sexta-feira, 29 de junho de 2012

Teologia da Computação - sistema binário - idéia de adão - o inverno - música, tabaco e literatura - cérebro, alma e o HD celeste

Música Tabaco Literatura

IDÉIA DE ADÃO

Não é verdade que eu só diga não
a quem só queira ouvir meu doce sim;
sim, é verdade, sempre tem de mim
paciente ouvido a boca da razão.

Se almejo ir além da compreensão
a matutar até ficar carmim,
é bem capaz que eu fique mesmo assim
porque só tenho idéia de Adão!

Que foi este soneto até aqui
— além da praxe da enrolação —
mais do que ir alternando im com ão?

Acabe de Goiás todo o piqui,
paciente ouvido à boca da razão,
humano é o nome da contradição.

Marcos Satoru Kawanami
...


Cérebro, Alma e o HD Celeste

       O vivente sem um braço mantém a consciência de si, o braço não contém a sua essência. O vivente sem os olhos mantém a mesma consciência, os olhos não contêem a sua essência. O vivente que perde parte do cérebro, e volta a si, não tem sua essência em todo o cérebro, mas em alguma parte do que lhe sobrou do cérebro.
       Daí, se isolássemos a parte do cérebro que detém a consciência de si do cidadão, e a mantivéssemos em condições vitais, estaríamos preservando a essência de um ser humano e o mantendo realmente vivo?
       Então haveria de ser um pedaço de massa encefálica o ser humano em si, a sua essência?
       Talvez, esta parte de cérebro seja um magnífico hardware onde atue o software que tenho por costume denominar alma.
       E, caso este software não saia do hardware após a pane geral e cabal, será possível que uma espécie de antena transmita, em tempo real on-line, atualizações do vivente para um back-up superior?

Nhandeara, 29 de junho de 2012
Marcos Satoru Kawanami




       A gente não é fisicamente e quimicamente o mesmo que era na infância, ou mesmo há alguns dias atrás; os elementos de nosso corpo mudam e se renovam com o passar do tempo; mesmo o cérebro, que se mantém mais estável, muda e se renova com o tempo, conexões são feitas e desfeitas a cada instante entre os neurônios, e os elementos químicos entram e saem de lá.
       De maneira que o hardware cerebral altera-se com o tempo, enquanto que o software alma mantém-se o mesmo; por isso mantemos a unidade da consciência de nós mesmos durante a vida, somos a mesma alma do começo ao fim da vida.


Nhandeara, 4 de julho de 2012
Marcos Satoru Kawanami

poema em linha recta de Fernando Pessoa - É o seguinte, chefia, vou te mandar um papo recto.



Poema em Linha Recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus amigos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso, arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas do hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste mundo que me confesse que uma vez já foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos, heterônimo futurista de Fernando Pessoa

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Corinthians campeão da Copa Libertadores da América pela primeira vez, e com goleada de 1 x 0 no Pacaembu sobre o Boca Juniors, próximo dia 4 de julho deste ano de 2012


SONETO SHOELESS

No afã de superar minhas manias
de símio faniquítico cristão,
adotei como pai o velho Adão,
e fui circuncidar tudo o que eu via.

Eu quis Raquel, porém casei com Lia,
e ainda de pastor servi Labão;
topei com boi chifrudo em contra-mão,
lançando as bases da Cornogonia…

Corinthiano sou, e não santista,
porque não vi jogar o rei Pelé
que teria me feito um vitorista!

Eu gosto de louvar mesmo é o Mané,
o sumo do resumo idealista,
eu gosto é de mulher que tem chulé!

Marcos Satoru Kawanami
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"A ti te dei bola a vida inteira! Será que dei, Manuel, bandeira?"
(Dalila Mello Pinto)


"Idi, a mim, nunca deu bola, nem Dada."
(Tite)

sábado, 16 de junho de 2012

soneto solilóquio


SONETO SOLILÓQUIO

Naturalmente em mim autista hermético,
o drama foi fazendo-me... dramático!,
extravasando até o esquema tático
em prol de um benefício mais estético.

Atleta mais melódico que atlético,
sou simbiose de um sopro pneumático
trompista, e artifício matemático;
e em síntese resumo do frenético.

Pois disse-me a parteira no meu parto
que eu fosse à merda!; eu ri, e teve início
a minha saga errante de Pinóquio.

E dentro do meu crânio existe um quarto
em cena teatral onde o bulício
da platéia é aplauso a um solilóquio...

Marcos Satoru Kawanami

poema "tabacaria" de Fernando Pessoa por meio do heterônimo Álvaro de Campos


TABACARIA
(Álvaro de Campos - heterônimo de Fernando Pessoa)


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E
saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.


Álvaro de Campos, 15-1-1928
(heterônimo de Fernando Pessoa)

sexta-feira, 15 de junho de 2012

e aí... comeu? - estréia sexta-feira 22 de junho de 2012 - Bruno Mazzeo - Marcos Palmeira - Emílio Orciollo Netto - Dira Paes - Juliana Schalch - Laura Neiva - Tainá Müller - "A primeira comédia verdadeira sobre o amor.".



La Nouvelle Cuisine Brésilienne

COMIDA MINEIRA:
-- Uai, quê trem esquisito, sô! Será que minha baguette não vai queimar dentro desse forno? Vou ficar pondo e tirando, por precaução...

COMIDA BAIANA:
-- Carece ser agora, meu rei?
-- Ah..., sei lá. É que depois do meio-dia eu viro Pomba-Gira, né?, minha nêga.

COMIDA PARAENSE:
-- Ubirajara, e agora?!
-- Já que entrou, foda-se. Se der merda, diz que foi o boto!

COMIDA PAULISTA:
-- Giaccomo, figlio d'Italia, aproveita que o Filho do Brasil tá fazendo piquete! E é em São Bernardo do Campo!

COMIDA GAÚCHA:
-- Mulata, morena ou loira?
-- Picanha!

COMIDA POTIGUAR:
-- Senhor, nosso cardápio é seleto: polaca, francesa, tailandesa, italiana ou finlandesa?
-- Ói, traga-me um pouco de cada.
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PARA MOÇAS DE FINO TRATO
—Vamos foder?
—Pensa que sou puta, é?
—Não. Puta é paga pra foder. Eu não vou te pagar nada.
—Ah... bom. Então eu dou pra você.


CANTADA
-- Creio que temos alguma semelhança esotérica no plano espiritual e despombalizado do além nada...
-- Só se for o meu clitóris.
-- Teu clitóris deve ser avantajado...
-- Ou teu pênis que é de miniatura.


Dr. Erika Hist Érica
(proctologista e relações púbicas do Senado Federal)

quarta-feira, 13 de junho de 2012

soneto aos pássaros


Quero-quero anda de um jeito troncho,
e ainda grita: quero! quero!

SONETO AOS PÁSSAROS

A Águia, para o súdito romano,
foi símbolo de força, paz e guerra;
também nas plagas da Nova Inglaterra
ela é rainha sobre o ser humano.

No mesmo continente americano,
seguindo rumo ao sul, como quem erra,
Cabral foi venturoso ao dar na terra
do bicudo e pacífico Tucano.

Românticos tiveram no Condor
um ícone ideal e soberano
a fim de alar seu estro e bem se impor.

Caipira, aqui na roça, mais sincero
figura o masculismo sem engano
que tem a marcha gay do Quero-quero!

Marcos Satoru Kawanami
..................

"Estou nesta sauna gay só por camaradagem, mas eu não sou gay!"
(Hubert, do Caceta&Planeta)

"Homofobia é uma bichice!"
(Quero-quero)

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Camila



CAMILA

Camila, linda flor deste serrado
tão fértil da paulista terra minha,
se pela sorte não, por ti eu vinha
a tal recanto alegre e bem amado.

Pois aqui para sempre celebrado
eu hei de deixar, nestas poucas linhas,
o forte sentimento que adivinhas
teres tu no meu peito despertado:

És, a um tempo, veneno e o bem da cura;
tua boca instiga dor, ardência, tudo
de tórrida volúpia, mas ternura.

Minha boca fechada, eu pasmo e mudo,
reflete meu olhar toda ventura
que emana deste teu olhar sisudo.

Marcos Satoru Kawanami




DAMA DO CABARÉ

Foi num cabaré da Lapa
Que eu conheci você
Fumando cigarro,
Entornando champanhe no seu soirée.

Dançamos um samba,
Trocamos um tango por uma palestra,
Só saímos de lá meia hora
Depois de descer a orquestra.

Em frente à porta um bom carro nos esperava,
Mas você se despediu e foi pra casa a pé.
No outro dia lá nos Arcos eu andava
À procura da Dama do Cabaré.

Eu não sei bem se chorei no momento em que lia
A carta que recebi, não me lembro de quem.
Você nela me dizia que quem é da boemia
Usa e abusa da diplomacia
Mas não gosta de ninguém.

Noel Rosa

domingo, 10 de junho de 2012

ave maria pós-moderna


AVE MARIA PÓS-MODERNA

A luz que passa pelo cristalino
dos olhos chega ao fundo cerebral
recomposta em elétrico sinal
diverso do universo extra-tino.

A taça diz que “veritas in vino”,
em forma inversa, imagem espectral
vertendo na retina uma anormal
verdade aceita por qualquer menino...

Talvez o impulso elétrico reflita
externamente apenas algo novo
e tão antigo quanto a luz bendita

no céu de cada qual de cada povo
cujo drama tem sido a mãe aflita
dos elétrons por quem eu me comovo.

Marcos Satoru Kawanami

terça-feira, 5 de junho de 2012

mini-série cornos: 3) amor de corno - inspirado no filme "O diabo a quatro" com Maria Flor vivendo um triângulo amoroso com Marcelo Faria e Márcio Libar, o qual disse a expressão "amor de corno" no programa Cadernos de Cinema da TVE para definir o amor de um dos personagens do filme



AMOR DE CORNO
(inspirado no filme “O diabo a quatro”)

Eu devo ser tratado como um verme:
qualquer castigo é pouco para corno,
conforme diz o povo; e pese o adorno
sobre a minha cabeça a entreter-me...

Quando ainda eu gozava na epiderme
o tátil gozo do teu corpo morno,
delegava ao sabão, vassoura e forno
o afeto que não pôde comover-me.

Mas neste pranto em forma de bolero,
eu me humilho até o cúmulo do brega
se ter-te novamente é o que mais quero!

Na fossa a gente vê que o bicho pega,
na lata implorarei sem lero-lero
até que desta voz não reste prega!

Marcos Satoru Kawanami

segunda-feira, 4 de junho de 2012

mini-série cornos: 2) Minha Nora Vidente



Minha Nora Vidente

Achei, de minha parte, coisa boa
os zelos e cuidados que agora
ao meu filho dispensa minha nora,
a qual varre, cozinha, e ensaboa.

Pois, antes, nem sequer mesquinha broa
degustava meu filho ao vir da aurora,
moído a sustentar a tal senhora
que ao banho não se dava, tão à toa...

Hoje em dia, meu filho passa bem:
a mulher tomou viço e se perfuma,
cuida do lar com ânimo também!

Mas a transformação se deu, em suma,
depois que um “anjo” lá chegou —de trem—
por benzer as mulheres, uma a uma!

Marcos Satoru Kawanami

domingo, 3 de junho de 2012

mini-série cornos: 1) Euclides da Cunha



EUCLIDES DA CUNHA

Não se incomode, Euclides, por ser corno;
predicados havia na tal Ana
raros em toda a fauna americana:
mais que a vaca, era boa de contorno.

Qual ninguém, pilotava bem um forno;
podia ser gazela da savana,
contudo, se ao chifrar-lhe, foi sacana:
o chifre ela lhe deu foi por adorno.

Veja bem, você foi da Academia;
pois, isso basta, vale mais que tudo!,
não vá se ater com reles ninharia.

Se seu filho também sucumbiu mudo
tentando a vil vingança, a pontaria
demonstra o atavismo em ser cornudo.

Marcos Satoru Kawanami

sábado, 2 de junho de 2012

the pursuit of happiness - felicidade canina - bom instinto


FELICIDADE CANINA
(the pursuit of happyness)

Um tal instinto bom eu tenho tido,
que desde a aurora verde de menino
conduz-me em descaminhos cujo tino
teria diplomado um falecido.

Por mais que me quisesse desistido
o mundo de cumprir o meu destino,
o bom talante alegre e olhar canino
feliz em si tem sempre persistido.

Cachorros são felizes porque querem:
lá na indigência hostil do viaduto,
ou no trabalho árduo do polo.

E nesse olhar canino que os diferem,
conforme é mais o afável que o astuto,
pessoas há que têm dos anjos colo.

Marcos Satoru Kawanami

sexta-feira, 1 de junho de 2012

zombie strippers - as strippers zumbi - filme comédia da contra-cultura americana - filme de crítica social - filme trash proposital não por falta de orçamento - de rachar o bico - já é um clássico trash


     Filme cômico, mas ninguém come ninguém, e os republicanos puritanos podem sair ali viados, pelo menos por isso. É, porque a crítica social cai de laço em cima do Partido Republicano norte-americano, sacaneando ostensivamente à moda Caceta&Planeta e até mais porra louca ainda!
     Ah, perdão, disse que ninguém come ninguém: equivoquei-me. São as raparigas que comem os rapazes, mas comem de arrancar sangue! Uai, assim, não...
     O firme é foda, uma puta sacanagem: foda, que é bom, não tem; e as moças não abocanham um firme, a não ser para uma amputação aqui, outra ali.
     Ainda no final, um cientista, saca de um cigarro, e, fumando-o com enorme prazer visível, diz: "Não vejo muitos jovens fumando hoje em dia. Vocês deveriam fumar mais, não sabem  o que estão perdendo.". Alusão ao combate feroz ao centenário e sóbrio hábito do tabaco, a fim de dar lugar para drogas de degradação da dignidade humana.
     Metáfora lapidar do firme: a morte está atraindo cada vez mais pessoas para si. A anorexia e a bulimia matando jovens por conta de uma estética da morte, a qual vende o corpo de modelos em detrimento de seu eu interior.
     Uma frase contundente do filme: "Quero ter o luxo de não precisar pensar por mim mesma.". E outra: "Não, não quero isto que estou vendo! Não podemos ignorar a guerra, e fingir que não vemos a matança.".


Marcos Satoru Kawanami



O VERSO SIMPLES
“A vida inteira eu quis um verso simples
pra transformar o que eu digo.”
(Carissa Vieira, crítica de cinema e literatura)

“A vida inteira eu quis um verso simples”
a fim de transformar tudo que digo
em melodia amiga aos meus amigos
e inimigos, amigos que hão de vir.

Que a forma, disciplina a qual eu sigo
esquivo ao verso-livre, não me prive
do livre pensamento, e um dia em fim
eu livre me desligue do que ligo.

O verso que virá resume a vida,
une as pontas e une a unidade
do que era dispersivo e sem guarida.

A vida inteira eu quis achar verdade
em toda ingratidão desmerecida,
e o verso simples sempre foi saudade.

Marcos Satoru Kawanami