terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Francisco convenciona



FRANCISCO CONVENCIONA
- lenda urbana -

            Manhã de segunda-feira; adejava a asmática São Paulo cinzento véu de estopa suja. Por ocasião do sete de setembro, José, menino, encontrava-se desocupado em casa quando o telefone soou. Era seu primo Francisco, que lhe convidava a acompanhá-lo ao desfile da independência. Combinaram se encontrar a caminho, no Viaduto Dona Paulina, em frente ao Sebo do Messias. Assim fizeram, e seguiram de metrô o restante do percurso.
            Apesar de ser dia do sol aparecer: segunda-feira, início da semana e dia útil, era feriado e, portanto, agraciava o paulistano chuva e frio, infalível... Nestas condições subiam os dois primos  pelas  escadas  rolantes da estação Tiradentes,  e já desciam  a  avenida  onde  dobrados  e  marchas  insinuavam anunciar a passagem de um grande circo. A certa distância, uns cinqüenta metros de onde estavam, o povo se aglomerava. José quis saber das arquibancadas, pois só via o palanque de autoridades,  em destaque,  e os espectadores ao longo da pista. A ele e seus dez inocentes  anos  de  idade,  respondeu Francisco com ares de presunçosa  superioridade  de dezesseis, dizendo que o outro estava a confundir a metralhadora  do  soldado  com o  reco-reco do passista, e os dourados do  almirante  de  fragata  com os da porta-bandeira e mestre-sala;  misturando pelotão de artilharia com  escola de samba,  e desfile da pátria com carnaval.   Pois  arquibancada  na rua,  só no  carnaval,  e cara. Sim, vamos assistir em pé.
            José pareceu não gostar muito  desse  negócio  de  não haver onde acomodar as pequenas nádegas, mas agüentou-se calado por  alguns minutos ao cabo dos quais mais nada queria com a pátria malvada que não deixava ele se sentar, e já conspirava uma maneira de enredar o primo a seguir as mesmas intenções suas: ir embora!
            —Chato essa chuva, não é?   Olha,  pela cor do céu e pelo que a moça da televisão disse, vai continuar.   E  a  gente nem pra lembrar do guarda-chuva...ai ai ai.
            Francisco mantinha postura ereta, "garbosa e varonil", impecavelmente patriota, impecavelmente encharcado. Pense na nobreza deste dia —começou a dizer—  imagine o sacrifício dos heróis que fizeram do Brasil um país livre, e verás quão insignificante é este nosso incômodo.
            —Ora pois sim,—  José buscava argumentos  que  favorecessem seu lado (ir embora) e depreciassem a  importância  do desfile  —que sacrifícios?  que heróis? Você delira.   "Independência ou morte!"  e acabou-se.  A colônia do pai virou império do filho; tudo em família, tudo na santa paz.
            —Disse pouco, mas disse bem, tudo na  santa  paz.   Assim  foi nossa independência,  o que não é vergonha alguma. Antes, é fato que vem a distingui-la mais ainda,  posto que maior proeza que  valer-se da  espada por um agravo qualquer  é guardá-la precavidamente na bainha,  e tê-la  segura  à  mão quando de uma emboscada.
            —Espada? bainha? emboscada? quiii...
            Pondo de lado sua vontade de ir embora, José começava a se preocupar com o raro comportamento do primo.  Com efeito, Francisco nunca havia se revelado ser assim um filho  tão ardoroso da pátria. Pelo contrário, sempre se mostrava indiferente  e quase  cético ante as paixões da coletividade ou as aspirações pessoais próprias da mocidade, nele inexistentes. Sobre essa disfunção de comportamento, José  ponderava  em sua mente infantil que Francisco só poderia estar ensandecendo.   Levando a mão ao rosto do primo ainda lhe perguntou se não estaria com febre;   o  outro  respondeu  cantando:   "Amor febril...pelo Brasil".
            Não passaria isso  de uma troça das que os mais velhos costumam tascar nos menores?   Acometido por esta idéia, José franziu a testa e fez brincando:
            —Ô, senhor, não venha você agora com chacota pro meu lado!
            Vendo ele que o primo  não  atentara  às  suas palavras,  proferidas em meio ao zumbido da multidão  e  ao  repicar das caixas-de-guerra, aproveitou para examiná-lo melhor, porém um tanto  ainda  desconfiado.   Francisco não lhe pareceu estar agindo muito  conforme  o  ordinário  de sua personalidade; também, por outro lado, sinal nenhum de  representação  ou disfarce deixava-se transparecer sob seu semblante.
            Francisco  era outro.   Símbolos nacionais,  armas e generais,  motivos seus de indiferença,  ojeriza  e  mofa de outrora, mais pareciam nesse instante inspirar-lhe contemplação, orgulho e respeito.
            —Ei, acorda Fran-cis-co!
            —Eu.
            —Que aconteceu contigo?   Donde  veio essa idéia de heróis com espada embainhada, nobre dia, amor febril... que raio  de patriotismo é esse que menos deve ter caído do céu que fugido do inferno?! Assusta-me com a brincadeira.  Olha, não tem graça nenhuma: você está todo molhado,  eu também, e a pátria nem aí conosco.   Sua mãe eu não sei, mas a minha vai ficar danada da vida quando me  ver nesse estado de roupa no varal.   Está me escutando, sim?
            Francisco escutava muito bem.   Na  verdade não era sua intenção aparentar-se tão absorto em seu patriotismo.   Buscava  tão  somente  ilustrar um assunto sobre o qual discorreria ao término do desfile.
            —Sabe o que é, tenho coisas a contar para você.
            —Correto  —replicou José ironicamente  —e por isso,  concordo, havemos de ficar na chuva.
            —Não, ali.
            Afastando-se da multidão,  encontraram  abrigo  sob um ponto de ônibus que se achava  deserto devido à interdição  da avenida aos veículos.   Da mesma  forma  como  esteve  até agora,  com a fronte voltada para o lado do desfile, Francisco iniciou o que tinha a dizer.
            —A questão é simples: convencionar.
            —Eu —prosseguiu Francisco em tom  mais grave e voltando-se para o outro —falo do viver. Raramente pode ser que eu tenha dado mostras de que penso nisso, mas acredite, é o que mais vem me afligindo de tempos para cá. Por isso, conto a você.   Vejo a vida ser traçada  por  convenções,  e  dessas dependem nosso estado geral de ânimo,  idéias,  reações; são como bússolas internas a nortear nossas ações. Não importa que rumo tome a nossa existência desde que  esteja  previamente convencionada,  e que seja respeitada integralmente a convenção.
            José, atordoado,  mais querendo saber o porquê destas palavras do que compreender sentido algum que viessem a ter. Francisco, falando.
            —O desequilíbrio não é  necessariamente  a loucura; são coisas distintas.   Fique claro:  o louco, pela própria loucura, já chegou ao equilíbrio. Porque o louco é coerente.   Prova é que,  depois  de conhecido, suas ações são previsíveis, ou previsivelmente imprevisíveis. O louco convencionou-se. Portanto, o desequilíbrio pode até anteceder a loucura, mas esta sobreviria como benefício.   De modo que nada  do que digo faz menção à loucura,  abordo a questão do desequilíbrio.
            Algo vinha, de forma crescente,  a preocupar-lhe  já há algum tempo; inicialmente uma intuição  desagradável.   Cada vez  mais  a vida  ia como que esvaindo-se das pessoas.   Os ponteiros  dos relógios,  os  carros nas ruas, a agitação usual da cidade,   e tudo  que provinha  desta  Humanidade,  parecia mover-se por inércia, existir pelo hábito de existir,  tudo assim parecia ficção, depois sonho, ao fim, farsa!   Estava no mês de maio, neste ponto sua aflição era máxima: a civilização  prestes a parar.   Sim, parar porque não encontrava motivo concreto a explicar o sentido  das  coisas  humanas estarem dispostas como estão ou, ao menos, de assim permanecerem.
            —Chegava primeiro de setembro.  Mas nada parava. Ainda, era eu que sentia estar  parando  perante a indiferença agonizante com que tudo se acelerava ao meu redor. Foi neste dia que correu em meu auxílio Fernando Pessoa: sofreria dos olhos quem pensasse? Estaria eu vendo a realidade pelos enganosos prismas do  —foi então que me ocorreu— desequilíbrio? Ou desequilibrada era essa gente que vivia a sustentar  a  farsa?   Para facilitar o problema, preferi considerar a primeira hipótese.   Porém, as  divagações  recusavam-se perniciosamente a seguir o traçado prescrito,  conduzindo-me  o  mais das vezes a procurar o desequilíbrio em outrem. Não raro, o encontrei.
            Francisco com ademanes fez uma pausa.  O outro, que permanecia calado, aproveitou para se pronunciar:
            —Então você não era desequilibrado?   Mas  todo o mundo  também não poderia ser. Quem ficaria sendo finalmente?
            —Priminho, vamos mais devagar.  O desequilíbrio  é  muito  comum e suas causas diversas.   A princípio,  um exemplo,  o que nos dá meu tio,  seu pai.
            —Não! —o menino se assustou —É bem verdade que de uns anos para cá ele  tenha ficado estranho,  meio triste,  fala menos...  mas para lá de ser louco!
            —Louco? nem pensar. Digo desequilibrado, e com justa causa. Não era seu pai que,  quando moço, imaginava o homem a dobrar por completo a natureza a sua vontade? que acreditava que seu trabalho engrandeceria o país, e traria a si reconhecimento e prestígio?
            —Sim.
            —Pois não é ele mesmo que vinte anos mais tarde,  hoje, vê aquele homem retroceder perante  a  revolta da natureza,  e vê seu  país vinte anos mais moderno e individado?   Não  é ele  mesmo que  projetava ser  através de seu esforço reconhecido,  e que trabalhou  com  afinco  pra  que  dois anos atrás fosse suprimido por um amontoado de fios e plástico e ferro?
            —Estou entendendo...
            —Os antigos valores —concluía Francisco  —sobre  os quais  seu  pai edificou a vida extinguiram-se, e ele quedou desequilibrado.  Veja, esses valores extintos nada mais  são  que  convenções quebradas.  Apesar de se apresentarem de formas distintas,  a causa  régia do  desequilíbrio  de  seu pai é a aflição  que se instalou na mente dele por ocasião da dissolução de suas convenções. E isto é igualmente válido para os demais casos.
            —Agora atropelei as idéias, confundi...
            —Você entenderá. Conhece Hurtado?
            —É,  por acaso, aquele bandoleiro —ele já ensaiava um sorriso maldoso no canto da boca —que foi preso quando se confessava na igreja!?
            —Ele mesmo,  o lendário  Hurtado  de Santa Cruz De La Sierra,  o demônio branco; que foi preso no confessionário. Era desequilibrado.
            —Os malfeitores   —retrucou José absoluto  —são  desequilibrados.   O desequilíbrio leva à prática do insensato, ao mal caminho.
            —Pois eu digo que o desequilíbrio de Hurtado foi o bom caminho.  Ele era bandido e portava-se como tal, era astuto e por isso nunca era pego; suas ações eram ditadas pelo ruim; sua vida, pecado; sua consciência,  limpa;  ele, feliz. Naquele momento da confissão, suas convenções  dissolveram-se.  A fé, equilíbrio de outros, foi, no caso de Hurtado,  refúgio  do desequilíbrio.   De maneira que o problema reside primeiro nas convenções,  segundo na quebra das mesmas; e ainda depende da personalidade.
            —Quer dizer que todos estamos sujeitos?
            —Desde que  deixemos  de  crer  nas razões dos motivos de nossas ações, nas diretrizes de nossas vidas. Seja uma balança, dum lado os motivos, do outro a crença; esta desaparece e os motivos  não têm mais resposta, seu peso faz pender  a  haste,  eis que se estabelece o desequilíbrio.   O resultado imediato  é  aparentado  pelo  profundo  desgosto,  desânimo,  tristeza; o que hodiernamente  recebeu na  terminologia psiquiátrica a designação de  depressão.
            —A amargura,  a tristeza  —deduzia José alumiado  —a tristeza  do Policarpo, de Lima Barreto? era ele desequilibrado?
            —Policarpo? —Francisco fez surpreso   —Vejamos o sonhador major Policarpo Quaresma:  não, desequilibrado não, triste, quiçá...Mas você conhece a estória?
            —Sim.
            —Bem,  as convenções dele nunca se quebraram.   O seu martírio veio de fora. Aos dezoito anos convencionou: seu ideal seria a pátria,  a  pátria seu maior afeto, e pela pátria viveria.   No cárcere,  anos depois, uma lágrima despontava em sua face a percorrer rugas sexagenárias, testemunhas do ideal, do amor da vida de um pobre bastardo do mundo,  que sempre fechou os olhos ao que até os cegos poderiam ver,  que  até  o  último minuto guardou seguro no peito aquele mesmo sopro inquieto dos  dezoito anos,  e que uma vida depois diante do pelotão de fuzilamento  não  reconheceria a pátria na farda verde-oliva do soldado cujo  pau-de-fogo  viria a deferir-lhe  o projétil letal;  pois nos dias de prisão em Villegagnon,  era também  a  pátria carcereiro;   ele não via.
            Pode ser que as  convenções  de  Quaresma  tenham  sido firmadas no sonho,  mas importante é não ter ele sido desperto. É, pois, exemplo de equilíbrio. As convenções são arbitrárias, pessoais, o indivíduo as determina sem regras a seguir;  elas são as regras.  Não há verdade única que indique as convenções, absolutamente.
            Meu caso  foi, na ocasião em  que  desacreditei da importância da civilização  existir  da forma que existe, ter negado a todas as convenções possíveis. O desequilíbrio  foi  completo.   Acredite,  é um estado entre afogante e afogado.
            Francisco calou esperando a reação do primo,  ao que este lhe perguntou admirado:
            —E você ainda está assim?
            —Creio que não —fez o outro balançando a cabeça. Hoje pela manhã, pouco antes de ligar para  você e  convidá-lo  a  acompanhar-me no assistir o desfile das armas,  foi aí,  idéias  que  vinham  fermentando  em minha  mente quase  no inconsciente deixaram a estéril passividade da divagação e expandiram-se para o campo saudável da ação:   Convencionei-me!  E para tal fazer é de mister a humildade de adotar valores que a  Humanidade  criou,  ainda que careçam de razão plausível. E o que resta é viver,  ter aspirações, decepções, pelejar pelas esquinas da vida,  ter momentos de glória (alheia, pessoal ou coletiva),  momentos  de  prantina e consolo,  tristeza e alegria; é ter mais a arrepender-se do que fez que do que  deixou por fazer,  é  não  ter medo de estar iludido; é também tomar parte nos  sentimentos da coletividade,  sim; de seus anseios e lutas. É viver também... —e a música sobressai-se à voz dele.
            Nesse instante a banda  executa a  Canção do Soldado.  Ele corre para ver. Marcha o último destacamento de infantaria.
            Alguns aplaudiam,  outros cantavam, todos em manifestação. Acercando-se da multidão que  começava  a se  dispersar,  Francisco,  endireitando o corpo, pôs-se encostado ao lado do priminho, e ambos a cantar:

           “Como é sublime
             saber amar;
             com a alma adorar
             a terra onde se nasce!
           Amor febril...”

            A manhã  estava por terminar.  O  nosso  raquítico  sol do meio-dia da independência, com toda deferência  reservada  ao dia,  despontava por entre as sombras  da  senhora chuva que já se apressava em tomar rumo de seu caminho para reclamar em outras freguesias,  pois terça-feira, por decreto, tudo haveria de estar seco e limpo, o céu aberto, uma temperatura agradabilíssima, um domingo fantástico,  e as chaminés fumegantes, é claro. Era o fim de mais um sete de setembro.  Como de costume, o pessoal do palanque, que não tomou chuva, saía aborrecido mas aliviado por ter se findado o maçante compromisso.  Os militares a ponto de chorar  de  emoção (embaixo da armadura de ferro: coração de manteiga).  Os  demais,  cada  um a sua maneira: muitos, pela falta de recreio melhor, vieram sem nada a perder e saiam satisfeitos com a máscara do cidadão  exemplar;  outros,  típicos  foliões  (finados, carnaval, tanto faz); a maioria alegre sem saber por quê.
            Os dois  meninos nossos conhecidos,  igualmente, plenos de contentamento seguiram atrás marchando logo  que  a  derradeira  coluna de fuzileiros passou: os pés a chapinhar nas poças,  sobrancelhas  cerradas,  o  sangue à cadência do bumbo,  áurea radiante.  Os sentidos  vagando inertes no infinito sagrado; em nada pensariam?
            Tomados de benévola  ingenuidade,  brilhavam seus  bons olhos,  seus olhos sãos.

Sampa, 7 de setembro de 1992
Marcos Satoru Kawanami (o moço de 16 anos de idade que escreveu o conto acima aos 16 anos mesmo; o menino de 10 anos é ficcional)

2 comentários :

byTONHO disse...



♫ marcha soldado
cabeça de papel
quem não marcha...(direita volver)
vai preso no be-le-léu...♪

Seu FransChico: digo Marcos

indefinida mente é o mesmo que demente ou sem definição?!

Ah ah!ah!ah!

:(:

Adriana Godoy disse...

Marcos, finalmente li. E posso dizer que , de certa forma, esse texto me remeteu a lugares guardados em mim. A situações estranhas e íntimas. Adorei. Bj