quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

cônica crônica

CÔNICA CRÔNICA

            Quando  ela cursava o terceiro ano  da  escola secundária,  existia uma dita aula de redação que,  a bem dizer, não era o que poderia ou mesmo pode ser chamado aula.   Era um tipo de avaliação semanal compulsória,  e contava na nota do bimestre.   Seria um treino formal,  porque  do  contrário  ninguém treinava, e a nota existindo servia de estímulo, porque do contrário...  e como sempre o corpo docente lembrava: "aqui você vale de zero a dez".  De modo que, certa vez (quinta ou terça-feira, um dia ímpar, sabe-se lá), ela encontrou-se na contingência de elaborar uma crônica a partir do dístico  "o prato não é de quem faz, é de quem come".   Algo lhe dizia que seria incapaz de escrever nada  de bom  sobre aquilo,  ou sobre  qualquer  coisa  para  variar;  ademais —que diabo é crônica?   E o ponto mais crônico  é que a  tarefa nem era para ela, mas de uma colega de outra turma que só veio achá-la no recreio faltando dez minutos para a quinta aula, na despojada e indefesa situação de aperto do vaso sanitário,  e até muitos  anos  depois  intrigaria o entendimento dela  que artifício habilitou a Maria de abrir a porta do reservado  para  dizer:   "Amiga, me faz uma cônica!".
             Dez minutos...
            A primeira idéia que lhe saltou  foi  escrever sobre prisão de ventre, e a implicação da referida moléstia com a Guerra Civil da Iugoslávia e o surto do cólera na Baixada Santista;  a final, o prato não é de quem faz, é de quem come. A própria Maria a descartou.
            Sirene da quarta aula!
            "Faz o seguinte",  ela disse enquanto erguia as calças,  "vai indo para a sala, que eu termino e depois te entrego... que tempo?"   —"Última aula.",  virou-se e saiu.
            Quarto tempo foi prova de História. Ela pensando na "cônica". Napoleão tinha úlcera de estômago. Crônica:  comunismo versus liberalismo e a úlcera na problemática das mulheres estupradas na Bósnia.
            Penúltimo tempo,  aula de Física.   Campo elétrico  nulo  no  interior de condutores. Crônica:  a eletrostática cabeleira de  Einstein  e a manga  crônica de Faraday —crônica não, agora sim: cônica de Faraday.
            A verdade é  que  ela perdeu toda  a explanação  ( fato  que  só  veio a constatar na prova bimestral), e o tema da crônica permaneceu  indefinido até o fim,  quando naquele exato momento fez-se ouvir a sirene.   Turma A,  está entregue a crônica da Maria;  cinqüenta e seis linhas;  razoável, convenhamos. Razoável não, "aqui você vale de zero a dez", a nota foi sete e meio.
            Notaça! Maria malandra. Quanto à outra, nunca tirara mais que seis.
            No tocante à nota de História, fracasso. Foi três, de zero a dez, é claro.
            Depois,  nunca chegaria  perto  daqueles impróprios sete e meio em redação nenhuma.   Por isso, nunca que ela esqueceu jamais: "O prato não é de quem faz, é de quem come".
            Assim foi.

Sampa, 9 de agosto de 1993
Marcos Satoru Kawanami, estudante do 3ºano do ensino médio, para o tema proposto acima, na aula de redação do Prof. Antônio Rossi
.......................................................................

"Blogues têm muita bobagem."
(Chico Lang, meu professor na escola da bobagem muita)

"O espelho é uma ofensa para quem é feio."
(Espelho, em momento de reflexão)