domingo, 5 de junho de 2011

Elogio da Mentira - Antologia da Mentira - Apologia da Mentira - Antologia da Anta - Mentir é feio, crianças, não façam isso em casa; somos profissionais!




MENTIR

Em verdade, meu bem, deves sempre mentir;
mente para mim mesmo quando tu jurares,
para que eu calque com meus próprios calcanhares
toda a mentira das verdades do existir.

Porém se por ventura a Moral te inibir,
não mintas então, e brada bem alto aos ares
que os anjos da Moral também em seus cantares,
ao fixar o oscilante, mentem sem sentir.

Não só mente, mas mente de modo constante,
e não te esqueças de jurar: jura por Deus!;
pois Deus é vida, e a vida ilude e é confortante.

Quando tu te cansares dos carinhos meus,
não poupes no exagero, exagera bastante
para eu crer que é mentira a verdade do adeus.

Marcos Satoru Kawanami


NADA ALÉM

Nada além
Nada além de uma ilusão
Chega bem
E é demais para o meu coração
Acreditando em tudo que o amor
Mentindo sempre diz
E vou vivendo assim feliz
Na ilusão de ser feliz
Se o amor
Só nos causa sofrimento e dor
É melhor
Bem melhor a ilusão do amor
Eu não quero e não peço
Para o meu coração
Nada além de uma linda ilusão

Mário Lago


MENTIROSA

Gosto
confesso que gosto
que às vezes me digas
que sou teu béguin
Gosto
mas juro e aposto
que é tudo mentira
mas sempre faz bem...
Mesmo que mintas a esmo
E digas a todos o mesmo que a mim
Mente
que eu fico contente
enquanto disseres mentiras assim

O amor é feito de mentiras
e mais ama quem mais mente
Ou melhor souber mentir
Mente, que talvez assim prefiras
através dessas mentiras
O teu peito iludir

Deixa
se um outro se queixa das tuas palavras...
Não sabe o que diz!
Juro
que às vezes te aturo
Porque mentes muito
e me fazes feliz
Quando tu fores cansado
das minhas palavras
dos carinhos meus
Mente, que eu fico contente
em crer que é mentira
a verdade do adeus

Marcos Sacramento


MENTIR - Noel Rosa

Mentir, mentir
Somente pra esconder
A mágoa que ninguém deve saber
Mentir, mentir
Em vez de demonstrar
A nossa dor num gesto ou num olhar
Saber mentir é prova de nobreza
Pra não ferir alguém com a franqueza
Mentira não é crime
É bem sublime o que se diz
Mentindo pra fazer alguém feliz
É com a mentira que a gente se sente mais contente
Por não pensar na verdade
O próprio mundo nos mente, ensina a mentir
Chorando ou rindo, sem ter vontade
E se não fosse a mentira, ninguém mais viveria
Por não poder ser feliz
E os homens contra as mulheres na terra
Então viveriam em guerra
Pois no campo do amor
A mulher que não mente não tem valor

Noël Rosa


MENTIRAS DE MULHER

São mentiras de mulher,
Pode crer quem quiser.
Que eu tenho horror ao batente,
E não sou decente,
Pode crer quem quiser.
Que eu sou fingido e malvado,
E até que sou casado,
São mentiras de mulher.
(bis)
Quando no reino da intriga,
Surge uma briga,
Por um motivo qualquer,
Se alguém vai pro cemitério,
É porque levou a sério,
As palavras da mulher.
(bis)
Esta mulher jamais se cansa,
De fazer trança,
Na mentira é um colosso,
Sua visita tão cacete,
Que escrevi no gabinete:
"Está fechado para almoço".
(bis)
Esta mulher, de armar trancinha,
Ficou magrinha,
Amarela e transparente,
Quando vai ao ponto marcado,
De um encontro combinado,
Dizem que ela está ausente....

Noël Rosa

2 comentários :

nina rizzi disse...

“Negada a verdade, não temos com que entretermos senão a mentira. Com ela nos entretenhamos, dando-a porém como tal, que não como verdades; se uma hipótese metafísica nos ocorre, façamos com ela, não a mentira de um sistema (onde possa ser verdade) mas a verdade de um poema ou de uma novela – verdade em saber que é mentira, e assim não mentir.”
Fernando Pessoa

“A essência da mentira, de fato, implica em que o mentiroso esteja completamente a par da verdade que esconde. Não se mente sobre o que se ignora; não se mente quando se difunde um erro do qual se é vítima; não se mente quando se está equivocado. O ideal do mentiroso seria portanto, uma consciência cínica, que afirmasse em si a verdade, negando-a em suas palavras e negando para si mesma essa negação. Mas essa dupla atitude negativa recai em um transcendente: o fato enunciado é transcendente, porque não existe, e a primeira negação incide sobre uma verdade, ou seja, um tipo particular de transcendência. Quanto à negação intima que opero correlativamente à afirmação da verdade para mim, recai em palavras, isto é, sobre um acontecimento do mundo. Além disso, a disposição íntima do mentiroso é positiva; poderia ser objetivo de um juízo afirmativo: o mentiroso pretende enganar e não tenta dissimular essa intenção ou mascarar a translucidez da consciência; ao contrário, refere-se a ela quando se trata de decidir condutas secundárias, exerce explicitamente um controle regulador sobre todas as atitudes. [...] porque a mentira é fenômeno normal do que Heidegger chama de “mit-sein” (em alemão “ser-com”). Presume minha existência, a existência do outro, minha existência para o outro e a existência do outro para mim. Assim, não há dificuldade em conceber o mentiroso fazendo com toda lucidez; projeto da mentira, projeto da mentira, dono de inteira compreensão da mentira e da verdade que altera. Basta que uma opacidade de principio disfarce suas intenções para o outro, e este possa tomar a mentira por verdade. Pela mentira, a consciência afirma existir por natureza como oculta ao outro, utiliza em proveito próprio a dualidade ontológica do eu e do eu do outro.”
Jean-Paul Sartre

Soneca disse...

Tem gente que nasce pra isso,-Quem?! Eu? - e tem gente que morre por isso.

Só filosofando.

Inté

ps: Se tudo fosse verdade não teríamos muitas coias...