quinta-feira, 24 de maio de 2012

minuto de apocalipse - ano: 1994


Foto antiga de um dos prédios em que eu
estudava quando escrevi este poema em 1994.
Em 1994, estou subindo a escada do Morro do Valongo,
onde fica o Observatório da UFRJ; quem tirou a foto foi
o maranhense Ronaldo (Bob Moon) que, dizendo querer
tornar a foto artística, balançou a mão de propósito
na hora de me fotografar! Vê se pode?

Muitos anos depois, esta escadaria foi lugar de filmagem
de uma cena do filme "Noel, poeta da vila".

MINUTO DE APOCALIPSE

Das insulanas plagas de Guanabara,
por fluidos lúgubres banhadas,
pede aos céus e ao mar clemência
o Galeão ilhado que vai a pique.
Já se vão os insolarados dias
do rude, mas feliz, contentamento;
azul mirar, ignaro entendimento
de juvenil brinquedo e alegria.

Eis que da terra fogo eclode;
a celeste artilharia seus luzeiros precipita;
não resta chão sob os pés de toda gente: —Bombardeio!
bombardeio! bombardeio!
Comprimido em tal ígneia atmosfera litigante,
nem Marte, de belicoso talante,
atura —quão menos o mortal tecido.
Céu e terra declaram guerra!

Qual bestas ancestrais anfíbias,
vagas colossais engendra,
para seu sulfúrico colapso,
a fétida e vulgívaga baía.
Vasco, vede: o mar treme;
porém são do portugueses
que tremem do mar.

Em perimetral contorno
ergue-se uma muralha apocalíptica com todo
o volume de guanabaresco lodo,
que de pronto
arrasa a carioca urbanidade.

Pouco além, senão ao mesmo instante,
um soberano Galeão renato
emerge do líquido translúcido
que ocupa o então vazio sobre-abundante.

Germinam novamente os claros dias
do absoluto, feliz contetamento;
azul, agora vero entendimento
de divinal brinquedo e alegria...

Marcos Satoru Kawanami