segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Fado Toninho [2008] - OFFICIAL video - ave maria pós-moderna - soneto à fidalguia - sonhar é preciso - soneto feroz

Conheci algo novo, e elegantemente tradicional aqui:



AVE MARIA PÓS-MODERNA

A luz que passa pelo cristalino
dos olhos chega ao fundo cerebral
recomposta em elétrico sinal
diverso do universo extra-tino.

A taça diz que “veritas in vino”,
em forma inversa, imagem espectral
vertendo na retina uma anormal
verdade aceita por qualquer menino...

Talvez o impulso elétrico reflita
externamente apenas algo novo
e tão antigo quanto a luz bendita

no céu de cada qual de cada povo
cujo drama tem sido a mãe aflita
dos elétrons por quem eu me comovo.

Marcos Satoru Kawanami


Soneto à Fidalguia

Escuta tu, com ares de fidalga
da mulher mais feminina, mimosa,
cujo porte eqüino a faz garbosa
para aquele feliz que te cavalga...

Eu, que os verdes campos feudais cultivo,
sinto o vermelho sangue que me verte
do peito em pranto, em ânsia, ao ver-te
com teu desprezo à vida por quem vivo.

Eu tenho um sonho louco, inefável,
pelo qual quero sublimar a vida
mesmo que esta se me faça perdida.

Mas acredito que mais desejável
é da existência remir os cansaços
sorvendo-te nua entre os meus braços.

Marcos Satoru Kawanami


SONHAR É PRECISO

Se aos teus sonhos outros sonhos tu somares
Sob a espera da presença do irreal,
É porque estás além dos patamares
Dos arautos da frieza universal

Continua o teu sonho e não te ponhas
Na linhagem dos pétreos, sem sorriso,
Pois os Anjos te assistem enquanto sonhas
E na terra te preparam um Paraíso...

Benditos sejam os sempre sonhadores,
Fiéis aos passes de mágicos atores,
Que transformam o devaneio em realidade

Quem não sonha do seu chão não tem ciúmes,
É incapaz de lutar contra os costumes
Que corrompem os ideais de Liberdade...

Olavo Drummond


SONETO FEROZ

Eu não quero o lirismo comedido,
conforme disse o velho e bom Bandeira;
eu não quero a bandeira brasileira
entre tantas de um mundo dividido.

Eu quero o amor geral, o Amor perdido,
difuso, tão confuso, assim sem eira
nem beira, só a vontade prazenteira
de viver sem jamais ser iludido.

Eu não quero este mundo decadente
que se ufana a dizer ser progressista
num suicídio lento, enquanto mente.

Eu quero é o ideal surrealista,
a doida sanidade do demente,
a lúcida loucura do autista!

Marcos Satoru Kawanami



2 comentários :

Francisca Matos disse...

Casamento perfeito esse, da música com a poesia.

Marcos Satoru Kawanami disse...

Francisca,

A música é boa, o fado vive!

:)
Marcos