sábado, 27 de outubro de 2012

José Luís Peixoto lê poema "Explicação da Eternidade" - "veredicto ao discurso" de marcos satoru kawanami

os feitos é que são a eternidade


VEREDITO AO DISCURSO

Folha chata de papel,
De que me és de proveito?
Que sentir, sentido, efeito
Têm as palavras ao léu

De seus caprichos lançadas
Desde o limbo imaginário
Para o formato ordinário
Da celulose prensada?

E me ponho a escrever...
Voz burocrática entoa:
“A palavra escrita é boa!”
—Só para ofício há de ser.

Pois escrever é um ofício,
Já dizia o seu Machado
Para Bilac extasiado
Em falácias de artifício;

Mas comunicar efeitos,
Só mesmo os feitos, ação!
Abaixo inócuo confeito,
Volátil discurso vão!

Quero fazer redondilhas,
Versos-monte fervorosos!
Não dizer, mas fazer Ilhas-
Vida em mares estrondosos!

—Todo o de essencial perdido
Em seu arregrar trivial,
Talhe bidimencional.
Rudo cismo: que sentido

Têm as palavras ao léu?
Que sentir, sentido, efeito;
De que me és de proveito
Folha chata de papel?

Marcos Satoru Kawanami

4 comentários :

Francisca Matos disse...

E, contudo, escrevemos...

Jacques disse...

Olá,Marcos.
Belíssimo poema.
Creio que, por mais que escrevamos, sempre haverá a sensação de vazio e de incompletitude em nosso interior, que o ato de escrever ajuda a amenizar.
Abraço.

Marcos Satoru Kawanami disse...

Francisca,

Escrever é um hobby que vira profissão, ou vice versa.
Nunca nos aposentamos disso, não conheço ninguém que o tenha conseguido.

Marcos Satoru Kawanami disse...

Jacques,

Eu me defendo nas rimas, mas quisera ter a prosa que vc tem. Vc e o gaúcho Veríssimo, o escritor que mais admiro na contemporânea prosa mundial; eu gosto de humor.

=)
Marcos