sábado, 14 de janeiro de 2012

retrato em branco e preto - dança da solidão - soneto da exceção - Paulinho da Viola e Marisa Monte - Tom Jobim e Chico Buarque


SONETO DA EXCEÇÃO

O mundo deve estar mal arranjado,
desencontros se dão a todo instante:
um chora desprezado, sendo amante;
outro despreza, sendo bem amado.

Se por divina mão edificado,
nosso planeta vai, porém errante,
seis dias não terão sido o bastante
para trabalho assim tão complicado.

Gente boa a sofrer a vida inteira
é vista em toda parte sem pecado,
e gente má é vista prazenteira.

Meu caso de exceção vai ajustado,
porque, se pecador sou de carreira,
no mundo, dores mil tenho penado.

Marcos Satoru Kawanami




Retrato em Branco e Preto

Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cor
Já conheço as pedras do caminho,
E sei também que ali sozinho,
Eu vou ficar tanto pior
E o que é que eu posso contra o encanto,
Desse amor que eu nego tanto
Evito tanto e que, no entanto,
Volta sempre a enfeitiçar
Com seus mesmos tristes, velhos fatos,
Que num álbum de retratos
Eu teimo em colecionar

Lá vou eu de novo como um tolo,
Procurar o desconsolo,
Que cansei de conhecer
Novos dias tristes, noites claras,
Versos, cartas, minha cara
Ainda volto a lhe escrever
Pra lhe dizer que isso é pecado,
Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado
e você sabe a razão
Vou colecionar mais um soneto,
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração

Chico Buarque e Tom Jobim