sexta-feira, 27 de maio de 2011

Os Portugas - sátira a Os Lusíadas - oitava rima - poema épico - epic poem - Luís Vaz de Camões




OS PORTUGAS

CANTO I

(antes da ressurreição)

1
As armas e os barões atrapalhados,
Que da acidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes insultados,
Passaram muito além da mente insana
Em pegas-pra-capar desnorteados,
Mais do que os que estimula o rum-de-cana,
E entre gente mais torta edificaram
Novo Reino, que tanto avacalharam;

2
E também as piadas gloriosas
Dos Portugas que foram difamando
O bom-senso, e as terras viciosas
Do Brasil foram só bisbilhotando;
E aqueles que por obras desastrosas
Vivem da lei da morte se esquivando;
Sorrindo espalharei por toda parte
A desmesura em Vênus, Terra e Marte.

3
Cessem do nécio Gago e Paraíba
As confusões heróicas que aprontaram;
Cale-se de bombinha e de biriba
O furor da mamãe que provocaram,
Pois o portugo peito é sempre arriba,
De quem Neptuno e Marte assim zombaram:
Cesse tudo o que a Musa velha arrota,
Que furtivo é o peido que se nota.

4
E vós Sátiros lindos, pois criado
Tendes em mim um novo pervertido,
Se sempre em verso liso e bem safado
Celebrei vosso mato divertido,
Dai-me agora um som alto e perfumado,
Um estilo maldoso intrometido,
Por que, de vossas moitas, Febo diga
Que saiu assustada a Rapariga.

5
Dai-me uma pemba grande desejada,
E não um clarinete ou flauta ruda,
Mas a tuba canora avantajada,
Que ao peito ascende e a cor ao gesto muda;
Dai-me esse entusiasmo da gozada
Gente vossa, que ao Riso tanto ajuda;
Que se espalhe a pilhéria no universo,
Se tanto despautério cabe em verso.

6
Manuel Joaquim, herói da nossa gente,
Partiu de Portugal mui furibundo
Com o Destino, este indecente,
Que o confiou nas mãos do Velho Mundo;
E arribou no Brasil, todo contente,
A fim de mergulhar até o fundo
Num barril generoso de cachaça;
Vê-lo assim dava gosto, dava graça.

7
Depois de beber tal tonificante,
O portuga quedou-se a lamentar:
Queria ver Maria, sua amante;
Largado ao celibato do além-mar,
Encasquetou a idéia no talante
Que, no Brasil, preciso era casar;
Esteve por alguns dias inquieto,
Carecia escrever o analfabeto.

8
Então, para Maria enviou
Uma fosfórea caixa, em sinal
Do grande amor que sempre despertou
No seu portugo peito angelical
A boca desdentada que beijou
Numa moita dum bosque em Portugal;
Mas, dos fósforos não valeu nenhum,
Pois Manuel testara cada um.

9
Sequioso por ler a correspondência,
Manuel pedia a Pedro, mais letrado,
Que lesse em alta voz com diligência
As cartas que enviava o ente amado;
Em uma nobre mostra de demência,
Os ouvidos de Pedro eram tampados
Pelas mãos do portuga cauteloso
Em preservar o assunto sigiloso.

10
Maria de Oliveira Corrimão,
Desde sempre beata de carreira,
Levava sua bíblia na mão,
Levava sua vela na algibeira,
Deixava mui feliz o sacristão
Cuja cara luzia prazenteira;
Esta mulher, portuga exemplar,
Chorava o Manuel no além-mar.

11
Maria se aprazia em contemplar
Todos os santos feitos de madeira;
Gemia de fervor ao pé do altar,
Tamanha a sua fé tão verdadeira;
Deixava mesmo até de respirar
No momento da reza derradeira;
Pois é santa a portuga concubina,
Que agrada ao homem que não é sovina.

12
Com os pretos mostrava caridade;
Sem racismo, pintava-os de cal
Dando a todos a sua claridade;
Segurando a brocha pelo pau,
Conheceu uma sã maternidade,
E assim tão pura nunca se deu mal;
Entanto, Manuel ia sofrendo,
E na testa um ornato ia nascendo.

13
Manuel, sendo burro mas não besta,
Arranjou outro amor, e sem tardança
Fez o Pedro escrever uma funesta
Missiva, pondo cabo à esperança
Da Maria lograr pela fenestra
Penetrar no Brasil da maré-mansa;
A portuga, ficando em chão natal,
Lamentou ter nascido em Portugal.

14
Manuel se enfeitou e pôs gravata
Para ir ao encontro triunfal
Da musa que do samba é diplomata,
Que neste mundo não acha rival;
Ele se enrabichou pela Mulata,
Riu-se do sem-sabor de Portugal,
E três dias passou tirando e pondo;
O quê?, a bem dizer, é o que não sondo.

15
Por nossa estranha sina sobre a Terra,
Por tudo que acontece sem razão,
Aqui dá-se um milagre que aterra
Na vida do portuga bom varão:
De repente a Mulata um dia berra,
Notando que lhe cresce um barrigão;
Passados nove meses ansiosos,
Os papais se contentam de orgulhosos.

16
A fim de sustentar a farta prole
Que se seguiu depois do matrimônio
(Nota-se que a Mulata muito bole,
Esta obra divina e do demônio),
O Manuel deixou de corpo mole,
E teve que arrumar labor idôneo;
Fundou o brasileiro botequim:
Esta instituição nasceu assim.

17
Pra consolar Maria em Portugal,
Lamentando perder pra brasileira,
Manuel lhe enviava genial
Mistura de farinha bem caseira
Pra emprenhamento não convencional;
Maria prenhe, diz ele sem eira:
“Que coisa nova, que coisa epilética!
Caralhos, criei a Porra Sintética!”

18
Teve também um caso de exceção:
Afonsinho em Lisboa, viu seu pai
Jogando a um mendigo um só tostão;
Já chegando ao Brasil, deu muito mais,
E o menino, confuso da razão,
Pergunta: “Por que aqui tanto assim dais?”
Responde o pai, risonho e zombeteiro:
“Porque este, além de tudo, é brasileiro”.

19
Manuel nunca quis o casamento
Da filha com o velho Raoni;
Pois, exigiu do índio provimento
Além do que podia um guarani;
Havia de ter membro de jumento
Esta caricatura de Peri;
Sem vacilo, a resposta logo veio:
O índio ia mandar cortar no meio!

20
Da Mulata com nosso Manuel,
Ao mundo veio gente indefinida
Que eu não ouso pintar neste papel;
Do índio com a filha divertida
Dos, tenros qual jasmim, beiços de mel,
Nasceu robusta a raça prometida,
A raça malandrinha e fuxiqueira,
A raça da brava gente brasileira.

21
Depois veio a nascer Macunaíma,
O grande mal, a grande tempestade
Que se espreguiça e nunca sai de cima
De uma rede de luxo e de maldade;
E se seu pai louvado cabe em rima,
Deus salve a pena de Mário de Andrade
Que aos povos deu o povo em prosa e verso,
E aos novos deu um novo senso emerso.

22
Voltando ao Manuel, bom português,
Dou fé que um nobre amigo ele arranjou;
O amigo aqui chegou, fazia um mês,
Do distante Japão, e se casou
Feliz com uma doida o japonês;
Pouco custa antever o que passou:
História com portuga e nipolino
É um belo monumento ao desatino.

23
Tendo um filho, o japona quis um nome
Que cá servisse em plaga ocidental
Para o menino nunca passar fome
Ou carestia, ou mesmo passar mal
De diarréia, que tanto consome
O siso do malandro e do boçal;
Querendo batizar o rapazinho,
Foi atrás do portuga, seu vizinho.

24
No boteco, o portuga bonachão
Contemplava a poupança já capenga
Da tal Mulata amor de perdição,
Quando entrou o japona lenga-lenga
Atrás de um nome a dar ao seu varão,
E, sem saber, criou uma pendenga
Compreendendo torta a sua mente
O que disse o portuga simplesmente:

25
“Sugiro que o menino venha a ter
Um belo nome, qual Sebastião,
Vulgo: Tião, herói que há de volver
De Arábia com a glória da nação”;
E o nipolino, sem nada entender,
Deu, à palestra, sua conclusão:
“Sim, gostei do Sugiro, obrigado;
Assim vai se chamar este abestado”.

26
E quando o japonês ficou doente
Já morrendo na cama do hospital,
Dizia: “Soro... caba” falecente
Nos braços do portuga prantinal;
Até que em fim, sem mais e de repente,
Bate as botas o japona, de tão mal;
“Mas, o que foi?”, se assusta o enfermeiro
Chegando bem no instante derradeiro.

27
“Não sei; morreu assim este infeliz;
Apenas Sorocaba ele lembrava,
Urbe talvez de antiga cicatriz”;
Com cara mais atenta e muito brava,
Lamenta o enfermeiro todo gris:
“Pudera, Manuel, você pisava
Na borracha do soro glicosado:
O morto faleceu esfomeado!”

28
No enterro do japona, dá-se o cúmulo
Do orgulho, vaidade e despautério
Quando Manuel, junto ao val do túmulo,
Com voz grave discursa muito sério
E cai-lhe a dentadura de tão trêmulo
Naquela cova chã do cemitério,
Mas, altivo, inda diz num improviso:
“E... leva este meu último sorriso!”

29
Na saga valorosa do imigrante
Alemão, japonês e italiano,
A morte formidável é constante,
Como é constante o esforço sobre-humano
Por fazer que o portuga mais de adiante
Do ítalo, nipônico e germano;
E resta-lhe berrar feito uma anta:
“A minha lança é dura, e se alevanta!”


30
Mas, se todo cristão é português,
E Portugal é toda a cristandade,
E mesmo o bacalhau norueguês
Perde em fé pra portuga qualidade,
A escolha está a gosto do freguês:
Tem salame, toicinho e brevidade;
Tem gente, que fugindo do tridente,
Foi plantar cruz em cada continente.

31
Findo o Império, veio o preconceito
Para com o portuga bigodudo
Por parte dessa gente sem respeito
Que pensa ter brasão e poder tudo
Tão somente porque, digo sem jeito,
Parece que o portuga é orelhudo;
Abaixo ao preconceito, minha gente,
A quem se faz de cérebro carente.

32
Nem todo português se debilita
Diante do malandro tropical;
É o caso do portuga que arrebita
Arrebita arrebita o berimbal
Da Mulata que nunca facilita
Fazendo na avenida o Carnaval;
Salve o Moreira, o Souza, o Oliveira,
Coringas da folia brasileira!


33
Como é certo que um dia tudo finda
Neste planeta pleno de incerteza,
Vou dando cabo nesta história linda
Da raça enobrecida à fortaleza
De um caráter ereto, e mais ainda
Soberbo de façanha à portuguesa;
Pois eu vi quando tudo teve fim;
Foi numa noite, lá no botequim:

34
O turco Farid, grande cobrador,
Tinha brio por jamais se alienar
Do dinheiro, razão do seu amor
Todo feito de débito à cobrar,
E nesta noite quis ver o senhor
Davi, judeu ferrado a não pagar;
A dívida imensa do judeu
Foi razão que com tudo feneceu.

35
Armado de pistola, o turco disse
Ao judeu que de lá não sairia
Sem que a cor do dinheiro ele visse,
Sem saber que Davi se mataria
Para que assim a dívida sumisse
No pó que volta ao pó da sesmaria;
Porém, o turco tira o seu chapéu,
E vai cobrar a dívida no céu.

36
Mortos Farid e aquele fariseu,
Manuel, empolgado, os imita
Arrebentando à bala o crânio seu;
A Mulata lamenta e se agita
Com a frase que não compreendeu:
“Ora, pois, que não perco esta grita
Nem que esteja bem morto lá no céu!”
E o portuga morreu, assim, ao léu.

37
Morte gozada, morte um tanto besta
Esta morte portuga, lusitana;
Se eu pudesse, fazia uma reqüesta
Para ressuscitar a mente insana
Do Manuel, herói desta palestra,
Que é portuga, sambista e pé-de-cana;
Quero que Deus ao mundo ele nos mande
Para do mundo a Deus dar parte grande.



CANTO II

(a ressurreição)

1
Recolhendo os miolos espalhados
Pelo chão, a Mulata dedicada
Implorava o perdão dos seus pecados,
Alegando, bastante melindrada,
Sem querer terem sido praticados,
Pois a fé para ela era sagrada:
“Saravá, Santo Antônio de Lisboa!
Tem pena desta filha de Gamboa.”

2
“Pois que se sempre obrar foi minha sina
Pelo bem do Portuga, meu marido,
Por quem perdi as graças de menina,
Tendo meu lorto muito padecido,
Afasta-me, senhor, desta prantina,
Que hás de ficar contente e ressarcido;
E juro que se tal se assuceder,
Eu deixo o samba... eu deixo de beber.”

3
Santo Antônio bondoso, enternecido
Por tamanha, singela e pura fé
Da Mulata que sempre tem vivido
De dar tudo por um copo de mé,
Considerou ser justo e merecido
Seu interceder junto à Santa Sé;
Posto que uma figura assim lendária
Não merecia tal morte ordinária.

4
Manuel levantou, de um salto, são,
Exconjurando, fulo, Santo Antônio
Que não o deixou morto em paz no chão
Junto da companhia do Demônio
E suas diabinhas de plantão
Que se davam a ele em matrimônio;
O Manuel até no Purgatório
Tinha que ser portugo e ser notório.

5
Dona Mulata quis comemorar
A feliz, conjugal ressurreição;
Saiu com seu portuga pra jantar
Cheia de si, conforme a tradição
Muito afeita ao estilo popular
De fingir que jamais meteu a mão
Num prato de comida transbordante,
Fazendo-se de chique, de importante.

6
O portuga, que nunca em restaurante
Havia acomodado o seu traseiro,
Rebolou-se por dois ou três instantes
Qual se fosse em batalha um guerreiro
A perder a saúde e o talante
Entre a faca, o garfo e o saleiro;
Queria uma azeitona alfinetar,
Porém ela insistia em escapar.

7
Até que, com respeito, o garção
Disse: “Não é assim, caro senhor”,
E com habilidade e destra mão,
Fazendo o Manuel mudar de cor,
O fruto alfinetou no bandejão,
E em frente do portuga veio a por
Garfo com azeitona qual troféu
Dando afronta ao sisudo Manuel.

8
Mas o nosso herói não se amofinou;
De ar encheu o peito, juntou tino,
A Deus e ao mundo a alma encomendou,
E com tanto conluio assim divino
Que a lusitana gente auxiliou,
Safou-se do garção num desatino:
“Pegaste a azeitona, sim, bem vi,
Mas primeiro eu cansei-a para ti!”

9
Quanto espírito!, quanta inteligência
Vemos aqui na vida lusitana;
Que tato!, que sensata interjumência
Além do terrenal, além de humana
Concedeu-se por Deus com diligência
À raça que dobrou a Taprobana,
E entre gente remota construiu
O Império, a quem tanto divertiu.

10
Gigante, Adamastor é uma imagem
Símbolo da grandeza sem igual
Nascente da vontade e da coragem
Para vencer a mofa, porco mal
Oriundo da ignóbil vassalagem
Sofrida por quem vem de Portugal:
Adamastor, com garbo varonil,
Fez-se peão de obra no Brasil.

11
Eu, outro dia, lendo um bom jornal,
Me informei da atual situação
Em que vive a família em Portugal;
As mulheres evitam concepção
Com um costume casto e virginal:
Lá, varão só se deita com varão,
E o boiolismo agora é permitido
Com aval da moral e do marido.

12
Assim é o bravo povo belicoso
Que em Porto Cale fez-se florescer,
Que desde Lusitânia, chão formoso,
Se arrojou para o mundo submeter,
Cujo Império tão vasto e glorioso
Avistava primeiro o Sol nascer;
E, portanto, também para se amar
Eles põem as espadas pra brigar.

13
O valor português será lembrado
Mesmo que, para isto, em castidade,
Cujo voto é tanto celebrado,
Tenha eu que viver feito um abade
Rezador, penitente e respeitado
Pelas mulheres da boa-vontade;
Pois à vida voltou para ser grande
Nosso herói que faz rir por onde ande.



CANTO III

(haja paciência)

1
Estando, certa vez, no elevador,
Manuel observou gentil inglês
Que ao flato de uma jovem, com pudor,
Disse ter sido seu, sendo cortês;
Pois então adentrou lá no ascensor
Velha gorda a peidar sem timidez
E o Manuel: “Os peidos da velhinha
Que agora entrou, são todos culpa minha!”

2
Mas, pior foi no bonde certo dia
No tempo desta elétrica carroça;
Chovia muito, sim, como chovia!
E o bonde era aberto, que palhoça...
E o portuga sozinho lá seguia;
“Pois, troque de lugar, ora que troça!”
Mas vendo que não tinha mais ninguém:
“Trocar até queria..., mas com quem?”

3
Também logo chegando ao Brasil,
O primo do portuga padeceu
A gozação, galhofa, troças mil
Devido ao nome que seu pai lhe deu:
José Veado, que nome mais vil...
Pois, em cartório, outro recebeu
E por escolha própria foi chamado
Não mais José, porém Vasco Veado.

4
Bem, este primo teve um triste fim,
Mas digno de honrado lusitano;
Foi quando encendiou-se o botequim
E Vasco cometeu um ledo engano
Com o extintor que dizia assim:
“Cabeça para baixo contra o plano”;
Pobre Vasco acabou carbonizado
De pernas para o ar, muito esforçado.

5
Sem graça com a fama que lhe dava
Todo o povo de ser tonto e tapado,
Manuel, furibundo, matutava
Num jeito de ser bem considerado;
E, para tanto, pouco lhe faltava:
Era só estudar, ser mais letrado;
Um professor de lógica arrumou
Que ao Manuel assim o ilustrou:

6
“De lógica o mundo está formado,
De bom-senso é que a lógica se embasa;
Por exemplo, discípulo estimado,
Acaso você tem cachorro em casa?
Se tem, tem filhos; não é, pois, veado.”
Com este exemplo doido, esta vaza,
Claro que era portuga o professor;
Perdoa-me Jesus Nosso Senhor!

7
Mais doido ainda foi o que se deu
Quando o amigo Pedro perguntou
Sobre a lógica, “coisa de sandeu”,
Ao que o portuga logo secundou:
“Tem cachorro no doce lar de seu?”
E Pedro: “Não, com bicho não me dou”;
“Logo”, fez o portuga entusiasmado,
“És bicha, um boiola, um veado!”

8
Eis sutileza!, eis vigor mental
Peculiar à raça lusitana
Que há de ser interna de hospital
Dando a luz à Ciência Americana
Cujo amor se sublima a Portugal
Nas piadas gozadas tão sacanas
Deste bardo que em seu delírio canta
O portugo valor que se alevanta.

9
Este valor já vem de antiga data
Quando do Manuel um ancestral
Em uma expedição brava e sensata
Acabou bem, mas quase se deu mal
Procurando uma nova rota exata
Rumo à Índia submissa a Portugal;
E por causa de um vento mui cortês
O Brasil é um erro português.

10
Em vez de achar a Índia, o lusitano
Encontrou com as índias tropicais,
E no seu apetite tão profano
Aderiu aos costumes canibais
Abocanhando dez índias por ano
A se fartar até não poder mais;
E desta comilança doida acaba
Que o brasileiro tem um pé na Taba.

11
Dirigindo seu carro, embriagado,
Duma feita o Mané fez uma cena;
Tendo a polícia tanto atormentado,
Inda disse com voz a mais serena:
“Cachaça não me deixa embriagado.”
Pois, deu-se alteração na sua pena
Não mais de trinta dias no xadrez,
Porém, conforme é justo, só de um mês.

12
É posto Manuel com um leproso,
O qual na cela quer meter-lhe medo;
Eis que o pérfido, podre criminoso
Arranca e joga fora o próprio dedo;
Não dando o outro mostras de ansioso,
O vilão joga um braço já azedo,
Ao que o nosso herói solta gritos loucos:
“Ó pá, o gajo está fugindo aos poucos!”

13
Depois de conseguir a liberdade,
Muito mais aprontou o Manuel
Com o seu nobre estilo e dignidade
Tanto na Terra, bem como no Céu;
De modo que, por tal enormidade
De esculhambação, falta-me o papel,
E a vocês faltaria a paciência
Para saber de tanta interjumência.


CANTO IV
(ascenção e vida eterna)

1
Já velho assaz cansado da existência,
Desgostoso a beber ardida cana,
O Manuel em trôpega cadência
Saiu com um charuto dos de Havana
A devanear sem qualquer prudência,
Pisando numa casca de banana;
Mas, antes que ele caia, o tempo pausa;
O Olimpo delibera sobre a causa.

2
Do alto do seu trono soberano,
Zeus preside o concílio divinal
Inquirindo em tom grave, puritano,
Qual será desta história o final:
“Conheço o peito ilustre lusitano,
E conheço o valor de Portugal;
Como pode um herói morrer assim
Só de queda, qual um Mané Joaquim?”

3
Vênus, cheia de amor, pudica e casta,
Contemplando o portuga, amorosa,
Despe-se, fica nua, e se arrasta
Para Zeus a rogar-lhe mui chorosa:
“Meu senhor, elogio só não me basta;
Bem sei que vós me tendes por gostosa,
Mas eu quero de vós prova cabal
De amor por vossa gaja e Portugal.”

4
Mas Baco intrometido, cão danado,
Desvelando as orgias da menina
Deixa Zeus muito fulo e corneado;
Sendo, porém, safada e feminina,
Vênus ataca por um outro lado
Fazendo-se de frágil, com prantina,
Fazendo-se de santa, piedosa,
Constipa a voz e diz toda manhosa:

5
“Se Deus é brasileiro (por que não?),
Zeus haverá de ser de Portugal,
E neste honrado posto e condição
Tem por mister trazer à imortal
Acrópole de nosso Olimpo, então,
O bravo português de estirpe tal
Digno de receber também seu culto
Mítico de piadas de alto vulto.”

6
Um amante dos gestos grandiosos,
Zeus manda Baco ir catar coquinho;
Depois, sacolejando os generosos
Músculos colossais quais de moinho,
Solta estrondos de voz mais poderosos
Que um guri pirraçando seu vizinho:
“Eu ordeno que suba o Manuel
Para entrar nas comidas cá no Céu!”

7
E assim como ele está, com vista incerta,
Língua pra fora, mãos à rivelia,
Perna no ar, braguilha meio aberta,
Dá-se com Manuel dita magia
Deixando-o cabreiro, um tanto alerta,
Sem saber para onde é que ia;
Foi subindo, subindo sempre ao léu
Com charuto e cachaça rumo ao céu...

8
Assim é que ascendeu o nosso herói
Numa ascenção de glória triunfal
Ao Olimpo que o tempo não corrói;
Livrou-se do sepulcro e pá de cal,
Ninguém lhe ofende mais, nada mais dói,
Nem mais saudade tem de Portugal;
Pois agora está livre, está contente:
Manuel Joaquim, herói da nossa gente!


Nhandeara, 17 de março de 2001
Marcos Satoru Kawanami

Um comentário :

Adriana Godoy disse...

Só você, Marcos...e tá bom, pá!