quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Iracema 2012



VERDES MARES

Clama uma voz amiga: — "Aí tem o Ceará."
E eu, que nas ondas punha a vista deslumbrada,
Olho a cidade. Ao sol chispa a areia doirada.
A bordo a faina avulta e toda a gente já

Desce. Uma moça ri, quebrando o panamá.
"— Perdi a mala!" um diz de cara acabrunhada
Sobre as águas, arfando, uma breve jangada
Passa. Tão frágil! Deus a leve, onde ela vá.

Esmalta ao fundo a costa a verdura de um parque.
E enquanto a grita aumenta em berros e assobios
Rudes, na confusão brutal do desembarque:

Fitando a vastidão magnífica do mar,
Que ressalta e reluz: — "Verdes mares bravios..."
Cita um sujeito que jamais leu Alencar.

Fortaleza, 1908
Manuel Bandeira



IRACEMA 2012

Verdes mares bravios de minha terra
banhada pelo Atlântico abrasivo,
na qual um povo bom, feliz, festivo
outrora vi na infância além da serra...

Hoje, o que vejo é o fuzil que berra,
a lei do cão num tempo intempestivo,
a geração no crack ultra-nocivo
morrendo nesta guerra, e não há guerra!

Qualquer cidadezinha é testemunha
da sanha criminal pegando à unha
o povo que cansou de não cansar.

Mas, num sonho cravado de lacunas,
ainda vê as asas da graúna
a moça que jamais leu Alencar...

Nhandeara, 27 de dezembro de 2012
Marcos Satoru Kawanami