quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

poesia matemática de Millôr Fernandes - fim de carnaval: camisa amarela - Aracy de Almeida - Ary Barroso - Teorema do Ângulo Impressionista ou do Ângulo Aparente



Poesia Matemática
(Millôr Fernandes)

Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.

Millôr Fernandes

Texto extraído do livro "Tempo e Contratempo", Edições O Cruzeiro - Rio de Janeiro, 1954, pág. sem número, publicado com o pseudônimo de Vão Gogo.



UMA LENDA QUÍMICA
ácido clorídrico + hidróxido de sódio = sal de cozinha (NaCl) + H2O

Nos manuais químicos dum laboratório
um Cloreto de Hidrogênio apaixonou-se
um dia
exotermicamente
por uma base.
Vislumbrou-a com seu olhar abrasivo
de uma reação reversível:
uma figura iônica;
olhos 2 molar, boca dativa,
corpo isobárico, seios em suspensão aquosa.
Fez da sua uma vida
à dela eletropositiva,
até que se encontraram
numa solução.
“Quem és tu?” —indagou ele
em precipitado.
“Sou filha de um Alcalino, e neta do Oxigênio.
Mas pode me chamar Hidroxila, de Sódio”.
E de falarem descobriram que eram
altamente reagentes.
E assim se amaram
num ciclo de oxi-redução
oxidando
ao léu da temperatura
e da pressão
metais, não-metais, semi-metais
por entre as colunas da Tabela Periódica.
Escandalizaram os ortodoxos
e desbancaram Lavoisier;
desmoralizaram Clayperon
e a relação de PVT.
Enfim resolveram atingir um equilíbrio,
constituir uma família,
uma família de gases nobres!
De nobreza nada tinham;
nem um tio Xenônio,
nem um primo Hélio...
Mas o produto que tiveram
foi mais venturoso
e providencial:
no bojo dum erlenmeyer
com rendimento cem por cento
nasceram
Água e Sal.

Marcos Satoru Kawanami