terça-feira, 3 de maio de 2011

interferência



INTERFERÊNCIA

Quando eu morrer,
em qualquer parte
um rádio receptor executará o réquiem
mais audível que já se ouviu.
E, todavia, nenhuma sintonia
em coração algum hei de encontrar
                        —serei pura onda
infinita.
E será uma lástima...
a matéria não ter cumprido com sua parte.

27-outubro-1994 Ouro Preto, Minas Gerais
Marcos Satoru Kawanami
...................................................

3 comentários :

Soneca disse...

RÉQUIEM PARA TIO TONINHO - ANTONIO FERNANDO DE FRANCESCHI

notícia de ontem: foi desta para melhor meu tio homônimo (na fria manhã de 3 de junho de 1999
em Pirassununga onde nasceu e de onde pouco saía)
sua folia já não viu a luz do dia

quando jovem causticava um jeito cínico
que intransigente a alturas tantas
lhe cobrou inquieto o que não tinha
e como os tinha dispensou os próprios dentes

sabia como ninguém recortar figuras
em cascas de laranja (que espremia depois
incendiadas sobre as cabeças dos vizinhos)
era o escultor na mesa de jantar

em certa conta nela oito eram par
(falando só dos sobrinhos) famintos todos
feito gatos implorando os formatos
que ele amassava exatos no miolo dos pães

quando eu tinha onze anos era certo e sabido
que o tio Toninho ia a São Paulo
só para provar as delícias da doceira Gerbaud:
festa em quarto fechado que repartia comigo

o silêncio pródigo era seu cultivo e o humor negro
em quadrinhos: Drácula X9 Cine Mistério
de onde vinha o apelido sem dó de Augusta Frankestein
(Schimidt de certidão) lugar-tenente no solar de minha avó

viciado em troça mas sem pingo de desdém
ou fauno imperfeito ou solitário no pélago do rio Mogi:
que imagem a memória retém deste estranho confrade
de quem fui compadre desde os quinze anos?
tardes desfeitas dias horas e a manhã também
em frente à casa dele me queimei nas taturanas
subindo pelas figueiras tanta era a dor tanta a pele torturada
que clamei uivei como um cão: tio Toninho não tinha pomada

a lembrança é brisa leve (desmancha com a sazão)
na mão contrária do vento:
trinta lençóis engomados e a cada verão uma cama
para o sobrinho sem tempo

:X

Inté

ps: Um dos mais esse que você escreveu, um dos mais.

Adriana Godoy disse...

Marcos, profundo demais...cuidado com o inferno.

Marcos Satoru Kawanami disse...

Soneca,

só você me entende, entende?

u_o
BjóKawanami