sexta-feira, 30 de novembro de 2012

o poema mais bonito que escrevi em minha vida


BORDADO

O meu corpo é um novelo
do linho mais amarelo,
minha vida é desfazê-lo
no verso do amor singelo.

Nas tantas noites que velo,
castigando o cotovelo,
as rimas a quem apelo
são a voz do mudo zelo.

Assim, eu deixo um bordado
neste planeta a quem tem
lido o que tenho deixado.

Se acaso você também
tem-me igualmente estimado,
borde-me aí do seu lado.

Marcos Satoru Kawanami

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

o poema de florentino ariza

¿Cuánto tiempo esperarías al amor de tu vida?

O POEMA DE FLORENTINO ARIZA

Eu bem sei que tu bem sabes,
se o passado não mais volta,
se o destino não nos cabe
revirar como quem solta
perfume de flores mortas,
vamos cultivar a horta
sem flores, perfume, abelhas...
Porque as joviais centelhas
do teu semblante senil
são a zorra na masmorra,
a pólvora e o pavio.
E brincamos na modorra
do nosso jardim sem flores,
sem juventude, sem rima.

Marcos Satoru Kawanami



Envio essas mal traçadas linhas

Noel Pela Primeira Vez (Volume 7 CD 14 Faixa 23)
Intérprete: Ná Ozzetti
Composição: Noel Rosa (paródia de Cordiais Saudações)
Ano de composição: 1935

Cordiais saudações!
Envio estas mal traçadas linhas
Que escrevi à lápis
Por não ter caneta
Andas perseguido
Para que escapes
Corta o teu cabelo
E põe barba preta

Em vão te procurei
Notícias tuas não encontrei
Mas ontem te escutei
E este bilhete ao Fígaro entreguei

Sem mais para acabar
Recebe o beijo
Que eu vou mandar
Eu amo, com amor não brinco
Niterói, trinta de outubro de trinta e cinco

... Responde que eu pago o selo?



Cordiais saudações
Noel Rosa

(Cordiais saudações...)

Estimo que este mal traçado samba
Em estilo rude,
Na intimidade
Vá te encontrar gozando saúde
Na mais completa felicidade
(Junto dos teus, confio em Deus)

Em vão te procurei,
Notícias tuas não encontrei,
Eu hoje sinto saudades
Daqueles dez mil réis que eu te emprestei.

Beijinhos no cachorrinho,
Muitos abraços no passarinho,
Um chute na empregada
Porque já se acabou o meu carinho

A vida cá em casa
Está horrível
Ando empenhado
Nas mãos de um judeu.
O meu coração vive amargurado
Pois minha sogra ainda não morreu
(Tomou veneno, e quem pagou fui eu)

Sem mais, para acabar,
Um grande abraço queira aceitar
De alguém que está com fome
Atrás de algum convite pra jantar

Espero que notes bem:
Estou agora sem um vintém
Podendo, manda-me algum.
Rio, sete de setembro de trinta e um

(Responde que eu pago o selo...)

Ná Ozzetti é a melhor intérptrete da canção "Mensagem", mas não achei na Internet, procurem no CD "Show" de Ná Ozzetti.
Não é propaganda de minha parte, é porque gostei sobremaneira, e fiquei muito entusiasmado.
Eu até evito recomendar sites que contenham propaganda, para não influenciar ninguém no uso de dinheiro, que é um facilitador da dinâmica social, mas também causa morte e sofrimento.
Tentaram abolir o dinheiro no Camboja, mas não funcionou. O que há é a maldade humana; se as pessoas forem boas, qualquer sistema econômico e político vai bem; do contrário, qualquer sistema vai mal.
Na verdade, se nós fôssemos bons mesmo, não haveria necessidade de sistema político nem econômico; se nós fôssemos bons, não haveria necessidade de Civilização, bastava o que Deus criou.
Se eu fiz cálculos e um pouco de incursões no campo da Matemática, foi para que pessoas ligadas à racionalidade percebam que também a Razão pode ser amiga de Deus.


WHATEVERISMO

De que valeu em tudo a eficiência
da técnica na sua glória humana,
se foi vendida a preço de banana
a mesma humana natural decência?

Ou antes, que valeu criar ciência,
da qual um grêmio tolo se ufana,
se a mais subida idéia é sempre insana
havendo um certo pomo por pendência?

Resulta um mundo triste decaído
a espera do seu fim como quem quer:
cínico suicida sim, fingido.

Sentimos: tanto faz o que vier;
após o Paraíso já perdido,
resta-nos encontrá-lo onde estiver.

Marcos Satoru Kawanami

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

o sincerossídio

Vai um sincerossídio aí?

O SICEROSSÍDIO

            Entrevista de emprego. Estou eu lá entrevistando uma resma de retardado, até que chega aquele escroto:
            —Bom dia. Qual a sua data de nascimento?
            —20 de novembro de 1960.
            —Ah... Escorpião, 52 anos?
            —Claro, pô! Nasci em 60, tenho 52. Mas, quanto ao Escorpião, não me defendo com o rabo.
            —Eu nasci em 15 de novembro de 75, e sou de Escorpião.
            —Ah, desculpa aí o mal jeito.
            —Ok. Por que você quer este emprego?
            —Pra ter um salário.
            —Trabalhar não?
            —Olha, tu perguntou por que eu quero; trabalhar é conseqüência óbvia, e eu cumpro meu dever; senão perco o emprego, e o salário.
            —Cara, o senhor é grosso, hein?
            —Não, grosso é...
            —Pára, olha o respeito!
            —E o direito de andar nu?
            —Aí avacalhou... Segurança!
            —Não, calma. Os índios estavam pelados quando tudo isto chamado Brasil começou.
            —E daí?
            —Daí, neste calor medonho, eles tinham razão. Decreta aí a Lei do Nu Facultativo.
            —E, garçon, desce mais 1 chopps e 2 pastel. Cá dê o currículo.
            —Pode perguntar tudo, sei decor.
            —Eita escrotidão, você. Por que não imprimiu currículo?
            —É só dar uns telefonemas que tu confirma toda a minha vida pregressa. Pode até ligar pro Obama.
            —O senhor trabalhou para o presidente americano?
            —Não, mas você pode ligar.
            —Agora, à vera: Trabalhaste onde?
            —Trabalhei na NASA.
            —Posso ligar pra lá?
            —Pode.
            Eu telefonei para a NASA, mas nada confirmaram do porrolho que ora me aporrinhava.
            —Negativo, colega.
            —Trabalhei em um projeto que deve manter-se secreto.
            —Vá te catá, seu!
            —Implantaram um chip explosivo em meu crânio. Se eu começar a revelar as idéias da coisa, detonam meus cornos, e é miolo pra todo lado.
            —Segurança, leva.
            —Não, brincadeira. Eu era gari da Comlurb em Olaria. Minha mãe perdeu o pé na linha do trem. Não sei quem é meu pai. Tem dó... Não, não, solta eu! Tive que me prostituir com 12 anos pra dá de comer pros meus irmãos...
            É, meus amigos, eu não tive dó, nem SI sustenido fosse. Botei na rua. Como dói minha consciência agora. Enfim, eis aqui o sincerossídio de minha confissão exposta a vossos olhos, “ó leitores, vede-a com mágoa, vede-a com piedade, que ela busca piedade e não louvores”...

Nhandeara, 28 de novembro de 2012
Marcos Satoru Kawanami

terça-feira, 27 de novembro de 2012

eu digo truco! - Pra não dizer que nunca falei de publicidade e propaganda, mas, de la politique, jamais dans la vie; c'est une chose très ennuyeux. - Mamma Bruschetta e Cátia Fonseca atacam novamente: Crônica de um sincerossídio anunciado. - Gabriel García Márquez declara que ele já anunciara antes!

Mamma: Eh..., o menininho tem problema?
Cátia: É sincerossídio, colega. Aprendeu com a gente.

EU DIGO TRUCO!

            Se alguém na rua me chamar pra briga, mano, eu faço que nem lutador macho famoso: eu digo não! É, sou feio mas tô na moda.
            Daí, se maloqueiro começa a correr atrás de mim com pau cravado de prego insistindo pro pau quebrar, eu corro mais, e corro mesmo, véi! Eu sou velocista pra caramba quando quero.
            Mas, daí, eu paro e penso: Péra aí, eu tô dando uma de velocista, então, o velocista tem de dizer não também; e digo não, cazzo! Digo não, não corro não. Eu sou velocista, e velocista só corre entre as raia, na pista, treco profissa, mano. E o corredor dentro de mim, pára. E fico só olhando os malandro chegá. E eles chega...
            Rapaz, eu me concentro que nem o Aquiles Dias Xavier, repetindo: Entra, macho! E o Carlos Maçaranduba entra dentro de mim; não sei por onde, mas entra. Mando lutador chique balançá coqueiro, que é a variante de catá coquinho. E começo a dizer pra rapeise: Vou dá porrada. Mas nessa hora é que eles descobrem meu pobrema de gagueira, e fica nisso: Vou dá dá dá. Vou dá dá dá. Que nem aquela música dos tempos atrás.
            Cara, tô puto com a propaganda do governo pra dizer não à porrada. É.
            Tô puto em geral com governo, porco Bacco! Campanha do desarmamento, os nazista fizeram idem. Agora, bandido trafica arma lá dos raios que os partam, mas cidadão de bem não pode nem dar uns pipoco de bem. Sacanagem daquele filho do Brasil; pô, descarado fez até filme dele mesmo que nem propaganda de Goebbels pra Hitler, um belo filho de Dona Lindu, com todo o respeito.

Nhandeara, 27 de novembro de 2012
Marcos Satoru Kawanami
.....................................

PS: Programa Mulheres da TV Gazeta informa:
Site de Mobilização Contra Mortes No Trânsito:
http://naofoiacidente.org/blog/

Assine a petição. Faltam 546.047 assinaturas.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

sem um puto no bolso - revista o jogo: roubaram o puto cristiano ronaldo - Raparigas, enviai vossos consolos.



SEM UM PUTO NO BOLSO

Não vejo, nestes dias sem paisagem,
propícia ocasião de honrar lavor
em vista a ter futuro promissor,
poupando o da velhice na bagagem.

Contudo, trabalhar não é bobagem,
se o método empregado houver favor,
e a prática do olhar me faz supor
que método certeiro é a vadiagem.

Pois sempre a vadiagem riu à toa:
“comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro”,
e sai na foto bem — é gente boa!

Já quem trabalha chora o ano inteiro
na fila do humilhante, sem um puto
no bolso, furado em sinal de luto.

Marcos Satoru Kawanami

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

soneto do umbigo - intertextualidade - interdisciplinaridade - paráfrase satírica, paródia a soneto de gregório de matos guerra - batuques de terreiro - batuque de umbigada



Vaidade Humana Por Metáforas

É a vaidade, Fábio, nesta vida,
Rosa, que da manhã lisonjeada,
Púrpuras mil, com ambição dourada,
Airosa rompe, arrasta presumida.

É planta, que de abril favorecida,
Por mares de soberba desatada,
Florida galeota empavesada,
Sulca ufana, navega destemida.

É nau enfim, que em breve ligeireza
Com presunção de Fênix generosa,
Galhardias apresta, alentos preza:

Mas ser planta, ser rosa, nau vistosa
De que importa, se aguarda sem defesa
Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa?

Gregório de Mattos e Guerra



SONETO DO UMBIGO

É a vaidade, Fábio, mais-valia,
rezava a velha letra da gazeta
no dia em que Gregório da caneta
serviu-se em prol de nova ideologia:

Não deve o Capital fazer orgia,
cagando na cabeça do perneta
assíduo proletário da muleta,
enquanto vai Raquel, ficando Lia!

Que baita sacanagem! Vou propor,
vós ides concordar aqui comigo:
mudemos o Sistema Produtor.

Porém, a ideologia, meu amigo,
também era vaidade, e de doutor;
valia mais o bom vai dá de umbigo!

Marcos Satoru Kawanami




BATUQUE DE UMBIGADA

     Embora as diversas culturas e religiosidades ocidentais atribuam à criança, à virgem e ao idoso, a pureza e, portanto, lhes atribuam significados sagrados, nas crenças africanas o casal adulto, reprodutor, também carrega o valor do sagrado. Pois o casal está vinculado à geração da vida e assim, a sexualidade não é reprimida. A punga representa simbolicamente a união de homem e mulher, a continuidade da vida através da reprodução.
     Nos desenhos da prancha retratamos o cenário do interior de São Paulo, onde o Batuque de Umbigada acontecia, principalmente, nas fazendas de café e cana-de-açúcar. A cidade especificada no desenho é Piracicaba, tornando-se obrigatória a representação do rio, o qual caracteriza a relação do sagrado entre o homem e as águas. Principalmente pela representação de Oxum, Orixá das cachoeiras.
  

     Os trajes da festa evidenciam o trabalhador rural sem perder os caracteres da cultura africana: mulheres com um pequeno turbante na cabeça (as mais jovens usam apenas uma faixa na cabeça e possuem cabelos trançados), blusas brancas decotadas, colares pendurados no pescoço, semelhantes aos fios de conta. Usam brincos e pulseiras, saias rodadas e compridas, hoje, são muito estampadas, na maioria das vezes são de chita; Os homens usam camisas abertas e calças folgadas, com os pés no chão e também com colares no pescoço.
     Os mestres, sábios da tradição do batuque, podem ser um pai-de-santo, uma mãe-de-santo, ou simplesmente pessoas mais velhas na comunidade. Pois esses trazem aos mais jovens as histórias dos ancestrais, as lembranças e conhecimentos do povo africano que foi trazido ao Brasil.
     Durante a dança, quando os participantes "afirmam o ponto", ou seja, cantam, repetindo texto e música, o primeiro a dar umbigada é o "modista”. Assim, os demais batuqueiros começam a dançar. Dão umbigadas seguindo o ritmo do tambu. Quinjengue e matraca são tocados freneticamente. Os batuqueiros dão três umbigadas, voltando aos seus lugares iniciais. Depois são as mulheres que vão até os homens para dar umbigadas. Repetindo a seqüência com as mais diversas músicas e pontos, no geral elas contam sobre os Orixás, o trabalho dos negros e elementos da natureza. Mas nunca as músicas são inocentes, sempre resguardam um conhecimento do povo ou contam histórias de maneira codificada. Essa é uma das características comuns aos rituais e danças de batuque, a resistência cultural através do canto.

VIA VERITAS VITA



VIA VERITAS VITA

Se tanto foi escrito, me é forçoso
o ofício de escrever a essa gente;
verdade seja dita expressamente:
Verdade é o Soberano Magestoso.

Palavra diluída em lacrimoso
minguado verso meu ingentemente
diante da Palavra onipresente
conduz-me de tal modo sempre ao gozo!

A Vida bem vivida e celebrada,
Verdade seja dita, é o Caminho
da história tantas vezes recontada.

Iria eu escrever sobre o carinho
plantado no meu peito a mão de fada,
mas vejo que o amor falou sozinho!

Marcos Satoru Kawanami


terça-feira, 20 de novembro de 2012

RÁDIO GAZETA FM 88,1 MHz A PRIMEIRA - dois palíndromos - picture of the nacional geographic: butterfly 88 - palindrome

Gazeta FM: 88,1

DOIS PALÍNDROMOS

Assovio flauta atual, foi vossa
darradeira menção de vosso ofício,
e eu fiz estes palíndromos por vício
às sobras, o don no dosar bossa...

Mas vide que o soneto, minha nossa!,
tem falha métrica, a bem do artifício,
na tal palindroforme estrofe, indício
que o Tonho em apuros põe-me à troça.

O ano mais feliz de minha vida
foi justo o ano de Tonho a proposta,
fazer de 88 ambivalente

tanto naquela estrofe referida
quanto em um seu desenho, que, ele aposta,
meu triodecênio forja eternamente.

Marcos Satoru Kawanami
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Contribuição devida ao comentário de Larissa Bello.

João Nogueira - Espelho



SONETO DO ESPELHO

Se tu pensas que podes te enganar
dizendo-me que não sentes saudade
de tudo que tinhas na mocidade,
mas levaram os anos devagar,

aqui vou clarear tua memória
mostrando quão tenra foi tua face
antes daquele triste desenlace
que deste a da tua vida a história:

tinhas saúde, porém não gozaste;
tua mente pensou, mas pouco agiu
sobre teu corpo que a si consumiu;

e resultando tudo neste traste,
quando bem me olhas só vês um velho
cujo impulso é quebrar o próprio espelho.

Galeão, 17 de novembro de 1998
Marcos Satoru Kawanami

Amy Winehouse, the poet.

Amy Winehouse - the poet
Droga não abre a mente.
O que abre a mente é estudar, e muito!

O SENTENCIADO

Ter alma de poeta é sacrifício
a Deus, por sacerdócio leigo infame
ainda que o poeta, em vão, derrame
o sangue de si mesmo em prol do ofício.

Ter alma de poeta é ter por vício
o verso, mesmo que ninguém declame
a ninfa cujo zelo ora lhe inflame
o crânio a meningítico artifício.

Ter alma de poeta, enfim, é isto:
é parecer saudável na doença;
é parecer ateu mas seguir Cristo;

é acrescentar penhor se não compensa;
é dar bom dia à noite, e ainda, insisto,
é redigir na testa uma sentença!

Marcos Satoru Kawanami

João do Vale - Pé do lajeiro - João do Vale documentário em 3 partes






sábado, 17 de novembro de 2012

hibiscus - Arnaldo Antunes - de mais ninguém


HIBISCUS

Eu tenho a minha dor, a dor é minha,
não é de mais ninguém, quem diz-me é ela,
cantante trovadora, Lira aquela
de quem a Flor do Lácio se avizinha

nas noites tais e quais o povo tinha
no tempo do Catulo e as tão singelas
canções favorecidas de aquarelas
plangentes ao orvalho com mantinha...

De um tempo, o que restou? A poesia,
e nunca a dor; porque não é a dor
dos que viram e nem dos que virão.

A dor é do poeta que sorria
e que sofria enquanto trovador
em um violão, balcão, porão... No chão.

Marcos Satoru Kawanami

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Crer em Deus ainda faz sentido. - crônica do jornal Estadão - para Paulo Vitor Cruz

Catedral - Artêmio Fonseca de Carvalho Filho, é tetraplégico.

Crer em Deus ainda faz sentido?

DOM ODILO P. SCHERER — CARDEAL-ARCEBISPO DE SÃO PAULO — O Estado de S.Paulo

No dia 11 de outubro passado, o papa Bento XVI abriu um "Ano da Fé" para toda a Igreja Católica. A iniciativa coincide com o 50.º aniversário da abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II, levada a efeito a seu tempo pelo papa João XXIII. São objetivos do "Ano da Fé" o reencontro dos fiéis com as raízes e as razões da fé da Igreja, sua melhor compreensão e um novo impulso na transmissão do patrimônio da fé, que os cristãos vivem e partilham com a humanidade há 20 séculos.
Pareceria que não faz mais sentido crer em Deus em nossos dias, sobretudo diante da afirmação da racionalidade científica e tecnológica. Há ideias bem diversas sobre a fé, nem sempre compatíveis entre si: há uma fé natural, que se confunde com um desejo intenso, há fé nos projetos humanos e até fé na ciência e na tecnologia. Sem entrar no mérito de cada uma dessas formas de uso do conceito "fé", e respeitando a forma como cada um crê ou não crê, desejo tratar aqui da fé sobrenatural em Deus e daquilo que decorre dessa fé, no sentido cristão de crer - mais exatamente, da Igreja Católica, à qual me dedico.
As perguntas que o próprio papa Bento XVI fez na abertura do "Ano da Fé", provavelmente, são as mesmas que mais de um leitor já se fez alguma vez: ainda tem sentido crer, quando a ciência e a técnica conferem ao homem uma sensação próxima da onipotência? O homem ainda precisa da fé? A fé não humilha a razão? O que significa crer?
Razão e fé, ciência e religião foram e são contrapostas com frequência, como se fossem inconciliáveis. Sobre esse tema o papa João Paulo II escreveu a carta encíclica Fides et Ratio (A Fé e a Razão), de grande profundidade, que permanece plenamente atual. Razão e fé não precisam nem devem, necessariamente, ser contrapostas. São duas vias de acesso à única realidade, percebida de maneiras diferentes; abordagens diversas quanto ao método e complementares quanto ao seu objeto, que é a verdade.
O ato de crer, no sentido cristão, vai além da mera adesão intelectual a uma verdade, ou a um ideal ético elevado. Tampouco se restringe à afirmação de doutrinas sobre Deus ou sobre realidades sobrenaturais. A fé é um dom de Deus, que se manifesta ao homem e o atrai a si, dando-lhe a capacidade de entrar em sintonia e diálogo com Ele. Ao mesmo tempo, é um ato que envolve plenamente o homem e o faz reconhecer os motivos para crer e a razoabilidade da adesão livre a uma realidade que se lhe apresenta luminosa e forte. A fé, nesse sentido, não é um ato irracional nem contrário à razão; nem puro sentimento, podendo ser compreendida e explicitada com argumentos, embora não seja fruto desses argumentos.
Nossa fé está ligada a fatos e eventos, mediante os quais Deus envolve o homem e se manifesta a ele; ao longo da História, de diversos modos Ele veio ao encontro do homem, sobretudo por Jesus Cristo. A fé é, portanto, a resposta livre e pessoal do homem a Deus; por ela nos abrimos para esse encontro misterioso e aderimos a Deus, que é mais que uma verdade intelectual, uma energia ou mesmo o grande caos... Ele se dá a conhecer como um "tu" pessoal, o grande Tu, em referência ao qual tudo passa a ter uma compreensão nova. De fato, a fé, no sentido cristão, oferece uma percepção própria da realidade, à luz de Deus.
O ato de fé é mais que um "crer em qualquer coisa"; é, acima de tudo, abrir-se a Deus e crer nele e, como consequência, naquilo que decorre desse ato de fé primeiro; por isso, a fé se traduz numa relação pessoal com esse grande Tu, que Jesus Cristo ensinou a reconhecer como um pai e a ter com Ele uma relação filial. Apesar de parecer a suprema ousadia da parte do homem, isso corresponde, de fato, ao anseio mais profundo do seu coração, que consiste em relacionar-se de maneira próxima e familiar com Deus.
No ato de crer, a dignidade do homem não é anulada, mas supera-se a frequente tentação de contrapor Deus ao homem. Deus não é a suprema ameaça à autonomia do homem, nem representa o grande obstáculo para que ele seja feliz. O ato de fé em Deus, no sentido exposto, proporciona ao homem a máxima possibilidade de compreensão dos mistérios de sua própria existência e de seu ser.
De fato, por muito que explique o mundo e a si mesmo pela ciência e pela filosofia, o homem não se dá por satisfeito, nem pode abafar algumas questões de fundo, que permanecem sem resposta: quem somos? Por que somos capazes de pensar, querer, decidir? Que significa essa inquietude, essa espécie de saudade interior, que nos impele a procurar a felicidade, o amor, a liberdade, a vida, algo que nos faz falta, como se um objetivo nos atraísse de maneira sutil, mas irresistível? Como orientar nossas escolhas livres para um êxito bom e feliz na vida? E a morte? Haverá algo além desta vida?
Responder de maneira peremptória a essas interrogações com um seco "não me interessa" seria levar pouco a sério o próprio mistério humano e fazer um ato de fé negativo, da mesma forma como faz um ato de fé positivo quem crê em Deus e, à sua luz, procura compreender melhor a si mesmo e ao mundo. E a contraposição inconciliável entre fé e razão, entre ciência e religião pode ser cômoda e simplista, levando a reprimir as interrogações humanas mais angustiantes e a estreitar o horizonte da compreensão do mundo e do ser humano; seria diminuir a própria dignidade homem.
Nossa inteligência é "capaz de Deus" e não está fechada para Ele. Crer é um ato humano livre por excelência, mediante o qual nos abrimos ao supremo Tu, ao Deus pessoal, e podemos alcançar uma certeza interior não menos importante do que aquela que nos vem das ciências exatas ou naturais. Reduzir nossa capacidade racional às certezas verificáveis seria diminuir essa mesma capacidade.
Crer em Deus continua tendo muito sentido.

Dom Odilo P. Scherer

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

alma e moral



ALMA E MORAL

            Ao se observar a matéria, notamos facilmente que esta é animada, movendo-se macro e microscopicamente amiúde. Donde vem a questão do que animaria a matéria, o que seria e como seria a sua alma. Um aparato que exemplifica o ânimo da matéria pode ser o da fileira de dominós derrubando uns aos outros em seqüência: A matéria é animada pela lei de causa e efeito.
            A consciência e vontade própria, que são capazes de transgredir a lei de causa e efeito da matéria bruta, desassociam a alma do vivente da matéria. Senão agiríamos sem saber, sem autocrítica, agiríamos como uma reação química ou uma pedra caindo sem dar conta do que estaríamos fazendo, à semelhança de um protozoário. Poderíamos parecer ter consciência a quem nos visse, mas nós mesmo não sentiríamos tal consciência.
            Quando surgem a piedade, a condolência, o Amor enfim, a alma desassociada da matéria é Sentimento, é a Boa-Vontade, é o Verbo: imagem e semelhança de Deus.
            A ética racionaliza causa e efeito de modo a regrar comportamentos em proveito do conjunto e do indivíduo, sem altruísmo, sem santificação, sem sentimento. Reduz o vivente a matéria bruta, ou, quando muito, a uma fera domada.
            Já a moral considera a alma dissociada da matéria, percebe a sutileza que passa batida aos olhares brutos, reconhece que o vivente não é um efeito dominó sem consciência. É a moral, e não a ética, que leva Cristo a se entregar exangue na cruz, é a moral que faz os mártires de todos os tempos e civilizações. É da moral que o Diabo tem medo, porque a moral não se submete à matéria, ao poder econômico e ao poder político. É a moral que contraria os preceitos dos escribas e fariseus. É a moral que não se corrompe por dinheiro nem retrocede por medo da morte e da dor.

Nhandeara, 8 de abril de 2012
Marcos Satoru Kawanami

2 parábolas segundo são lucas - "quem tiver olhos, que veja; quem tiver ouvidos, que ouça" - "Mas a parabólica foi trazida por um temporal; eu achei no mato, e botei no telhado na cara de pau!" Zeca Pagodinho - Parabólica - Zeca Pagodinho (Rafaelzinho)



Naquele tempo, os fariseus perguntaram a Jesus sobre o momento em que chegaria o Reino de Deus. Jesus respondeu: “O Reino de Deus não vem ostensivamente. Nem se poderá dizer: ‘Está aqui’ ou ‘Está ali’, porque o Reino de Deus está entre vós”. E Jesus disse aos discípulos: “Dias virão em que desejareis ver um só dia do Filho do Homem e não podereis ver. As pessoas vos dirão: ‘Ele está ali’ ou ‘Ele está aqui’. Não deveis ir, nem correr atrás. Pois, como o relâmpago brilha de um lado até o outro do céu, assim também será o Filho do Homem, no seu dia.
(São Lucas 17, 20-24)


Naquele tempo, milhares de pessoas se reuniram, a ponto de uns pisarem os outros. Jesus começou a falar, primeiro a seus discípulos: “Tomai cuidado com o fermento dos fariseus, que é a hipocrisia. Não há nada de escondido que não venha a ser revelado, e não há nada de oculto que não venha a ser conhecido. Portanto, tudo o que tiverdes dito na escuridão, será ouvido à luz do dia; e o que tiverdes pronunciado ao pé do ouvido, no quarto, será proclamado sobre os telhados. Pois bem, meus amigos, eu vos digo: não tenhais medo daqueles que matam o corpo, não podendo fazer mais do que isto. Vou mostrar-vos a quem deveis temer: temei aquele que, depois de tirar a vida, tem o poder de lançar-vos no inferno. Sim, eu vos digo, a este temei. Não se vendem cinco pardais por uma pequena quantia? No entanto, nenhum deles é esquecido por Deus. Até mesmo os cabelos de vossa cabeça estão todos contados. Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais”.
(São Lucas 12, 1-7)

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

deolinda - um contra o outro - soneto acróstico para francisca




SONETO ACRÓSTICO PARA FRANCISCA

Forjado a ferro e fogo é o mundo feio,
risonho mas cruel, civilizado(?),
alheio mesmo à unção do batizado
negado ou esquecido em tanto enleio;

cismando quanto a isso, assim eu creio,
indago por que sou aventurado,
senão em tudo, em tudo contentado,
cuidando ver o bem no mal alheio,

alheio do meu mal no alheio alheio.
Muitíssimo feliz, um totalmente
aqui se encaixa na definição;

total só pode ser, é pra que veio,
o lapidar feliz de tão contente
sem ismos otimismo, a Redenção...

Nhandeara, 6 de novembro de 2012
Marcos Satoru Kawanami