terça-feira, 5 de julho de 2011

minuto de apocalipse - dal mio tempo dei minimi quadrati



Minuto de Apocalipse
(ao amigo Adelzon Alves)

Das insulanas plagas de Guanabara,
por fluidos lúgubres banhadas,
pede aos céus e ao mar clemência
o Galeão ilhado que vai a pique.
Já se vão os insolarados dias
do rude, mas feliz, contentamento;
azul mirar, ignaro entendimento
de juvenil brinquedo e alegria.

Eis que da terra fogo eclode;
a celeste artilharia seus luzeiros precipita;
não resta chão sob os pés de toda gente: —Bombardeio!
bombardeio! bombardeio!
Comprimido em tal ígnea atmosfera litigante,
nem Marte, de belicoso talante,
atura —quão menos o mortal tecido.
Céu e terra declaram guerra!

Qual bestas ancestrais anfíbias,
vagas colossais engendra,
para seu sulfúrico colapso,
a fétida e vulgívaga baía,
Vasco, vede: o mar treme;
porém são do portugueses
que tremem do mar.

Em perimetral contorno
ergue-se uma muralha apocalíptica com todo
o volume de guanabaresco lodo,
que de pronto
arrasa a carioca urbanidade.

Pouco além, senão ao mesmo instante,
um soberano Galeão renato
emerge do líquido translúcido
que ocupa o então vazio sobre-abundante.

Germinam novamente os claros dias
do absoluto, feliz contentamento;
azul mirar, agora vero entendimento
de divinal brinquedo e alegria...

Ilha do Governador (RJ) 10 de outubro de 1995
Marcos Satoru Kawanami
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Rádio Oficial do Partido Politizadamente Apolítico: http://blip.fm/mskawanami

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