sábado, 26 de fevereiro de 2011

Pentax Camera - Kodak Film 1993 - fotografia em película - black & white pictures - retratos em branco e preto - ASA 100 - photography

Pode começar a rezar, vagabundo!

É a mãe!

Mais apertado que cu de corintiano em final de campeonato...

Sacanagem! Censuraram?

Caracol sobre folha sobre madeira sobre planeta sobre o nada que é tudo.

Tiraram a mulher que estava aí embaixo, é?

Meus lindos olhos cor de mer das abêia.

Onde eu inventei o meu eu-lírico.

Comendo o pão que o diabo amassou. Com o rabo!

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

mocidade do pós-tudo, vintage, pagã, parnasiana e bela



HUMANA CRIATURA

Fêmea, eu sinto teu cio...; insandecida,
tu vertes pelo sexo o oloroso
fluido característico viscoso,
fingindo conversar mui divertida.

Tu dissimulas bem, és bem fingida;
pois sabes que é feroz e perigoso
o vulcão dormitante do teu gozo!,
e... faz-te de pudica margarida.

Porém, minhas narinas de mastim
farejam do Amor a essência pura,
e os olhos não me enganam tanto assim.

Então desfaz-se o anjo de candura
que dantes levitava frente a mim,
e beijo-te, oh humana criatura!

Marcos Satoru Kawanami

Ipê Amarelo



IPÊ AMARELO

Desfaz solene a linha do horizonte,
na imprecisa memória de eu criança,
bolindo em sortilégios da lembrança,
silhueta colorida, um certo monte.

Já se adivinha, mesmo que eu não conte,
retrato com palavras não alcança
mescladas impressões tecendo trança
entre o que fui e sou, confusa ponte...

É como a subjetiva melodia
irracional que sai de um violoncelo
plangente e longe no raiar do dia.

É como o brincalhão polichinelo
sonhado, mas real, que então eu via,
sobre o monte, naquele ipê amarelo...

Marcos Satoru Kawanami

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

trova específica e geral

Eu e Chico Lang topografando o pasto corintiano.

Trova Específica e Geral
à vaca malhada que pasta no futuro estádio do Corinthians, um re-make da Fazendinha

Da aldeia global de gado,
que rumina e só vê grama,
eu fui cordeiro apartado;
e ora vejo o panorama.

Marcos Satoru Kawanami

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

IRONIA - fotografia em película - Kodak Film - Technicolor - Pentax Camera - Observatório Astronômico do Valongo - Jardim Suspenso - UFRJ e seu esgrimista nerd - photography - Corinthians Paulista 1910 - Chico Lang e Amácio Mazzaropi, ilustres corintianos

"ironia"
Morro do Valongo, ano: 1994

Este post vai pro Bob Moon lá de São Luís do Maranhão, que escreveu na parede do seu quarto de alojamento um soneto dum francês do século XIX cuja obra "transcriada" ele houvera publicado.
O primeiro nome dele é Ronaldo, mais não sei. Só sei que era mais poeta do que gente, e passava fome na Cidade Maravilhosa a estudar Astronomia.


Nerd atleta na Astronomia da UFRJ: Marcos Satoru Kawanami
nerd atleta?
syntax error:
serás poeta!

(Turbo Pascal, por e-mail do NCE-UFRJ)
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"Este blog ainda fará Chico Lang conhecido internacionalmente nos limites do mapa-mundi do Parque São Jorge."
(Carlitos Tévez, um cruzamento de corintiano com argentino)

"Doação de esperma é uma coisa do cacete, altruísta que só porra!"
(Boi Bandido, mas é chifrudo mesmo assim)

"Onde dizem que será o estádio do Corinthians, eu só vi uma vaca até agora; numa abordagem dialética afim ao materialismo histórico à moda do insofismático solucionático Dr. Vicente Mateus, com o otimismo autista do Chico Lang, o nosso time, em vez de campo, terá pasto; e à guisa de gols, ói que chique, nóis vai ter duas portera, uai! É o agronegócio patrocinando o Timão, se até já caparam o Fenômeno..."
(Amácio Mazzaropi, ilustre corintiano, maloqueiro e sofredor - come io - mas não come mesmo, senhor, tá me estranhando?!)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Regardez les oiseaux - ornitologia - Vogelkunde - ornithology

Wanderley Luxemburgo com o urubu do Flamengo


SONETO AOS PÁSSAROS

A Águia, para o súdito romano,
foi símbolo de força, paz e guerra;
também nas plagas da Nova Inglaterra
ela é rainha sobre o ser humano.

No mesmo continente americano,
seguindo rumo ao sul, como quem erra,
Cabral foi venturoso ao dar na terra
do bicudo e pacífico Tucano.

Românticos tiveram no Condor
um ícone ideal e soberano
a fim de alar seu estro e bem se impor.

Caipira, aqui na roça, mais sincero
figura o masculismo sem engano
que tem a marcha gay do Quero-quero!

Marcos Satoru Kawanami (heterossexual assumido)
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"Você é o que você come."
(Dr. Urubu, nutricionista do Hospital das Cínicas)

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

o beijo - the kiss



O BEIJO

O meu amor é coisa indefinida:
existe dentro em mim um sentimento
que oscila entre o riso e o lamento
ao compasso do pêndulo da vida.

Em tudo quanto vejo ou invento,
sempre a ternura se me faz sentida;
assim, amo a chegada e a partida,
amo a carne e o casto pensamento.

Por tudo que acontece sem razão,
ou talvez pela extrema solidão
que me faz desviar do senso reto,

em uma noite quente de verão,
o cúmulo senti do meu afeto:
enterneceu-me o beijo de um inseto!

Marcos Satoru Kawanami
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"Nós nos auto-censuramos a fim de não sermos censurados."
(Luciane, jaguatirica que tenho amansado há 11 anos)

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

cônica crônica

CÔNICA CRÔNICA

            Quando  ela cursava o terceiro ano  da  escola secundária,  existia uma dita aula de redação que,  a bem dizer, não era o que poderia ou mesmo pode ser chamado aula.   Era um tipo de avaliação semanal compulsória,  e contava na nota do bimestre.   Seria um treino formal,  porque  do  contrário  ninguém treinava, e a nota existindo servia de estímulo, porque do contrário...  e como sempre o corpo docente lembrava: "aqui você vale de zero a dez".  De modo que, certa vez (quinta ou terça-feira, um dia ímpar, sabe-se lá), ela encontrou-se na contingência de elaborar uma crônica a partir do dístico  "o prato não é de quem faz, é de quem come".   Algo lhe dizia que seria incapaz de escrever nada  de bom  sobre aquilo,  ou sobre  qualquer  coisa  para  variar;  ademais —que diabo é crônica?   E o ponto mais crônico  é que a  tarefa nem era para ela, mas de uma colega de outra turma que só veio achá-la no recreio faltando dez minutos para a quinta aula, na despojada e indefesa situação de aperto do vaso sanitário,  e até muitos  anos  depois  intrigaria o entendimento dela  que artifício habilitou a Maria de abrir a porta do reservado  para  dizer:   "Amiga, me faz uma cônica!".
             Dez minutos...
            A primeira idéia que lhe saltou  foi  escrever sobre prisão de ventre, e a implicação da referida moléstia com a Guerra Civil da Iugoslávia e o surto do cólera na Baixada Santista;  a final, o prato não é de quem faz, é de quem come. A própria Maria a descartou.
            Sirene da quarta aula!
            "Faz o seguinte",  ela disse enquanto erguia as calças,  "vai indo para a sala, que eu termino e depois te entrego... que tempo?"   —"Última aula.",  virou-se e saiu.
            Quarto tempo foi prova de História. Ela pensando na "cônica". Napoleão tinha úlcera de estômago. Crônica:  comunismo versus liberalismo e a úlcera na problemática das mulheres estupradas na Bósnia.
            Penúltimo tempo,  aula de Física.   Campo elétrico  nulo  no  interior de condutores. Crônica:  a eletrostática cabeleira de  Einstein  e a manga  crônica de Faraday —crônica não, agora sim: cônica de Faraday.
            A verdade é  que  ela perdeu toda  a explanação  ( fato  que  só  veio a constatar na prova bimestral), e o tema da crônica permaneceu  indefinido até o fim,  quando naquele exato momento fez-se ouvir a sirene.   Turma A,  está entregue a crônica da Maria;  cinqüenta e seis linhas;  razoável, convenhamos. Razoável não, "aqui você vale de zero a dez", a nota foi sete e meio.
            Notaça! Maria malandra. Quanto à outra, nunca tirara mais que seis.
            No tocante à nota de História, fracasso. Foi três, de zero a dez, é claro.
            Depois,  nunca chegaria  perto  daqueles impróprios sete e meio em redação nenhuma.   Por isso, nunca que ela esqueceu jamais: "O prato não é de quem faz, é de quem come".
            Assim foi.

Sampa, 9 de agosto de 1993
Marcos Satoru Kawanami, estudante do 3ºano do ensino médio, para o tema proposto acima, na aula de redação do Prof. Antônio Rossi
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"Blogues têm muita bobagem."
(Chico Lang, meu professor na escola da bobagem muita)

"O espelho é uma ofensa para quem é feio."
(Espelho, em momento de reflexão)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Francisco convenciona



FRANCISCO CONVENCIONA
- lenda urbana -

            Manhã de segunda-feira; adejava a asmática São Paulo cinzento véu de estopa suja. Por ocasião do sete de setembro, José, menino, encontrava-se desocupado em casa quando o telefone soou. Era seu primo Francisco, que lhe convidava a acompanhá-lo ao desfile da independência. Combinaram se encontrar a caminho, no Viaduto Dona Paulina, em frente ao Sebo do Messias. Assim fizeram, e seguiram de metrô o restante do percurso.
            Apesar de ser dia do sol aparecer: segunda-feira, início da semana e dia útil, era feriado e, portanto, agraciava o paulistano chuva e frio, infalível... Nestas condições subiam os dois primos  pelas  escadas  rolantes da estação Tiradentes,  e já desciam  a  avenida  onde  dobrados  e  marchas  insinuavam anunciar a passagem de um grande circo. A certa distância, uns cinqüenta metros de onde estavam, o povo se aglomerava. José quis saber das arquibancadas, pois só via o palanque de autoridades,  em destaque,  e os espectadores ao longo da pista. A ele e seus dez inocentes  anos  de  idade,  respondeu Francisco com ares de presunçosa  superioridade  de dezesseis, dizendo que o outro estava a confundir a metralhadora  do  soldado  com o  reco-reco do passista, e os dourados do  almirante  de  fragata  com os da porta-bandeira e mestre-sala;  misturando pelotão de artilharia com  escola de samba,  e desfile da pátria com carnaval.   Pois  arquibancada  na rua,  só no  carnaval,  e cara. Sim, vamos assistir em pé.
            José pareceu não gostar muito  desse  negócio  de  não haver onde acomodar as pequenas nádegas, mas agüentou-se calado por  alguns minutos ao cabo dos quais mais nada queria com a pátria malvada que não deixava ele se sentar, e já conspirava uma maneira de enredar o primo a seguir as mesmas intenções suas: ir embora!
            —Chato essa chuva, não é?   Olha,  pela cor do céu e pelo que a moça da televisão disse, vai continuar.   E  a  gente nem pra lembrar do guarda-chuva...ai ai ai.
            Francisco mantinha postura ereta, "garbosa e varonil", impecavelmente patriota, impecavelmente encharcado. Pense na nobreza deste dia —começou a dizer—  imagine o sacrifício dos heróis que fizeram do Brasil um país livre, e verás quão insignificante é este nosso incômodo.
            —Ora pois sim,—  José buscava argumentos  que  favorecessem seu lado (ir embora) e depreciassem a  importância  do desfile  —que sacrifícios?  que heróis? Você delira.   "Independência ou morte!"  e acabou-se.  A colônia do pai virou império do filho; tudo em família, tudo na santa paz.
            —Disse pouco, mas disse bem, tudo na  santa  paz.   Assim  foi nossa independência,  o que não é vergonha alguma. Antes, é fato que vem a distingui-la mais ainda,  posto que maior proeza que  valer-se da  espada por um agravo qualquer  é guardá-la precavidamente na bainha,  e tê-la  segura  à  mão quando de uma emboscada.
            —Espada? bainha? emboscada? quiii...
            Pondo de lado sua vontade de ir embora, José começava a se preocupar com o raro comportamento do primo.  Com efeito, Francisco nunca havia se revelado ser assim um filho  tão ardoroso da pátria. Pelo contrário, sempre se mostrava indiferente  e quase  cético ante as paixões da coletividade ou as aspirações pessoais próprias da mocidade, nele inexistentes. Sobre essa disfunção de comportamento, José  ponderava  em sua mente infantil que Francisco só poderia estar ensandecendo.   Levando a mão ao rosto do primo ainda lhe perguntou se não estaria com febre;   o  outro  respondeu  cantando:   "Amor febril...pelo Brasil".
            Não passaria isso  de uma troça das que os mais velhos costumam tascar nos menores?   Acometido por esta idéia, José franziu a testa e fez brincando:
            —Ô, senhor, não venha você agora com chacota pro meu lado!
            Vendo ele que o primo  não  atentara  às  suas palavras,  proferidas em meio ao zumbido da multidão  e  ao  repicar das caixas-de-guerra, aproveitou para examiná-lo melhor, porém um tanto  ainda  desconfiado.   Francisco não lhe pareceu estar agindo muito  conforme  o  ordinário  de sua personalidade; também, por outro lado, sinal nenhum de  representação  ou disfarce deixava-se transparecer sob seu semblante.
            Francisco  era outro.   Símbolos nacionais,  armas e generais,  motivos seus de indiferença,  ojeriza  e  mofa de outrora, mais pareciam nesse instante inspirar-lhe contemplação, orgulho e respeito.
            —Ei, acorda Fran-cis-co!
            —Eu.
            —Que aconteceu contigo?   Donde  veio essa idéia de heróis com espada embainhada, nobre dia, amor febril... que raio  de patriotismo é esse que menos deve ter caído do céu que fugido do inferno?! Assusta-me com a brincadeira.  Olha, não tem graça nenhuma: você está todo molhado,  eu também, e a pátria nem aí conosco.   Sua mãe eu não sei, mas a minha vai ficar danada da vida quando me  ver nesse estado de roupa no varal.   Está me escutando, sim?
            Francisco escutava muito bem.   Na  verdade não era sua intenção aparentar-se tão absorto em seu patriotismo.   Buscava  tão  somente  ilustrar um assunto sobre o qual discorreria ao término do desfile.
            —Sabe o que é, tenho coisas a contar para você.
            —Correto  —replicou José ironicamente  —e por isso,  concordo, havemos de ficar na chuva.
            —Não, ali.
            Afastando-se da multidão,  encontraram  abrigo  sob um ponto de ônibus que se achava  deserto devido à interdição  da avenida aos veículos.   Da mesma  forma  como  esteve  até agora,  com a fronte voltada para o lado do desfile, Francisco iniciou o que tinha a dizer.
            —A questão é simples: convencionar.
            —Eu —prosseguiu Francisco em tom  mais grave e voltando-se para o outro —falo do viver. Raramente pode ser que eu tenha dado mostras de que penso nisso, mas acredite, é o que mais vem me afligindo de tempos para cá. Por isso, conto a você.   Vejo a vida ser traçada  por  convenções,  e  dessas dependem nosso estado geral de ânimo,  idéias,  reações; são como bússolas internas a nortear nossas ações. Não importa que rumo tome a nossa existência desde que  esteja  previamente convencionada,  e que seja respeitada integralmente a convenção.
            José, atordoado,  mais querendo saber o porquê destas palavras do que compreender sentido algum que viessem a ter. Francisco, falando.
            —O desequilíbrio não é  necessariamente  a loucura; são coisas distintas.   Fique claro:  o louco, pela própria loucura, já chegou ao equilíbrio. Porque o louco é coerente.   Prova é que,  depois  de conhecido, suas ações são previsíveis, ou previsivelmente imprevisíveis. O louco convencionou-se. Portanto, o desequilíbrio pode até anteceder a loucura, mas esta sobreviria como benefício.   De modo que nada  do que digo faz menção à loucura,  abordo a questão do desequilíbrio.
            Algo vinha, de forma crescente,  a preocupar-lhe  já há algum tempo; inicialmente uma intuição  desagradável.   Cada vez  mais  a vida  ia como que esvaindo-se das pessoas.   Os ponteiros  dos relógios,  os  carros nas ruas, a agitação usual da cidade,   e tudo  que provinha  desta  Humanidade,  parecia mover-se por inércia, existir pelo hábito de existir,  tudo assim parecia ficção, depois sonho, ao fim, farsa!   Estava no mês de maio, neste ponto sua aflição era máxima: a civilização  prestes a parar.   Sim, parar porque não encontrava motivo concreto a explicar o sentido  das  coisas  humanas estarem dispostas como estão ou, ao menos, de assim permanecerem.
            —Chegava primeiro de setembro.  Mas nada parava. Ainda, era eu que sentia estar  parando  perante a indiferença agonizante com que tudo se acelerava ao meu redor. Foi neste dia que correu em meu auxílio Fernando Pessoa: sofreria dos olhos quem pensasse? Estaria eu vendo a realidade pelos enganosos prismas do  —foi então que me ocorreu— desequilíbrio? Ou desequilibrada era essa gente que vivia a sustentar  a  farsa?   Para facilitar o problema, preferi considerar a primeira hipótese.   Porém, as  divagações  recusavam-se perniciosamente a seguir o traçado prescrito,  conduzindo-me  o  mais das vezes a procurar o desequilíbrio em outrem. Não raro, o encontrei.
            Francisco com ademanes fez uma pausa.  O outro, que permanecia calado, aproveitou para se pronunciar:
            —Então você não era desequilibrado?   Mas  todo o mundo  também não poderia ser. Quem ficaria sendo finalmente?
            —Priminho, vamos mais devagar.  O desequilíbrio  é  muito  comum e suas causas diversas.   A princípio,  um exemplo,  o que nos dá meu tio,  seu pai.
            —Não! —o menino se assustou —É bem verdade que de uns anos para cá ele  tenha ficado estranho,  meio triste,  fala menos...  mas para lá de ser louco!
            —Louco? nem pensar. Digo desequilibrado, e com justa causa. Não era seu pai que,  quando moço, imaginava o homem a dobrar por completo a natureza a sua vontade? que acreditava que seu trabalho engrandeceria o país, e traria a si reconhecimento e prestígio?
            —Sim.
            —Pois não é ele mesmo que vinte anos mais tarde,  hoje, vê aquele homem retroceder perante  a  revolta da natureza,  e vê seu  país vinte anos mais moderno e individado?   Não  é ele  mesmo que  projetava ser  através de seu esforço reconhecido,  e que trabalhou  com  afinco  pra  que  dois anos atrás fosse suprimido por um amontoado de fios e plástico e ferro?
            —Estou entendendo...
            —Os antigos valores —concluía Francisco  —sobre  os quais  seu  pai edificou a vida extinguiram-se, e ele quedou desequilibrado.  Veja, esses valores extintos nada mais  são  que  convenções quebradas.  Apesar de se apresentarem de formas distintas,  a causa  régia do  desequilíbrio  de  seu pai é a aflição  que se instalou na mente dele por ocasião da dissolução de suas convenções. E isto é igualmente válido para os demais casos.
            —Agora atropelei as idéias, confundi...
            —Você entenderá. Conhece Hurtado?
            —É,  por acaso, aquele bandoleiro —ele já ensaiava um sorriso maldoso no canto da boca —que foi preso quando se confessava na igreja!?
            —Ele mesmo,  o lendário  Hurtado  de Santa Cruz De La Sierra,  o demônio branco; que foi preso no confessionário. Era desequilibrado.
            —Os malfeitores   —retrucou José absoluto  —são  desequilibrados.   O desequilíbrio leva à prática do insensato, ao mal caminho.
            —Pois eu digo que o desequilíbrio de Hurtado foi o bom caminho.  Ele era bandido e portava-se como tal, era astuto e por isso nunca era pego; suas ações eram ditadas pelo ruim; sua vida, pecado; sua consciência,  limpa;  ele, feliz. Naquele momento da confissão, suas convenções  dissolveram-se.  A fé, equilíbrio de outros, foi, no caso de Hurtado,  refúgio  do desequilíbrio.   De maneira que o problema reside primeiro nas convenções,  segundo na quebra das mesmas; e ainda depende da personalidade.
            —Quer dizer que todos estamos sujeitos?
            —Desde que  deixemos  de  crer  nas razões dos motivos de nossas ações, nas diretrizes de nossas vidas. Seja uma balança, dum lado os motivos, do outro a crença; esta desaparece e os motivos  não têm mais resposta, seu peso faz pender  a  haste,  eis que se estabelece o desequilíbrio.   O resultado imediato  é  aparentado  pelo  profundo  desgosto,  desânimo,  tristeza; o que hodiernamente  recebeu na  terminologia psiquiátrica a designação de  depressão.
            —A amargura,  a tristeza  —deduzia José alumiado  —a tristeza  do Policarpo, de Lima Barreto? era ele desequilibrado?
            —Policarpo? —Francisco fez surpreso   —Vejamos o sonhador major Policarpo Quaresma:  não, desequilibrado não, triste, quiçá...Mas você conhece a estória?
            —Sim.
            —Bem,  as convenções dele nunca se quebraram.   O seu martírio veio de fora. Aos dezoito anos convencionou: seu ideal seria a pátria,  a  pátria seu maior afeto, e pela pátria viveria.   No cárcere,  anos depois, uma lágrima despontava em sua face a percorrer rugas sexagenárias, testemunhas do ideal, do amor da vida de um pobre bastardo do mundo,  que sempre fechou os olhos ao que até os cegos poderiam ver,  que  até  o  último minuto guardou seguro no peito aquele mesmo sopro inquieto dos  dezoito anos,  e que uma vida depois diante do pelotão de fuzilamento  não  reconheceria a pátria na farda verde-oliva do soldado cujo  pau-de-fogo  viria a deferir-lhe  o projétil letal;  pois nos dias de prisão em Villegagnon,  era também  a  pátria carcereiro;   ele não via.
            Pode ser que as  convenções  de  Quaresma  tenham  sido firmadas no sonho,  mas importante é não ter ele sido desperto. É, pois, exemplo de equilíbrio. As convenções são arbitrárias, pessoais, o indivíduo as determina sem regras a seguir;  elas são as regras.  Não há verdade única que indique as convenções, absolutamente.
            Meu caso  foi, na ocasião em  que  desacreditei da importância da civilização  existir  da forma que existe, ter negado a todas as convenções possíveis. O desequilíbrio  foi  completo.   Acredite,  é um estado entre afogante e afogado.
            Francisco calou esperando a reação do primo,  ao que este lhe perguntou admirado:
            —E você ainda está assim?
            —Creio que não —fez o outro balançando a cabeça. Hoje pela manhã, pouco antes de ligar para  você e  convidá-lo  a  acompanhar-me no assistir o desfile das armas,  foi aí,  idéias  que  vinham  fermentando  em minha  mente quase  no inconsciente deixaram a estéril passividade da divagação e expandiram-se para o campo saudável da ação:   Convencionei-me!  E para tal fazer é de mister a humildade de adotar valores que a  Humanidade  criou,  ainda que careçam de razão plausível. E o que resta é viver,  ter aspirações, decepções, pelejar pelas esquinas da vida,  ter momentos de glória (alheia, pessoal ou coletiva),  momentos  de  prantina e consolo,  tristeza e alegria; é ter mais a arrepender-se do que fez que do que  deixou por fazer,  é  não  ter medo de estar iludido; é também tomar parte nos  sentimentos da coletividade,  sim; de seus anseios e lutas. É viver também... —e a música sobressai-se à voz dele.
            Nesse instante a banda  executa a  Canção do Soldado.  Ele corre para ver. Marcha o último destacamento de infantaria.
            Alguns aplaudiam,  outros cantavam, todos em manifestação. Acercando-se da multidão que  começava  a se  dispersar,  Francisco,  endireitando o corpo, pôs-se encostado ao lado do priminho, e ambos a cantar:

           “Como é sublime
             saber amar;
             com a alma adorar
             a terra onde se nasce!
           Amor febril...”

            A manhã  estava por terminar.  O  nosso  raquítico  sol do meio-dia da independência, com toda deferência  reservada  ao dia,  despontava por entre as sombras  da  senhora chuva que já se apressava em tomar rumo de seu caminho para reclamar em outras freguesias,  pois terça-feira, por decreto, tudo haveria de estar seco e limpo, o céu aberto, uma temperatura agradabilíssima, um domingo fantástico,  e as chaminés fumegantes, é claro. Era o fim de mais um sete de setembro.  Como de costume, o pessoal do palanque, que não tomou chuva, saía aborrecido mas aliviado por ter se findado o maçante compromisso.  Os militares a ponto de chorar  de  emoção (embaixo da armadura de ferro: coração de manteiga).  Os  demais,  cada  um a sua maneira: muitos, pela falta de recreio melhor, vieram sem nada a perder e saiam satisfeitos com a máscara do cidadão  exemplar;  outros,  típicos  foliões  (finados, carnaval, tanto faz); a maioria alegre sem saber por quê.
            Os dois  meninos nossos conhecidos,  igualmente, plenos de contentamento seguiram atrás marchando logo  que  a  derradeira  coluna de fuzileiros passou: os pés a chapinhar nas poças,  sobrancelhas  cerradas,  o  sangue à cadência do bumbo,  áurea radiante.  Os sentidos  vagando inertes no infinito sagrado; em nada pensariam?
            Tomados de benévola  ingenuidade,  brilhavam seus  bons olhos,  seus olhos sãos.

Sampa, 7 de setembro de 1992
Marcos Satoru Kawanami (o moço de 16 anos de idade que escreveu o conto acima aos 16 anos mesmo; o menino de 10 anos é ficcional)

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Fractal - 2 sonnets


1)
MY ONLY LOVE SONNET
to Amy Winehouse

Who’ll tell me: am I evil, am I guilty?
For every young and good person I know
by love have been striken for other soul
and guess that that’s in life the highest beauty.

But this feeling I hear the others say,
seems to me like something that can not be,
a too marvellous fantasy I can’t see
even to imagine and sad for that stay.

Love is just a word, means nothing to me.
Truely, some times I have thought love to feel;
though now I realize that I was just ill.

My feelings are locked, no one has their key;
searching all life I didn’t find a glove
for the hand of my soul to call it love.

Rio de Janeiro — Galeão, 12 de setembro de 1997
Marcos Satoru Kawanami
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2)

FRACTAL
- soneto em alexandrinos -

A forma está presente em toda a natureza…;
inútil refutar tamanha onipresença,
meu caro modernista afeito à desavença,
que empunha o gládio em vez da lira (com certeza).

Poeta, no pós-tudo, até sem ter destreza
na rima amor com flor, e ninguém há que vença
ensinar-lhe o valor da antiga e firme crença
que o esmero, ao divinal fitar, propõe beleza.

A prova aí está, desponta na ciência
vitaminada, além ultra, que é chic e tal
— o zelo da razão é paz, sem penitência…

Em um minério ou bem em plantas de quintal,
em um soneto ou bem na gênese da essência:
a forma lá está, na equação de um Fractal.

Marcos Satoru Kawanami
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"Quando um jogador de futebol é emprestado para outro clube, significa que esse jogador é imprestável?"
(Amácio Mazzaropi, em pergunta para seu confrade corintiano Chico Lang)

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

enjambement



ENJAMBEMENT

Mon argent que je necessite pour
sustentar e ostentar tudo que
compra sinceridade de você,
il non tombe pa du ciel, mon amour.

Pois, vê se te mete num soirée
do pano sublime chamado chita;
você leva jeito..., vê se imita
as prendadas moças do cabaret.

Tenho enxame na mente!, como dizem
na velha Gália: “enjambement”, e
o trabalho agora é com você.

É noite, busque uns cobres que amenizem
notre jour. Faz biquinho, até amanhã,
que eu vou bolando mais enjambement.

Marcos Satoru Kawanami
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"Se você pensa que me coração é de papel, não vá pensando pois não é."
(Sérgio Reis)


"Se vc pensa que meu coração é de papel, escreva nele o Romance da sua vida."
(Odaí Mané)


"Se vc pensa que meu coração é de papel, escreva nele o endereço para o qual vc me mandou!"
(Joana, na Casa da Mãe)

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

por toda a vida

Lili Kessler


POR TODA A VIDA

Quando eu era pequenino
a falar comigo mesmo,
a viver ao léu, a esmo
na sem-razão de menino:

Felicidade era a minha!,
andando de braço dado,
fingindo ser namorado
de minha irmã caçulinha...

E os adultos que passavam,
da tolice que julgavam,
zombavam muito de mim.

Não sabiam, por cegueira,
que iriam a vida inteira
procurar algo assim.

Marcos Satoru Kawanami

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Carlos Drummond de Andrade no original e para Isaac Newton




No meio do caminho tinha uma pedra

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Carlos Drummond de Andrade



A PEDRA DE NEWTON
ao Carlos Drummond de Andrade

No meio do caminho tinha ein Stein,
tinha ein Stein no meio do caminho.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minha Física tão Clássica.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha Einstein.

Rio de Janeiro, UFRJ, 1994
Marcos Satoru Kawanami
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"O Peru de cá tem peruano, o Peru de lá tem turco."
(Cônego Botelho Pinto Bento de Maçaranduba)


"Essa mania de alternativo é o seguinte: tem gente com faniquito de ser diferente; daí, começa a ver vampiro, ver espírito, gnomo, dizer que é mago, gótico, dark, começa a dar o cu, a escrever blog e a escrever poema(?)..."
(Chico Xavier, pelo espírito dele mesmo)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

a lenda do peru



A LENDA DO PERU
ao Milton Coelho da Graça, que ensinou-me esta lenda

Contemplativo acerca da beleza
que lhe era própria, um dia, o Pavão
pensou: “Por que não alço os pés do chão,
e conquisto a cerúlea realeza?”.

Por ser ele incapaz de tal proeza,
lastimou do Destino a ingratidão
que ao Urubu, mais feio que um Dragão,
permitia voar por natureza.

Eis que então, num lampejo inteligente,
propôs ao Urubu, que voava à toa,
unir em matrimônio conveniente

seus filhos. Foi assim que da Pavoa
veio ao mundo o Peru, hibridamente;
que é feio pra dedéu… e ainda não voa!

Marcos Satoru Kawanami