terça-feira, 31 de janeiro de 2012

a desejada das gentes - Machado de Assis - site: Domínio Público


A Desejada das Gentes

— AH! CONSELHEIRO, aí começa a falar em verso.
— Todos os homens devem ter uma lira no coração, — ou não sejam
homens. Que a lira ressoe a toda a hora, nem por qualquer motivo, não o
digo eu, mas de longe em longe, e por algumas reminiscências particulares...
Sabe por que é que lhe pareço poeta, apesar das Ordenações do Reino e dos
cabelos grisalhos? é porque vamos por esta Glória adiante, costeando aqui a
Secretaria de Estrangeiros. . . Lá está o outeiro célebre. . . Adiante há uma
casa..
— Vamos andando.
— Vamos... Divina Quintília! Todas essas caras que aí passam são outras,
mas falam-me daquele tempo, como se fossem as mesmas de outrora; é a lira
que ressoa, e a imaginação faz o resto. Divina Quintília!
— Chamava-se Quintília? Conheci de vista, quando andava na Escola de
Medicina, uma linda moça com esse nome. Diziam que era a mais bela da
cidade.
— Há de ser a mesma, porque tinha essa fama. Magra e alta?
— Isso. Que fim levou?
— Morreu em 1859. Vinte de abril. Nunca me há de esquecer esse dia. Vou
contar-lhe um caso interessante para mim, e creio que também para o
senhor. Olhe, a casa era aquela... Morava com um tio, chefe de esquadra
reformado, tinha outra casa no Cosme Velho. Quando conheci Quintília...
Que idade pensa que teria, quando a conheci?
— Se foi em 1855...
— Em 1855.
— Devia ter vinte anos.
— Tinha trinta.
— Trinta?
— Trinta anos. Não os parecia, nem era nenhuma inimiga que lhe dava essa
idade. Ela própria a confessava e até com afetação. Ao contrário, uma de
suas amigas afirmava que Quintília não passa-va dos vinte e sete; mas como
ambas tinham nascido no mesmo dia, dizia isso para diminuir-se a si
própria.
— Mau, nada de ironias; olhe que a ironia não faz boa cama com a saudade.
— Que é a saudade senão uma ironia do tempo e da fortuna? Veja lá;
começo a ficar sentencioso. Trinta anos; mas em verdade, não os parecia.
Lembra-se bem que era magra e alta; tinha os olhos como eu então dizia,
que pareciam cortados da capa da última noite, mas apesar de noturnos, sem
mistérios nem abismos. A voz era brandíssima, um tanto apaulistada, a boca
larga, e os dentes, quando ela simplesmente falava, davam-lhe à boca um ar
de riso. Ria também, e foram os risos dela, de parceria com os olhos, que me
doeram muito durante certo tempo.
— Mas se os olhos não tinham mistérios...
— Tanto não os tinham que cheguei ao ponto de supor que eram as portas
abertas do castelo, e o riso o clarim que chamava os cavaleiros. Já a
conhecíamos, eu e o meu companheiro de escritório, o João Nóbrega, ambos
principiantes na advocacia, e íntimos como ninguém mais; mas nunca nos
lembrou namorá-la. Ela andava então no galarim; era bela, rica, elegante, e
da primeira roda. Mas um dia, no antigo Teatro Provisório entre dois atos
dos Puritanos, estando eu num corredor, ouvi um grupo de moços que
falavam dela, como de uma fortaleza inexpugnável. Dous confessaram haver
tentado alguma cousa, mas sem fruto; e todos pasmavam do celibato da
moça que lhes parecia sem explicação. E chalaceavam: um dizia que era
promessa até ver se engordava primeiro; outro que estava esperando a
segunda mocidade do tio para casar com ele; outro que provavelmente
encomendara algum anjo ao porteiro do céu; trivialidades que me
aborreceram muito, e da parte dos que confessavam tê-la cortejado ou
amado, achei que era uma grosseria sem nome. No que eles estavam todos
de acordo é que ela era extraordinariamente bela; aí foram entusiastas e
sinceros.
— Oh! ainda me lembro!... era muito bonita.
— No dia seguinte, ao chegar ao escritório, entre duas causas que não
vinham, contei ao Nóbrega a conversação da véspera. Nóbrega riu-se do
caso, refletiu, e depois de dar alguns passos, parou diante de mim, olhando,
calado. — Aposto que a namoras? perguntei-lhe. — Não, disse ele; nem tu?
Pois lembrou-me uma cousa: vamos tentar o assalto à fortaleza? Que
perdemos com isso? Nada, ou ela nos põe na rua, e já podemos esperá-lo, ou
aceita um de nós, e tanto melhor para o outro que verá o seu amigo feliz. —
Estás falando sério? — Muito sério. — Nóbrega acrescentou que não era só
a beleza dela que a fazia atraente. Note que ele tinha a presunção de ser
espírito prático, mas era principalmente um sonhador que vivia lendo e
construindo aparelhos sociais e políticos. Segundo ele, os tais rapazes do
teatro evitavam falar dos bens da moça, que eram um dos feitiços dela, e
uma das causas prováveis da desconsolação de uns e dos sarcasmos de
todos. E dizia-me: — Escuta, nem divinizar o dinheiro, nem também banilo;
não vamos crer que ele dá tudo, mas reconheçamos que dá alguma cousa
e até muita cousa, — este relógio, por exemplo. Combatamos pela nossa
Quintília, minha ou tua, mas provavelmente minha, porque sou mais bonito
que tu.
— Conselheiro, a confissão é grave, foi assim brincando...?
— Foi assim brincando, cheirando ainda aos bancos da academia, que nos
metemos em negócio de tanta ponderação, que podia acabar em nada, mas
deu muito de si. Era um começo estouvado, quase um passatempo de
crianças, sem a nota da sinceridade; mas o homem põe e a espécie dispõe.
Conhecíamo-la, posto não tivéssemos encontros freqüentes; uma vez que
nos dispusemos a uma ação comum, entrou um elemento novo na nossa
vida, e dentro de um mês estávamos brigados.
— Brigados?
— Ou quase. Não tínhamos contado com ela, que nos enfeitiçou a ambos,
violentamente. Em algumas semanas já pouco falávamos de Quintília, e com
indiferença; tratávamos de enganar um ao outro e dissimular o que
sentíamos. Foi assim que as nossas relações se dissolveram, no fim de seis
meses, sem ódio, nem luta, nem demonstração externa, porque ainda nos
falávamos, onde o acaso nos reunia; mas já então tínhamos banca separada.
— Começo a ver uma pontinha do drama. . .
— Tragédia, diga tragédia; porque daí a pouco tempo, ou por desengano
verbal que ela lhe desse, ou por desespero de vencer, Nóbrega deixou-me só
em campo. Arranjou uma nomeação de juiz municipal lá para os sertões da
Bahia, onde definhou e morreu antes de acabar o quatriênio. E juro-lhe que
não foi o inculcado espírito prático de Nóbrega que o separou de mim; ele,
que tanto falara das vantagens do dinheiro, morreu apaixonado como um
simples Werther.
— Menos a pistola.
—Também o veneno mata; e o amor de Quintília podia dizer-se alguma
cousa parecido com isso, foi o que o matou, e o que ainda hoje me dói. . .
Mas, vejo pelo seu dito que o estou aborrecendo.. .
— Pelo amor de Deus. Juro-lhe que não; foi uma graçola que me escapou.
Vamos adiante, conselheiro; ficou só em campo.
— Quintília não deixava ninguém estar só em campo, — não digo por ela,
mas pelos outros. Muitos vinham ali tomar um cálix de esperanças, e iam
cear a outra parte. Ela não favorecia a um mais que a outro, mas era lhana,
graciosa e tinha essa espécie de olhos derramados que não foram feitos para
homens ciumentos. Tive ciúmes amargos e, às vezes, terríveis. Todo
argueiro me parecia um cavaleiro, e todo cavaleiro um diabo. Afinal
acostumei-me a ver que eram passageiros de um dia. Outros me metiam
mais medo, eram os que vinham dentro da luva das amigas. Creio que houve
duas ou três negociações dessas, mas sem resultado. Quintília declarou que
nada faria sem consultar o tio, e o tio aconselhou a recusa, — cousa que ela
sabia de antemão. O bom velho não gostava nunca da visita de homens, com
receio de que a sobrinha escolhesse algum e casasse. Estava tão acostumado
a trazê-la ao pé de si, como uma muleta da velha alma aleijada, que temia
perdê-la inteiramente.
— Não seria essa a causa da isenção sistemática da moça?
— Vai ver que não.
— O que noto é que o senhor era mais teimoso que os outros. . .
— ... Iludido, a princípio, porque no meio de tantas candidaturas
malogradas, Quintília preferia-me a todos os outros homens, e conversava
comigo mais largamente e mais intimamente, a tal ponto que chegou a correr
que nos casávamos.
— Mas conversavam de quê?
— De tudo o que ela não conversava com os outros; e era de fazer pasmar
que uma pessoa tão amiga de bailes e passeios, de valsar e rir, fosse comigo
tão severa e grave, tão diferente do que costumava ou parecia ser.
— A razão é clara: achava a sua conversação menos insossa que a dos outros
homens.
— Obrigado; era mais profunda a causa da diferença, e a diferença ia-se
acentuando com os tempos. Quando a vida cá embaixo a aborrecia muito, ia
para o Cosme Velho, e ali as nossas conversações eram mais freqüentes e
compridas. Não lhe posso dizer, nem o senhor compreenderia nada, o que
foram as horas que ali passei, incorporando na minha vida toda a vida que
jorrava dela. Muitas vezes quis dizer-lhe o que sentia, mas as palavras
tinham medo e ficavam no coração. Escrevi cartas sobre cartas; todas me
pareciam frias, difusas, ou inchadas de estilo. Demais, ela não dava ensejo a
nada, tinha um ar de velha amiga. No princípio de 1857 adoeceu meu pai em
Itaboraí; corri a vê-lo, achei-o moribundo. Este fato reteve-me fora da Corte
uns quatro meses. Voltei pelos fins de maio. Quintília recebeu-me triste da
minha tristeza, e vi claramente que o meu luto passara aos olhos dela...
— Mas que era isso senão amor?
— Assim o cri, e dispus a minha vida para desposá-la. Nisto, adoeceu o tio
gravemente. Quintília não ficava só, se ele morresse, porque, além dos
muitos parentes espalhados que tinha, morava com ela agora, na casa da Rua
do Catete, uma prima, D. Ana, viúva; mas, é certo que a afeição principal iase
embora e nessa transição da vida presente à vida ulterior podia eu
alcançar o que desejava. A moléstia do tio foi breve; ajudada da velhice,
levou-o em duas sema-nas. Digo-lhe aqui que a morte dele lembrou-me a de
meu pai, e a dor que então senti foi quase a mesma. Quintília viu-me
padecer, compreendeu o duplo motivo, e, segundo me disse depois, estimou
a coincidência do golpe, uma vez que tínhamos de o receber sem falta e tão
breve. A palavra pareceu-me um convite matrimonial; dois meses depois
cuidei de pedi-la em casamento. D. Ana ficara morando com ela e estavam
no Cosme Velho. Fui ali, achei-as juntas no terraço, que ficava perto da
montanha. Eram quatro horas da tarde de um domingo. D. Ana, que nos
presumia namorados, deixou-nos o campo livre.
— Enfim!
— No terraço, lugar solitário, e posso dizer agreste, proferi a primeira
palavra. O meu plano era justamente precipitar tudo, com medo de que,
cinco minutos de conversa me tirassem as forças. Ainda assim, não sabe o
que me custou; custaria menos uma batalha, e juro-lhe que não nasci para
guerras. Mas aquela mulher magrinha e delicada impunha-se-me, como
nenhuma outra, antes e depois...
— E então?
— Quintília adivinhara, pelo transtorno do meu rosto, o que lhe ia pedir, e
deixou-me falar para preparar a resposta. A resposta foi interrogativa e
negativa. Casar para quê? Era melhor que ficássemos amigos como dantes.
Respondi-lhe que a amizade era, em mim, desde muito, a simples sentinela
do amor; não podendo mais contê-lo, deixou que ele saísse. Quintília sorriu
da metáfora, o que me doeu, e sem razão; ela, vendo o efeito, fez-se outra
vez séria e tratou de persuadir-me de que era melhor não casar. — Estou
velha, disse ela; vou em trinta e três anos. — Mas se eu a amo assim mesmo,
repliquei, e disse-lhe uma porção de cousas, que não poderia repetir agora.
Quintília refletiu um instante; depois insistiu nas relações de amizade; disse
que, posto que mais moço que ela, tinha a gravidade de um homem mais
velho e inspirava-lhe confiança como nenhum outro. Desesperançado, dei
algumas passadas, depois sentei-me outra vez e narrei-lhe tudo. Ao saber da
minha briga com o amigo e companheiro da academia, e a separação em que
ficamos, sentiu-se, não sei se diga, magoada ou irritada. Censurou-nos a
ambos, não valia a pena que chegássemos a tal ponto. — A senhora diz isso
porque não sente a mesma cousa. — Mas então é um delírio? — Creio que
sim; o que lhe afianço é que ainda agora, se fosse necessário, separar-me-ia
dele uma e cem vezes; e creio poder afirmar-lhe que ele faria a mesma
cousa. Aqui olhou ela espantada para mim, como se olha para uma pessoa
cujas faculdades parecem transtornadas; depois abanou a cabeça, e repetiu
que fora um erro; não valia a pena. — Fiquemos amigos, disse-me,
estendendo a mão. — É impossível; pede-me cousa superior às minhas
forças, nunca poderei ver na senhora uma simples amiga; não desejo imporlhe
nada; dir-lhe-ei até que nem mais insisto, porque não aceitaria outra
resposta agora. Trocamos ainda algumas palavras, e retirei-me... Veja a
minha mão.
— Treme-lhe ainda...
— E não lhe contei tudo. Não lhe digo aqui os aborrecimentos que tive, nem
a dor e o despeito que me ficaram. Estava arrependido, zangado, devia ter
provocado aquele desengano desde as primeiras semanas, mas a culpa foi da
esperança, que é uma planta daninha, que me comeu o lugar de outras
plantas melhores. No fim de cinco dias saí para Itaboraí, onde me chamaram
alguns interesses do inventário de meu pai. Quando voltei, três semanas
depois, achei em casa uma carta de Quintília.
— Oh!
— Abri-a alvoroçadamente: datava de quatro dias. Era longa; aludia aos
últimos sucessos, e dizia cousas meigas e graves. Quintília afirmava ter
esperado por mim todos os dias, não cuidando que eu levasse o egoísmo até
não voltar lá mais, por isso escrevia-me, pedindo que fizesse dos meus
sentimentos pessoais e sem eco uma página de história acabada; que ficasse
só o amigo, e lá fosse ver a sua amiga. E concluía com estas singulares
palavras: "Quer uma garantia? Juro-lhe que não casarei nunca." Compreendi
que um vínculo de simpatia moral nos ligava um ao outro; com a diferença
que o que era em mim paixão específica, era nela uma simples eleição de
caráter. Éramos dois sócios, que entravam no comércio da vida com
diferente capital: eu, tudo o que possuía; ela, quase um óbolo. Respondi à
carta dela nesse sentido; e declarei que era tal a minha obediência e o meu
amor, que cedia, mas de má vontade, porque, depois do que se passara entre
nós, ia sentir-me humilhado. Risquei a palavra ridículo, já escrita, para poder
ir vê-la sem este vexame; bastava o outro.
— Aposto que seguiu atrás da carta? É o que eu faria, porque essa moça, ou
eu me engano ou estava morta por casar com o senhor.
— Deixe a sua fisiologia usual; este caso é particularíssimo.
— Deixe-me adivinhar o resto; o juramento era um anzol místico; depois, o
senhor, que o recebera, podia desobrigá-la dele, uma vez que aproveitasse
com a absolvição. Mas, enfim, correr à casa dele.
— Não corri; fui dous dias depois. No intervalo, respondeu ela à minha carta
com um bilhete carinhoso, que rematava com esta idéia: "não fale de
humilhação, onde não houve público." Fui, voltei uma e mais vezes e
restabeleceram-se as nossas relações. Não se falou em nada; ao princípio,
custou-me muito parecer o que era dantes; depois, o demônio da esperança
veio pousar outra vez no meu coração; e, sem nada exprimir, cuidei que um
dia, um dia tarde, ela viesse a casar comigo. E foi essa esperança que me
retificou aos meus próprios olhos, na situação em que me achava. Os boatos
de nosso casamento correram mundo. Chegaram aos nossos ouvidos; eu
negava formalmente e sério; ela dava de ombros e ria. Foi essa fase da nossa
vida a mais serena para mim, salvo um incidente curto, um diplomata
austríaco ou não sei que, rapagão, elegante, ruivo, olhos grandes e atrativos,
e fidalgo ainda por cima. Quintília mostrou-se-lhe tão graciosa, que ele
cuidou estar aceito, e tratou de ir adiante. Creio que algum gesto meu,
inconsciente, ou então um pouco da percepção fina que o céu lhe dera, levou
depressa o desengano à legação austríaca. Pouco depois ela adoeceu; e foi
então que a nossa intimidade cresceu de vulto. Ela, enquanto se tratava,
resolveu não sair, e isso mesmo lhe disseram os médicos. Lá passava eu
muitas horas diariamente. Ou elas tocavam, ou jogávamos os três, ou então
lia-se alguma cousa; a maior parte das vezes conversávamos somente. Foi
então que a estudei muito; escutando as suas leituras vi que os livros
puramente amorosos achava-os incompreensíveis, e, se as paixões aí eram
violentas, largava-os com tédio. Não falava assim por ignorante; tinha
notícia vaga das paixões, e assistira a algumas alheias.
— De que moléstia padecia?
— Da espinha. Os médicos diziam que a moléstia não era talvez recente, e ia
tocando o ponto melindroso. Chegamos assim a 1859. Desde março desse
ano a moléstia agravou-se muito; teve uma pequena parada, mas para os fins
do mês chegou ao estado desesperador. Nunca vi depois criatura mais
enérgica diante da iminente catástrofe; estava então de uma magreza
transparente, quase fluida; ria, ou antes, sorria apenas, e vendo que eu
escondia as minhas lágrimas, apertava-me as mãos agradecida. Um dia,
estando só com o médico, perguntou-lhe a verdade; ele ia mentir, ela disselhe
que era inútil, que estava perdida. — Perdida, não, murmurou o médico.
— Jura que não estou perdida? — Ele hesitou, ela agradeceu-lho. Uma vez
certa que morria, ordenou o que prometera a si mesma.
— Casou com o senhor, aposto?
— Não me relembre essa triste cerimônia; ou antes, deixe-me relembrá-la,
porque me traz algum alento do passado. Não aceitou recusas nem pedidos
meus; casou comigo à beira da morte. Foi no dia 18 de abril de 1859. Passei
os últimos dois dias, até 20 de abril ao pé da minha noiva moribunda, e
abracei-a pela primeira vez feita cadáver.
— Tudo isso é bem esquisito.
— Não sei o que dirá a sua fisiologia. A minha, que é de profano, crê que
aquela moça tinha ao casamento uma aversão puramente física. Casou meio
defunta, às portas do nada. Chame-lhe monstro, se quer, mas acrescente
divino.

FIM

Esta e muitas obras boas em:

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

o sentenciado - definição de poeta - definition of what is a poet - Não há Estado de Direito no Brasil, o que há é Estado de Dinheiro, e o Cidadão não tem mais Direito à Vida no Brasil.


O SENTENCIADO

Ter alma de poeta é sacrifício
a Deus, por sacerdócio leigo infame
ainda que o poeta, em vão, derrame
o sangue de si mesmo em prol do ofício.

Ter alma de poeta é ter por vício
o verso, mesmo que ninguém declame
a ninfa cujo zelo ora lhe inflame
o crânio a meningítico artifício.

Ter alma de poeta, enfim, é isto:
é parecer saudável na doença;
é parecer ateu mas seguir Cristo;

é acrescentar penhor se não compensa;
é dar bom dia à noite, e ainda, insisto,
é redigir na testa uma sentença!

Marcos Satoru Kawanami
...
Não há Estado de Direito no Brasil, o que há é Estado de Dinheiro, e o Cidadão não tem mais Direito à Vida no Brasil.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Dario, Chiquinho, Daniele, Anna Cláudia, Harumi, Helena, Laurinho, Rainier Jr., Daniel, Temito - infância: saison des amitiés sincères, estação das amizades sinceras



L'AMITIÉ (A AMIZADE)

Muitos de meus amigos vieram das nuvens,
Com o sol e a chuva como bagagem.
Fizeram a estação da amizade sincera,
A mais bela das quatro estações da terra.

Têm a doçura das mais belas paisagens,
E a fidelidade dos pássaros migradores.
E em seu coração está gravada uma ternura infinita,
Mas, as vezes, uma tristeza aparece em seus olhos.

Então, vêm se aquecer comigo,
e você também virá.

Poderá retornar às nuvens,
E sorrir de novo a outros rostos,
Distribuir à sua volta um pouco da sua ternura,
Quando alguém quiser esconder sua tristeza.

Como não sabemos o que a vida nos dá,
Talvez eu não seja mais ninguém.
Se me resta um amigo que realmente me compreenda,
Me esquecerei das lágrimas e penas.

Então, talvez eu vá até você aquecer
Meu coração com sua chama.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

ninfa e sátiro


Ninfas e Sátiro (1873) - pintura de William-Adolphe Bouguereau

NINFA E SÁTIRO

Ela: uma ninfa tão merecedora
de todo o mais difícil simples verso,
de todo puro amor que há no Universo,
sem saber de tal dom ser retentora...

Eu: um sátiro mau, qual sempre fora,
espreito o que há de bom, no anseio imerso
de assimilar também o bem diverso
à minha natureza repulsora!

É tarde na floresta, o bosque apaga,
e os pirilampos surgem na quebrada,
magificando a silhueta vaga...

A ninfa, pelo sátiro beijada,
percebe afago exato, e muito afaga
em prol da Eternidade eternizada!

Marcos Satoru Kawanami

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

of human bondage - William Somerset Maugham - tratado sobre valor - de valoris - torre de babel - o pecado original inventando a Civilização



TRATADO SOBRE VALOR

Tratando do valor, valor em si,
agora estou pensando: o que é Valor
senão a Metafísica do Amor,
libido que me move até aqui?

Valor é atribuir àquilo ali,
qualquer que seja, a força de motor
de esquema positivo, pela dor
buscando alívio em lábios de Cecy.

A civilização nasceu assim,
coisificando o Amor a bem de vê-lo
concretizando da libido o fim:

Homem quis liberdade e mundo belo,
mulher quis flores, sem bichos..., capim...;
somos, entre dois edens, drama e elo.

Marcos Satoru Kawanami
...

"O homem quer liberdade, a mulher quer segurança; por isso, entre homem e mulher, a relação é foda."
(Adão, aquele mesmo lá de trás da fila)

caricatura que o Temito fez de mim

Agradeço, e muito, ao meu amigo Artêmio Filho
pela caricatura, que, em vez de me estragar, melhorou-me!

sábado, 21 de janeiro de 2012

o verso simples



O VERSO SIMPLES
“A vida inteira eu quis um verso simples
pra transformar o que eu digo.”
(Carissa Vieira)

“A vida inteira eu quis um verso simples”
a fim de transformar tudo que digo
em melodia amiga aos meus amigos
e inimigos, amigos que hão de vir.

Que a forma, disciplina a qual eu sigo
esquivo ao verso-livre, não me prive
do livre pensamento, e um dia em fim
eu livre me desligue do que ligo.

O verso que virá resume a vida,
une as pontas e une a unidade
do que era dispersivo e sem guarida.

A vida inteira eu quis achar verdade
em toda ingratidão desmerecida,
e o verso simples sempre foi saudade.

Marcos Satoru Kawanami

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

sempre apenas



SEMPRE APENAS

O que eu amava era o próprio Amor,
e eu não sabia, e ia procurando
em tudo quanto ia assim amando,
e sempre assim achando a rima dor.

Então, vejamos, põe zelo, leitor:
difuso guia, ao cego mais cegando,
fazia eu de mim mesmo sempre e quando
metáforas tirava de uma flor...

Agora, sendo finda a primavera
atípica e hostil dos anos meus,
ameno é o verão por sobre a terra.

Entendo a busca, a qual então se deu.
e pela qual o errante tanto erra
amando, em tudo, sempre apenas Deus.

Marcos Satoru Kawanami

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

ArquiteTonho


ArquiteTonho
(ler de cima pra baixo e de baixo pra cima)

calo em sentir
quando o que não disse
por conta daquele alcandorado dia
de nossas vidas fragmentadas
é real na unidade
de um desenho à la Escher
quando o ArquiteTonho sorve inspiração.

Marcos Satoru Kawanami

tonho dito!


TONHO DITO!
para meu amigo Tonho Oliveira

É o que tonho dito:
da vida às margens plácidas do Ipiranga
germinou, como que um dever cívico,
o ofício de trovador
do trovão da dor do dedo
indicador do deus Dionísio,
ébrio feito Escher concebeu do
Mundo das Ideias
Ideias do Mundo
ébrio, feito Escher concebeu do
indicador do deus Dionísio.

Do trovão da dor do dedo,
o ofício de trovador
germinou, como que um dever cívico
da vida às margens plácidas do Ipiranga:
é o que tonho dito.

Nhandeara, 19 de janeiro de 2012
Marcos Satoru Kawanami

book 88 - Tonho Oliveira - 2 palíndromos: um é o primeiro verso e o outro é o quarto verso



DOIS PALÍNDROMOS
para Tonho Oliveira

Assovio flauta atual, foi vossa
darradeira menção de vosso ofício,
e eu fiz estes palíndromos por vício
às sobras, o don no dosar bossa...

Mas vide que o soneto, minha nossa!,
tem falha métrica, a bem do artifício,
na tal palindroforme estrofe, indício
que o Tonho em apuros põe-me à troça.

O ano mais feliz de minha vida
foi justo o ano de Tonho a proposta,
fazer de 88 ambivalente

tanto naquela estrofe referida
quanto em um seu desenho, que ele aposta
meu duodecênio forja eternamente.

Nhandeara, 16 de janeiro de 2012
Marcos Satoru Kawanami


BOOK 88
para o amigo Tonho Oliveira

Assovio flauta atual, foi vossa
darradeira menção de vosso ofício,
e eu fiz estes palíndromos por vício
às sobras, o don no dosar bossa...

Mas vide que o soneto, minha nossa!,
tem falha métrica, a bem do artifício,
na tal palindroforme estrofe, indício
que o Tonho em apuros põe-me à troça.

Pois é, o autor do “oitentaoitonho”, a mim,
pediu que versejasse para o livro,
o “Book 88”, cheio de artes

impossíveis à la Escher; e, em fim,
do teu pedido, amigo, não me esquivo
ainda que o soneto tu descartes.

Nhandeara, 16 de janeiro de 2012
Marcos Satoru Kawanami


quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

de perdoar



DE PERDOAR

É boa a alma, mas a carestia,
os desencontros da matéria, e mais:
de tudo que pertence aos animais
a fim de nos levar a alegria,

conduzem nossa sina sobre a via
crúcis da redenção em desiguais
e justos descaminhos, para os quais
em caos ordeiro o povo nasce um dia.

Assim, a boa alma, na matéria,
não pode ser tão boa quanto quer,
porquanto é a barriga na miséria.

A carne é fraca, sempre que quiser
terás o meu perdão; a escrita é séria,
diversa do rancor, que me é pilhéria.

Marcos Satoru Kawanami

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

soneto em redondilha maior: bordado



BORDADO

O meu corpo é um novelo
do linho mais amarelo,
minha vida é desfazê-lo
no verso do amor singelo.

Nas tantas noites que velo,
castigando o cotovelo,
as rimas a quem apelo
são a voz do mudo zelo.

Assim, eu deixo um bordado
neste planeta a quem tem
lido o que tenho deixado.

Se acaso você também
tem-me igualmente estimado,
borde-me aí do seu lado.

Marcos Satoru Kawanami

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

soneto do otimismo


SONETO DO OTIMISMO

Deus luta, de Israel cunho vernáculo,
nos incentiva à vida veemente
com forças do Deus único existente
para regrar qualquer pagão oráculo.

Se o rei da morte estende atroz tentáculo
por sobre uma alma leda e penitente,
ingressa no infinito eternamente...
sem sombra para dúvidas de cálculo.

A luta é nada mais que o otimismo
presente em todo rosto idealista
tão raros neste mundo de cinismo.

A luta nunca teve por conquista
terreno ou poderio, que é cataclismo,
mas só o amor fraterno sempre à vista.

Marcos Satoru Kawanami

domingo, 15 de janeiro de 2012

tratado sobre valor


TRATADO SOBRE VALOR

Tratando do valor, valor em si,
agora estou pensando: o que é Valor
senão a Metafísica do Amor,
libido que me move até aqui?

Valor é atribuir àquilo ali,
qualquer que seja, a força de motor
de esquema positivo, pela dor
buscando alívio em lábios de Cecy.

A civilização nasceu assim,
coisificando o Amor a bem de vê-lo
concretizando da libido o fim:

Homem quis liberdade e mundo belo,
mulher quis flores, sem bichos..., capim...;
somos, entre dois edens, drama e elo.

Marcos Satoru Kawanami

soneta! - o palhaço, filme de Selton Mello



SONETA!

Soneto aqui, soneto lá, soneto
a toda hora para a Musa bela,
que é bela, e de tão bela até banguela
o besta do Poeta... ah!, não me meto.

Porém, me inquieto ao vê-lo sempre inquieto
entre papéis a esmo; e, da tigela,
toda comida volta pra panela
—“café é gasolina”— eis seu(?) decreto.

Poetas são estranhos entre a gente;
eu não me dou com gente de poeta,
nem tentam demonstrar cartaz decente...

Depois, inútil reclamar se veta
da Musa o pai namoro abertamente;
o palhaço, porém, aqui, soneta...

Marcos Satoru Kawanami
...
Trilha Sonora: http://blip.fm/mskawanami

sábado, 14 de janeiro de 2012

carta-testamento e carta-despedida de Getúlio Vargas em 1954 - uma analogia


CARTA TESTAMENTO

Eu, Zé Ninguém, desejo piamente
às pessoas de bem, as quais no mundo
muito têm me chamado vagabundo,
que alcancem junto a Deus favor clemente.

Sim, porque, se sou eu um inocente,
meu único defeito tão jucundo,
que causa este feitio meditabundo,
é ser um livro aberto do que sente.

Por isso tenho sido injuriado,
por isso tenho sido rejeitado,
por isso não conheço piedade.

O mundo pede sempre a falsidade,
pois tudo neste mundo é aparente,
só resta o Reino Eterno que não mente.

Marcos Satoru Kawanami




Carta-Testamento (de Getúlio Vargas em 1954)

Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se novamente e se desencadeiam sobre mim.

Não me acusam, me insultam; não me combatem, caluniam e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive que renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a Justiça da revisão do salário-mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente.

Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia a ponto de sermos obrigados a ceder.

Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para a reação. Meu sacrifício nos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão. E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue terá o preço do seu resgate.

Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia, não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.

Carta-Despedida

Deixo à sanha dos meus inimigos o legado da minha morte.

Levo o pesar de não haver podido fazer, por este bom e generoso povo brasileiro e principalmente pelos mais necessitados, todo o bem que pretendia.

A mentira, a calúnia, as mais torpes invencionices foram geradas pela malignidade de rancorosos e gratuitos inimigos numa publicidade dirigida, sistemática e escandalosa.

Acrescente-se a fraqueza de amigos que não me defenderam nas posições que ocupavam, a felonia de hipócritas e traidores a quem beneficiei com honras e mercês e a insensibilidade moral de sicários que entreguei à Justiça, contribuindo todos para criar um falso ambiente na opinião pública do país contra a minha pessoa.

Se a simples renúncia ao posto a que fui elevado pelo sufrágio do povo me permitisse viver esquecido e tranqüilo no chão da Pátria, de bom grado renunciaria. Mas tal renúncia daria apenas ensejo para, com mais fúria, perseguirem-me e humilharem. Querem destruir-me a qualquer preço. Tornei-me perigoso aos poderosos do dia e às castas privilegiadas. Velho e cansado, preferi ir prestar contas ao Senhor, não de crimes que não cometi, mas de poderosos interesses que contrariei, ora porque se opunham aos próprios interesses nacionais, ora porque exploravam, impiedosamente, aos pobres e aos humildes.

Só Deus sabe das minhas amarguras e sofrimentos. Que o sangue de um inocente sirva para aplacar a ira dos fariseus.

Agradeço aos que de perto ou de longe trouxeram-me o conforto de sua amizade.

A resposta do povo virá mais tarde...

(Getúlio Vargas)

retrato em branco e preto - dança da solidão - soneto da exceção - Paulinho da Viola e Marisa Monte - Tom Jobim e Chico Buarque


SONETO DA EXCEÇÃO

O mundo deve estar mal arranjado,
desencontros se dão a todo instante:
um chora desprezado, sendo amante;
outro despreza, sendo bem amado.

Se por divina mão edificado,
nosso planeta vai, porém errante,
seis dias não terão sido o bastante
para trabalho assim tão complicado.

Gente boa a sofrer a vida inteira
é vista em toda parte sem pecado,
e gente má é vista prazenteira.

Meu caso de exceção vai ajustado,
porque, se pecador sou de carreira,
no mundo, dores mil tenho penado.

Marcos Satoru Kawanami




Retrato em Branco e Preto

Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cor
Já conheço as pedras do caminho,
E sei também que ali sozinho,
Eu vou ficar tanto pior
E o que é que eu posso contra o encanto,
Desse amor que eu nego tanto
Evito tanto e que, no entanto,
Volta sempre a enfeitiçar
Com seus mesmos tristes, velhos fatos,
Que num álbum de retratos
Eu teimo em colecionar

Lá vou eu de novo como um tolo,
Procurar o desconsolo,
Que cansei de conhecer
Novos dias tristes, noites claras,
Versos, cartas, minha cara
Ainda volto a lhe escrever
Pra lhe dizer que isso é pecado,
Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado
e você sabe a razão
Vou colecionar mais um soneto,
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração

Chico Buarque e Tom Jobim

ninfa e sátiro

Ninfas e Sátiro (1873) - pintura de William-Adolphe Bouguereau

NINFA E SÁTIRO

Ela: uma ninfa tão merecedora
de todo o mais difícil simples verso,
de todo puro amor que há no Universo,
sem saber de tal dom ser retentora...

Eu: um sátiro mau, qual sempre fora,
espreito o que há de bom, no anseio imerso
de assimilar também o bem diverso
à minha natureza repulsora!

É tarde na floresta, o bosque apaga,
e os pirilampos surgem na quebrada,
magificando a silhueta vaga...

A ninfa, pelo sátiro beijada,
percebe afago exato, e muito afaga
em prol da Eternidade eternizada!

Marcos Satoru Kawanami

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Leonardo Da Vinci do século XXI

Temple Of Free Soul - acrílico de Artêmio Fonseca de Carvalho Filho
Da Vinci 21

Artêmio, antiguo amigo, yo he dicho
que el Arte hasta en tu nombre matizada
te sigue en esta vida entrecortada
por dolores que nadie infrinje a “bicho”!

A vezes, yo me quedo en el bolicho...
por campear belleza idealizada,
mas sepa que es en vano la pasada:
es sólo el alma de la amada el nicho.

Por eso el Arte me ha consolado,
y digo que el Arte más me gusta
por desde niño tener te admirado.

Preveo previsión más de que justa:
de la Historia serás deste pasado
el Da Vinci y uno, la legenda augusta.

Marcos Satoru Kawanami

feito a lápis, marcado a ferro


FEITO A LÁPIS, MARCADO A FERRO

Eu li: “Você será hipnotizado!”,
e fui, porém com firme passo justo
do que levou Isaac àquele susto
em que se viu Abraão martirizado.

A bem contar, até achei gozado
a princípio, que a frase tem seu lustro...
de humor bem ao meu gosto, gosto augusto
que torna o animal humanizado.

A frase estava escrita no teu blogue,
escrita a lápis, mas marcada a ferro
sem ter qualquer morfina que se drogue.

Serviste-me café, que é gasolina,
fervendo...; dei um pulo e dei um berro:
tu já podes casar, não é(s) menina?(!)

Nhandeara, 13 de janeiro de 2012
Marcos Satoru Kawanami
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Trilha Sonora da Novela: http://blip.fm/mskawanami