de janeiro de 2013
Marcos Satoru Kawanami

domingo, 20 de janeiro de 2013

30 anos sem Mané Garrincha, alegria do povo.


SILÊNCIO DE UM MINUTO
(Noel Rosa 1910 - 1937)

Não te vejo e não te escuto
O meu samba está de luto
Eu peço o silêncio de um minuto
Homenagem a história
De um amor cheio de glória
Que me pesa na memória

Nosso amor cheio de glória
De prazer e de emoção
Foi vencido e a vitória
Cabe à tua ingratidão

Tu cavaste a minha dor
Com a pá do fingimento
E cobriste o nosso amor
Com a cal do esquecimento

Teu silêncio absoluto
Obrigou-me a confessar
Que o meu samba está de luto
Meu violão vai soluçar

Luto preto é vaidade
Neste funeral de amor
O meu luto é saudade
E saudade não tem cor

Noël de Medeiros Rosa


*Magé: 28 de outubro de 1933
+RJ: 20 de janeiro de 1983
SONETO SHOELESS

No afã de superar minhas manias
de símio faniquítico cristão,
adotei como pai o velho Adão
para circuncidar tudo o que eu via.

Eu quis Raquel, porém casei com Lia,
e ainda de pastor servi Labão;
topei com boi chifrudo em contra-mão,
lançando as bases da Cornogonia…

Corinthiano sou, e não santista,
porque não vi jogar o rei Pelé
que teria me feito um vitorista!

Eu gosto de louvar mesmo é o Mané,
o sumo do resumo idealista,
eu gosto é de mulher que tem chulé!

Marcos Satoru Kawanami

sábado, 19 de janeiro de 2013

dura lex sed lex - ou de como desperdiçar versos alexandrinos - ao Leônidas Pellegrini

primeiro as damas

DURA LEX SED LEX - ou de como desperdiçar versos alexandrinos
ao Leônidas Pellegrini

Senhor Procurador, por causa da Boceta,
a Máquina do Mundo abunda em eloqüência
em se tratando do Progresso da Ciência,
em muito produzir, desde a enxada à caneta!

Senhores cá do Júri, então não foi a Greta
que fez o Pai Adão cair na interjumência
de padecer labor em troca da prudência,
e, em troca do sorriso alegre, haurir careta?

Xoxota, qual sentença eleges por pagar,
se tanto estrago a tudo hás engendrado enfim,
que os males todos do Mundo foste cagar?

—Eu, Xoxota, com gosto assumo a culpa sim,
e rigor no castigo o encomendo exemplar:
caralhada, sem dó, caia já sobre mim!

Nhandeara, 19 de janeiro de 2013
Marcos Satoru Kawanami

rosa, choro-canção de pixinguinha muito conhecido na voz de marisa monte


ROSA

Tu és divina e graciosa
Estátua majestosa do amor
Por Deus esculturada
E formada com ardor
Da alma da mais linda flor
De mais ativo olor
Que na vida é preferida pelo beija-flor
Se Deus me fora tão clemente
Aqui neste ambiente de luz
Formada numa tela deslumbrante e bela
Teu coração junto ao meu lanceado
Pregado e crucificado sobre a rósea cruz
Do arfante peito teu

Tu és a forma ideal
Estátua magistral oh alma perenal
Do meu primeiro amor, sublime amor
Tu és de Deus a soberana flor
Tu és de Deus a criação
Que em todo coração sepultas um amor
O riso, a fé, a dor
Em sândalos olentes cheios de sabor
Em vozes tão dolentes como um sonho em flor
És láctea estrela
És mãe da realeza
És tudo enfim que tem de belo
Em todo resplendor da santa natureza

Perdão, se ouso confessar-te
Eu hei de sempre amar-te
Oh flor meu peito não resiste
Oh meu Deus o quanto é triste
A incerteza de um amor
Que mais me faz penar em esperar
Em conduzir-te um dia
Ao pé do altar
Jurar, aos pés do onipotente
Em preces comoventes de dor
E receber a unção da tua gratidão
Depois de remir meus desejos
Em nuvens de beijos
Hei de envolver-te até meu padecer
De todo fenecer

Pixinguinha

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

viola quebrada - mário de andrade e ary kerney - inezita barroso e rolando boldrin - moda de viola



VIOLA QUEBRADA

Erica arborea, pau do meu cachimbo,
é rosa brava, agreste, lá da Europa;
resiste ao fogo, ao vento, enverga a copa!,
quebrar, não quebra!, e ascende rumo ao limbo.

Érica Albernaz, rosa brava, agreste,
eu não resisto ao fogo, ao vento, e quebro
a minha perna ao meio, ao que celebro
os versos pés-quebrados que ora leste!

Erica arborea, flor que dá na vara,
por mais que desta flor açoite eu tome,
vergonha é que não tomo mais na cara...

Érica Albernaz, canto que consome
a minha voz vexada, a qual exara:
— Mais vexaria eu, se a não vexara!

Nhandeara, 17 de janeiro de 2013
Marcos Satoru Kawanami


VIOLA QUEBRADA

(Mário de Andrade e Ary Kerney)

Quando da brisa no açoite
A flor da noite se acurvou
Fui encontrar com a Maroca meu amor
Eu sentir n'alma um golpe duro
Quando ao muro já no escuro
Meu olhar andou buscando a cara dela e não achou

Minha viola gemeu, meu coração estremeceu
Minha viola quebrou, meu coração me deixou

Minha Maroca resolveu prá gosto seu me abandonar
Porque o fadista nunca sabe trabalhar
Isto é besteira pois da flor
Que brilha e cheira a noite inteira
Vem depois a fruta que dá gosto de saborear

Minha viola gemeu, meu coração estremeceu
Minha viola quebrou, meu coração me deixou

Por causa dela sou um rapaz
Muito capaz de trabalhar
E todos os dias e todas as noites capinar
Eu sei carpir porque minh'alma está
Arada, loteada, capinada
Com as foiçadas desta luz do seu olhar.

sábado, 5 de janeiro de 2013

harmonia e dissonância - Rosana dos Santos Augusto - WSL women soccer league - seleção brasileira de futebol feminino


HARMONIA E DISSONÂNCIA - para Rosana dos Santos Augusto

Rosana, moça forte delicada
dos campos feminis de futebol,
se o porte é atlético, suando ao sol,
a franca fala é doce e acanhada.

De toda criatura já sonhada,
reserva houve pra ti, além dos gols,
de afeto comparado ao rouxinol
vibrando ao vir da aurora... iluminada.

Rosana, moça forte delicada,
reserva houve pra ti além dos gols
dos campos feminis de futebol:

Vibrando ao vir da aurora... iluminada,
a franca fala é doce e acanhada,
se o porte é atlético, suando ao sol...

Nhandeara, 5 de janeiro de 2013
Marcos Satoru Kawanami

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

dissonâncias - a andréa manoel

Este intervalo de 7ª entre as notas  e  é
considerado uma dissonância.

DISSONÂNCIAS - a Andréa Manoel

A verdade é só uma a verdade é
só uma a verdade é só uma a ver
dá de uma só verdade é uma só
cesura censurada sem censura?

A mentira não por favor amém
tira não por favor ah mentirá
não por favor amém tira não por
favor amém amemos amaremos?

Sem grilo cri-cri à toa a morgar
dá de uma só verdade é uma só
a verdade é só uma a verdade é

não por favor amém tira não por
a mentira não por favor amém
favor cesura sem censura amemos!

Nhandeara, 4 de janeiro de 2013
Marcos Satoru Kawanami



CESURA:
Pausa no interior de um verso. Na métrica tradicional, esta pausa era obrigatória, sendo ditada pelo ritmo imposto ao verso. Não deve ser confundida com pausa de leitura, que é variável de leitor para leitor. Os versos curtos (até cinco sílabas) não estão, normalmente, sujeitos a cesura. Nos versos longos, pode ocorrer no princípio (“Cantei; | mas se me alguém pergunta quando”, Camões), no meio (“é ferida que dói, | e não se sente”, Camões) ou perto do fim do verso (“enquanto não quiserdes vós, | Senhora”, Camões). A posição medial é a mais comum. É possível um verso conter mais do que uma cesura (“olhe o céu, | olhe a terra, | ou olhe o mar”, Sá de Miranda). A cesura é muitas vezes marcada pela pontuação. Se ocorrer após uma sílaba breve ou átona, chama-se cesura feminina; se ocorrer após sílaba longa ou tónica, chama-se cesura masculina.

felicidade - poesia de Luiz Tatit recitada por Zélia Duncan


UM OSCILOSCÓPIO POR TI GELA - a Zélia Duncan

A tua voz, para sempre, gravada
em minhas retinas,
é a imortal imagem tua ecoando
em minhas trompas de eustáquio.

Pois tamanha
confusão mental
de profusão colateral
tu desencadeias
no meu osciloscópio redundante,
que pleonasmo!

Marcos Satoru Kawanami


SONETO DO UMBIGO - a Gregório de Matos

É a vaidade, Fábio, mais-valia,
rezava a velha letra da gazeta
no dia em que Gregório da caneta
serviu-se em prol de nova ideologia:

Não deve o Capital fazer orgia,
cagando na cabeça do perneta
assíduo proletário da muleta,
enquanto vai Raquel, ficando Lia!

Que baita sacanagem! Vou propor,
vós ides concordar aqui comigo:
mudemos o Sistema Produtor.

Porém, a ideologia, meu amigo,
também era vaidade, e de doutor;
valia mais o bom vai dá de umbigo!

Marcos Satoru Kawanami


SONETO NACIONAL - ao índio desconhecido

Nasceu lá no Ipiranga a pátria amada
de um povo bonachão e sempre plácido,
mas de brio resistente ao próprio ácido
gástrico a digerir a feijoada!

Fulguras, ó Brasil da caçoada,
qual um tendão-de-Aquiles cá da América;
porque, se primas na tragédia homérica,
tua comédia é a mais esculhambada!

Mas, se ergues da Justiça a clava forte,
verás que um filho teu, se foge à luta,
o faz somente em nome da labuta;

e, ao fugir do batente até a morte,
canta mais alto seu canto guerreiro
na cadência a sambar, bem brasileiro...

Marcos Satoru Kawanami


SONETO SHOELESS - à índia desconhecida

No afã de superar minhas manias
de símio faniquítico cristão,
adotei como pai o velho Adão
para circuncidar tudo o que eu via.

Eu quis Raquel, porém casei com Lia,
e ainda de pastor servi Labão;
topei com boi chifrudo em contra-mão,
lançando as bases da Cornogonia…

Corinthiano sou, e não santista,
porque não vi jogar o rei Pelé
que teria me feito um vitorista!

Eu gosto de louvar mesmo é o Mané,
o sumo do resumo idealista,
eu gosto é de mulher que tem chulé!

Marcos Satoru Kawanami



quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

a carioca - a moreninha, filme completo - romance de joaquim manoel de macedo - literatura brasileira - período literário: romantismo brasileiro


A CARIOCA - a Larissa Bello

Larissa, é verdadeiro o teu olhar?,
se nem olhando olhas assuntando
na noite enluarada, praticando
o ledo esporte de se praticar...

Eu vi, na Guanabara junto ao mar,
talvez em Paquetá —estás lembrando?—,
a Moreninha, que, de nós zombando,
ao grêmio varonil fez claudicar.

Pois ela, que tão bem conosco ia
o esmero da conversa conduzindo
à crença na descrença, amor sentia.

Reporto-me a tal ido tão bem vindo,
bonitamente crendo na alforria
do Tempo que é só teu no Espaço infindo...

Nhandeara, 3 de janeiro de 2013
Marcos Satoru Kawanami

HIBISCUS - para Érica Albernaz - Arnaldo Antunes: "de mais ninguém", canção interpretada por Érica Albernaz, voz e violão.


HIBISCUS - para Érica Albernaz

Eu tenho a minha dor, a dor é minha,
não é de mais ninguém, quem diz-me é ela,
cantante trovadora, Lira aquela
de quem a Flor do Lácio se avizinha

nas noites tais e quais o povo tinha
no tempo do Catulo e as tão singelas
canções favorecidas de aquarelas
plangentes ao orvalho com mantinha...

De um tempo, o que restou? A poesia,
e nunca a dor; porque não é a dor
dos que viram e nem dos que virão.

A dor é do poeta que sorria
e que sofria enquanto trovador
em um violão, balcão, porão... No chão.

Nhandeara, 17 de novembro de 2012
Marcos Satoru Kawanami

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

versos que faltam - soneto já antigo - álvaro de campos, heterônimo de fernando pessoa



SONETO JÁ ANTIGO

Olha, Daisy: quando eu morrer tu hás de
dizer aos meus amigos aí de Londres,
embora não o sintas, que tu escondes
a grande dor da minha morte. Irás de

Londres p'ra Iorque, onde nasceste (dizes...
que eu nada que tu digas acredito),
contar àquele pobre rapazito
que me deu tantas horas tão felizes,

embora não o saibas, que morri...
mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar,
nada se importará... Depois vai dar

a notícia a essa estranha Cecily
que acreditava que eu seria grande...
Raios partam a vida e quem lá ande!

Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa



VERSOS QUE FALTAM

Fuleira margarida, flor querida,
quando eu morrer, tu dá risada, e manda
à merda a Daisy lá de Londres, anda
um pouco além, a Iorque, e, de varrida,

soletra ao mulheril que, em toda a vida,
lembrava delas todas pelas bandas
do mundo, por vencer cruéis demandas,
e, a cada rosto, a bunda era aludida.

Contudo, aquela estranha Cecily,
não manda à merda não, que dê o cu,
pois sempre disse que eu era jacu.

E, se o soneto pára por aqui,
do jeito que parou o do Fernando,
os versos é que vão se me faltando...

Nhandeara, 1 de janeiro de 2013
Marcos Satoru Kawanami