segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

pessoa em alvorada - Fernando Pessoa - Manuel Bandeira - Rudyard Kipling - Clara Nunes - Cartola



PESSOA EM ALVORADA

Isto não é um poema,
isto é um homem:

Se tu nunca percebeste o que é
não existir,
pouca percepção terás deste registro:

“Por mais incógnita que seja a vida de alguém, ela sempre terá seu anônimo e belo enredo.”
(William Sommerset Maugham)

“Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem”.

(Manuel Bandeira)

“Se eu falar as línguas de homens e a língua dos anjos,
mas não tiver amor,
sou como bronze que soa ou tímpano que retine.
E se eu possuir o dom da profecia,
conhecer todos os mistérios e toda ciência
e tiver tanta fé que chegue a suportar montanhas,
mas não tiver amor,
sou nada.
(Coríntios 1: 13, 1-2)

“Tenho tanto sentimento”,
que distôo de ti, racional Pessoa
pungente, afogado no álcool, e nele morto...
Sem literatura, há dias meu olho direito
verte lágrima em filete discreto:
é Pinóquio alcançando ser menino;
eu, que não sabia chorar,
tornei-me um ser humano.
A minha humanidade
dá-me a felicidade
que era enigma para mim.
Pela primeira vez, eu vejo
através de um olho humano:
“Alvorada lá no morro, que beleza,
ninguém chora, não há tristeza,
ninguém sente dissabor;
o sol colorindo é tão lindo, é tão lindo!
E a natureza sorrindo, tingindo, tingindo!”
Pela primeira vez, eu conheço o trivial,
sinto o que é sentir;
e eu não sou Pinóquio,
eu sou um ser humano.
Choro por um filete discreto
na simplicidade
do que era simples apenas aos outros,
e eu tenho tanto sentimento
que com a singela felicidade de um bugre
tenho contritamente chorado
de alegria por algo tão comum
aos humanos
mas impossível para um autista.
Pessoa, que como em noite só
vivia feito a matéria sem vida,
tenho todos os sentimentos banais
mas raros aos apenas racionais,
racionalidade que pelo método lógico,
a disciplina,
conduziu-me a custo de todo empenho
a inventar um racional amor a Deus
que desvelou minha visão:
Tenho tanto sentimento,
que choro de felicidade nesta alvorada
por me tornar sentimental:
“Você também me lembra a alvorada
quando chega iluminando
meus caminhos tão sem vida.”

Nhandeara, 25 de fevereiro de 2012
Marcos Satoru Kawanami

TESTAMENTO

O que não tenho e desejo
É que melhor me enriquece.
Tive uns dinheiros — perdi-os...
Tive amores — esqueci-os.
Mas no maior desespero
Rezei: ganhei essa prece.

Vi terras da minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.

Gosto muito de crianças:
Não tive um filho de meu.
Um filho!... Não foi de jeito...
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.

Criou-me, desde eu menino
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde...
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!

Não faço versos de guerra.
Não faço porque não sei.
Mas num torpedo-suicida
Darei de bom grado a vida
Na luta em que não lutei!

29 de janeiro de 1943
Manuel Bandeira



SE

Se és capaz de manter tua calma, quando,
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso.
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires,
de sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores.

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,
em armadilhas as verdades que disseste.
E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.

Se és capaz de arriscar numa única parada,
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
e, entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e - o que ainda é muito mais - serás um Homem, meu filho!

Rudyard Kipling
Tradução de Guilherme de Almeida


If


If you can keep your head when all about you 
Are losing theirs and blaming it on you; 
If you can trust yourself when all men doubt you, 
But make allowance for their doubting too; 
If you can wait and not be tired by waiting, 
Or, being lied about, don't deal in lies, 
Or, being hated, don't give way to hating, 
And yet don't look too good, nor talk too wise;


If you can dream - and not make dreams your master; 
If you can think - and not make thoughts your aim; 
If you can meet with triumph and disaster 
And treat those two imposters just the same; 
If you can bear to hear the truth you've spoken 
Twisted by knaves to make a trap for fools, 
Or watch the things you gave your life to broken, 
And stoop and build 'em up with wornout tools;


If you can make one heap of all your winnings 
And risk it on one turn of pitch-and-toss, 
And lose, and start again at your beginnings 
And never breath a word about your loss; 
If you can force your heart and nerve and sinew 
To serve your turn long after they are gone, 
And so hold on when there is nothing in you 
Except the Will which says to them: "Hold on";


If you can talk with crowds and keep your virtue, 
Or walk with kings - nor lose the common touch; 
If neither foes nor loving friends can hurt you; 
If all men count with you, but none too much; 
If you can fill the unforgiving minute 
With sixty seconds' worth of distance run - 
Yours is the Earth and everything that's in it, 
And - which is more - you'll be a Man my son! 


Rudyard Kipling, a poet from England, an English poet

2 comentários :

byTONHO disse...



"Os caras lá, "vizinhos" do Palácio da ALVORADA, nos fazem chorar..."



Tire seu sorriso do caminho,
que eu quero passar com minha dor...♪

EU, caminhador,
caminho cá, com minha DOR!


:o)

Adriana Godoy disse...

Alvorada lá no morro que beleza...


Marcos, muita inspiração, post muito bonito.

Beijo