quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

apelo para epílogo




APELO PARA EPÍLOGO

          Armendaris Fuentes Mudimbe de Orleans y Trompovsky y Romanov y Kurosawa é o nome dele. Ele é da antiga Ciudad Trujillo, atual São Domingos da República Dominicana. O nome impressiona? Pois que então passe o meu em omisso. Sou da ilha, trabalhamos juntos na capital... Como todo bom homem lá da terra, ele tem um bom nome também, e uma boa genealogia que abraça todas as nações do mundo, a qual vale uma explicação ainda melhor; mas ora não se faz pertinente. Ocupo-me pelo que lhe sucedeu hoje à tarde.
          O décimo quinto Escritório de  Recolhimento amanheceu impenetrável de processos tributários. Com a volta à atividade do pessoal jurídico, em greve por atraso salarial já entrado no sexto mês, que o governo soe atribuir ao decréscimo do preço da banana, o serviço liberado de súbito como que despencou em queda livre do oitavo ao segundo andar de nossa seção com uma aceleração inédita de expediente. Resultou que eu ainda ficaria preso à datilografia almoço a dentro, quando ele veio convidar-me para um café.   Tal a lástima, é como se eu o visse aqui, e já neste instante,  saindo  só e banzeiro pela porta do corredor. Depois, o que soube dele, interei-me faz pouco mais de quatro horas.
          Certamente  não  almoçou.   Não pôde, outra vez o bar conspirava, estando a cozinha no terceiro golpe de estado do ano.   Estaria faminto; desceu ao térreo direto  ao  refeitório quando,  no entanto,  o detiveram:   "A comida falta, a banana apodrece!",   escutava-se.   Dão  a  ele uma banana e o despacham. Perambula pelas ruas do centro;  uma briga  de  meninos;   vendedores ambulantes; revoada e alvoroço pelo discurso  frustrado  dos protestantes na praça central; prosas de esquina; vai deixando rasto até achar  o  caminho  da praia.   Esse deve ter sido seu itinerário mais provável, pela descrição que obtive: homem moreno, sem bigode, sem barba, sem chapéu nem dinheiro, vestido e calçado. Não fossem outros tantos milhares  de  concidadãos,  ora,  só poderia ser ele! Pois chega à praia e,  como  todos  que  estivessem  lá àquela hora, faz reparo ao longe no mar  em  três  pequenas  embarcações.   De uma delas baixa  um  bote vindo  se acercar da areia;   o capitão salta desengonçado, tropeça  e  cai de joelhos ao lado de Armendaris,  que,  em auxílio, estende-lhe a mão e o recompõe.   Parece  ter  saído  dum  cortiço,  contaram-me, mas a roupa é antiquária, o pior é que está sujo e fede.
          —Santa Maria! O que é você  —faz Armendaris perplexo.
          —Pinta e Niña! Por Deus,  o soberano reino  e a cristandade, sou Cristóvão Colombo. E você?
          —Armendaris.
          —Ganhei?
          —...Fuentes Mudimbe de Orleans y...
          Pausa.
          —Que nome tem aqui?
          —São Domingos.
          —Do... Ceilão?  —Cristóvão se aflige.
          —Não, daqui mesmo.
          —Em algures do Índico?
          —Desde que seja na América Central... tanto faz, cara pálida.   É  onde te encontras.
          Janeiro costuma ventar e chover todo dia. Hoje, o vento, a brisa costumeira da praia que refresca o expediente, já pelo  muito  a fazer, já por não ter ventado mesmo, de minha parte não se fez sentir.  Seja como for, para eu que permanecia  aferrado no escritório,  era confuso precisar os humores do tempo. A mesma senhora que estava na praia e posteriormente me forneceu essa informação, urgiu em contar detalhadamente o que viu se passar entre Colombo e Armendaris.   Parece  que  aquele,  desiludido pela palestra,  considerou largo  período seu interlocutor, dirigindo depois a vista aos banhistas e curiosos que se assomavam; aparvalhado, quase a chorar de desespero, ainda pôs-se de ponta-de-pé  para  divisar suas três naus letárgicas sobre o mar; e assim demorou outro tanto. Por fim, arderam-lhe os olhos as cintilações da água, ao que retesou o rosto inteiro reparando  no  calor  e na incrível limpidez do céu despojado de nuvem,  quando,  voltando-se  bruscamente  para  Armendaris, disse adeus, retornando ao bote.
          —Ei!  Chega mais.  É cedo,  vamos  tomar um café na Confeitaria Colombo.
          Daí, os dois deram um pulo até o Rio de Janeiro, e o navegador voltou devidamente descontraído para  encontrar  em  São Domingos seu paraíso na Terra. Gostou tanto da ilha que, retrocedidos cinco séculos, ao dar novamente em costa americana,  batizou-a  São Domingos, o que levou a consagração daquela data,  desde então no pontifício  calendário,  ao  Santo Domingo  do Senhor. Armendaris, entretanto ficou no Rio, e não pude esclarecer por completo o ocorrido de sua delonga no lugar. Um boletim de ocorrência foi o documento que encontrei. Assinala seu entretenimento com a milícia local e a coroa, que acabou incorporando-o  a  uma expedição mercenária ou para-militar  —não se sabe—  rumo ao extremo sul,  onde   "insurretos ameaçam a unidade nacional". Sucede que,  na província de Santa Catarina, proclamada República Piratiny, agourando o porvir cinzento à iminência dos combates, decide-se pela deserção, é claro.
          Muita terra. Terra demais, e nada. Amplidão a vista perder: azul, verde, o infinito,  e nada.   Colinas,  que passe colinas. Mas, pergunto, que são colinas?   Mais um nada à nulidade do todo, ou do nada, selvagem e inóspito daquele rincão do Brasil meridional. Difícil  é  imaginar  aquele  imenso  mar  de morros propriedade de alguém.   Não seria mesmo provável  que  ali  vivalma habitasse,  ou viajor qualquer de hoje até eras das mais remotas houvesse traçado passo por lá. Uma casa, uma cabeça de gado, um berrante embrumado: nada. Tal era a riqueza do senhor Bento José, dono da quebrada onde encontrou meu colega ferido de bala nas costas.
          Crê-se, sua recuperação na casa do fazendeiro foi milagrosamente bem sucedida e rápida,  aos cuidados voluntários de Anita,  filha de Bento.  Estranho foi não ter sido achado o projétil, que teria ficado entranhado em Armendaris, ou talvez não.
          No princípio,  quando  aos  da  casa  foi revelada as circunstâncias do ferimento, quiseram acreditar que se tratava  de  uma cilada,  e  abrigavam um bandido; sem vacilo, um espião! Todavia, Anita que mais contato  despendeu em sua assistência, conquanto guardasse  segredo  para  não  escandalizar os homens da casa, enxergava o caso por um ângulo bem distinto. Desenvolvera a teoria de um verdadeiro milagre. Não sei porque, nem ninguém mais sabe como, associações  das  mais  extravagantes,  malgrado muito afeitas à idade, induziram-na a concluir sem menor chance para dúvida  que, definitivamente, ele havia expelido  a preciosidade com as fezes.  Porque, de primeiro, sangrava ao defecar.
          Por essa época a Farroupilha seguia em plena marcha  pelas províncias do sul.   A propriedade  de Bento José era posto de abastecimento dos farrapos; o trânsito deles por lá intensificava-se  sobrevindas  as vitórias iniciais; o próprio   fazendeiro  era farrapo,  todos se alinhavam e venciam,  e um rápido final era  certo e esperado.   Os  homens das tropas fiéis ao Império não eram tão fiéis quanto. Afinal, "gente, para que brigar, não é?".
          Mas governo é governo.    Gigante  plácido,  desconjuntado,  moroso, mas   gigante  sempre.   As coisas  se  prolongavam...  Ele  sem  mais  como, acabou tendo que  "provar seu valor"  e cumprir o destino que tanto faria por retardar;  agora,  como traidor da pátria alheia.  Desde sua primeira campanha encontrou-se batendo ao lado de  um  libertário  louco  que  desmoralizou-lhe todas as ressalvas de amor à vida.  Justo ele!  Foi da companhia de Giuseppe Garibaldi até o fim, com quem seguiu  para  o  Reino Das Duas Sicilias, onde os  esperavam os camisas vermelhas a destituir Bourbon e proclamar a República:
          —Veste a camisa, ragazzo!
          Não? Qual seria o problema?
          —Comunismo está em baixa.
          Ele não teve pena. Súbito estampido. Ao primeiro disparo bolchevista, Garibaldi tomba fulminado por um estilhaço de muro alemão.
          Anita,  que fôra roubada do pai,  chorou seu marido, chorou cem toneladas de história.  E a prantina inundou a região.  E a Sicilia separou-se definitivamente da península.  Comovidíssimo, ele houve por bem deixar que a viuvinha se afogasse só,  já que quisesse tanto assim! Toma o primeiro ônibus a qualquer parte,   mas  como  toda  estrada levasse a Roma, seu destino outro não pôde ser.
          Esclarecimento: desculpe-se o ritmo apressado do relato. Ele, saiba-se logo, está em todos os sentidos apertado,  recorrendo eu à compreensão dos que me lêem para  transmitir-lhes  o  sucesso  de sua desventura. As informações são confusas, e haverei de passá-las sem muito  morar,  pela emergência em que se encontra o meu amigo, o qual espero  em breve  chegar a socorrer. Advirto, porém, que até agora foi dito pouco.
          Para  certas  vidas é  possível que haja fado, ainda que ingrato, por vezes.  Se ele é uma dessas vidas, cada um que o conhece que o diga: Mal descido em Roma,  viu-se de novo conduzido pela marcha das armas. Foi recrutado por uma Cruzada dessas ao Santo Sepulcro que ele chegou ao Mar Vermelho,  considerou  premente a passagem para o Mediterrâneo, e convenceu Ferdinand de Lesseps  a  iniciar a obra. Então, auxiliado por um jovem velhaco, já havia conseguido  desertar  também da  expedição  bélico-religiosa,  fato que veio a ser preliminar para a existência, hoje, do Canal de Suez.
          Pergaminhos medievos  encontrados  na  biblioteca  do Vaticano sob a forma de compact-disc registram a lenda de um  estrangeiro  indescritível que teria ajudado o tempo em sua  árdua tarefa  de fazer ruínas o  Coliseu.   Ainda assim não hesito a crer que a passagem  de nosso dominicano por Roma tenha resultado nula,  salvo pelas ações indiretas do jovem cruzado seu companheiro desertor a quem, depois das conversas (suponho) que teriam travado nos acampamentos,  inculcou  a idéia  de  regressar  à Itália e requestar ao Papa o reconhecimento  de  sua  própria ordem religiosa. Chamava-se o pobre diabo Francisco...
          Mas, orientando  os  trabalhos  de  Ferdinand em Suez, ele nada queria saber além da construção do canal,  que realmente chegou a ver concluído no exato instante em que Moisés cruzava o Mar Vermelho.  Maravilhado  com  o prodígio e satisfeito com o trabalho, despede-se de  Ferdinand;  combinam um reencontro; seria no Panamá, para a  abertura do  segundo  canal.   Cada qual num sentido,  ele  segue  com Moisés a Canaã. Talvez por soar aos seus tímpanos  latino-americanos um quê de familiar, cativou-o a idéia da terra prometida. Dessa vez não desertou.  Mesmo  nos  tempos  do maná e dos filisteus, persistiu; até que sucederam-se os profetas e consolidou-se,  de Sidon a Bersabéia, a civilização de Israel.  E  quando  a poeira  dos  primeiros anos parecia estar enfim se assentando, vê varrer novo tufão as plagas  tempestuosas do povo judaico; quisto revolucionário  incorporado  por  um  único homem que insufla e adestra as massas à contestação.  Profeta?  Demais afeita a alma de Armendaris aos  arrojos  impetuosos  de  mudança  (bem é visto o estrago que tem feito no horário de almoço),  resolve conhecer  o tal agitador. Pretendo terem ele e o outro se conhecido bem,  ou ao menos gastados largos períodos juntos: ele torna-se alpinista amador, que era a propósito recurso de que mais dispunha, para reunir a ralé, o afamado demagogo.   Duma feita, tendo a multidão chegado  ao  rés  do  monte  conhecido por Monte das Oliveiras, aguardava o comício.   Nesse meio tempo Armendaris inicia a discussão,  dirigindo-se solenemente ao profeta nos seguintes termos:
          —Quem mais afortunado seria —pergunta enfunado de ares épicos: seria o pastor feliz, que é feliz na ignorância, ou o sábio que é sábio e por isso irresoluto, e pelo saber se inquieta? Vós pregais a singela e estreita senda da felicidade, e muito já tendes censurado a conduta dos sábios e doutores que seriam o exemplo lógico a seguir de todo indivíduo, face à irrefutável consideração de que gozam aqueles em meio aos demais. O saber é um valor. No entanto haveis com instância arrazoado, e a tanto lograstes bem a convencer-nos, de que dito valor, em imediato entendimento, faz-se alheio às fronteiras da felicidade. Mas se a primeira finalidade do saber é satisfação, que outro fim seria felicidade? Creio deparar-me ante uma evidente incongruência, e procuro relutante, não menos que redundante, Vosso esclarecimento. Pois, em qual condição melhor um vive?    (Esta passagem, a obtive numa sinagoga suburbana de Nova Iorque, em escritos não, como se diz, seguramente fidedignos. Ora, que baste um dominicano discutindo em hebraico arcaico, escrito em aramaico, traduzido para o inglês, interpretado em espanhol, e recontado para brasileiro ouvir!)
          Assombrado silêncio se apodera da multidão; porque a multidão está sempre assombrada; e aguarda a palavra do mestre, que nada hesite em responder, ainda que o fizesse de modo tão enigmático, e ninguém compreendesse. Bradou:
          —Bem aventurados os que são o que são, porque deles será o que lhes é cabido!
          Esta bem-aventurança jamais seria explicada. Também surpreso pelo inusitado da resposta, ele tenta por alguns instantes esquadrinhar seu conteúdo. Reflete. A coisa alguma teria chegado, não lhe houvesse ocorrido um velho ditado judeu que ele então inventou para a situação: Entre dois caminhos, escolha-se um terceiro. Fazer-se de tonto, fora de vista. Entender a maldita aventurança! nem pensar...Certo. Franze a testa, sorrisinho amarelo, assim; entre inocência e perfídia apunhala:
          —São o que são. Mas, e os que... da América-Latina são?
          Escândalo! A multidão, para variar, está assombrada. Aí, porém, a mesma insídia que fulminara de morte Garibaldi linhas atrás sequer apara a pronúncia do profeta, ao que este conclui de imediato e triunfal:
          —Estes, os latino-americanos? Eles que dêem um jeitinho. Não é?
          Revelação. Armendaris se dá conta que nada mais tem a aprender no mundo. Confere o relógio, dá um jeito na roupa, dá um jeito na barba, e despede-se da Judéia ainda com todo o jeito. Guarda o jeito no bolso, e arruma um jeitinho de chegar ao Panamá a tempo de encontrar o Ferdinand.
          O encontro é antológico nos livros didáticos de Portugal:
          —Atrasado?
          —Por quê..?
          —Pois, comecemos?
          —Por quê?
          —Desistimos?
          —Por quê?
          —Por que o porquê?
          —Porque não sei de que...
          Donde se poderia tirar a melhor explicação histórica para os atropelos e atrasos que permearam a monumental abertura do Canal do Panamá, se tudo não fosse atribuído, e com muita verdade, ao surto endêmico de febre amarela, do qual, à época da chegada de Armendaris, poucos velhos se lembravam. Assim, só restou mesmo a Ferdinand o "sinto profundamente informar..." que o canal concluíra-se a mais de três quartos de século, e, se ia ficando, era para ver se conseguiria levar um desses chapéus de que tanto falam...
          Que comprasse um panamá! que levasse mil sombreiros ,uma mitra se conviesse. Perder mais tempo não, para quem estava em expediente. Fazer a América, ver Nova Iorque: sonho da nação e de todos era o projeto de Armendaris para os minutos finais do almoço. E é aqui que vai terminando este breve relato e tendo início o meu apelo.
          Eram os primeiros meses da instalação da estátua da liberdade. Havia apenas o buraco ainda.
          Pois tendo ele, com um jeitinho todo especial, burlado a impenetrável imigração norte-americana, chega a Nova Iorque após inaugurar em Miami, antes mesmo do primeiro cubano, a simpática e folclórica entidade do imigrante ilegal na América. E foi encorajado por um brasileiro operário sobrevivente da lenda dos soterramentos da Ponte Rio-Niterói, que ele arrojou-se a buscar, nos alicerces da estátua, a água bastante para molhar o nordeste do Brasil. Porque aquilo haveria de ser o poço do mundo, testemunhou-me o próprio operário, o qual —saberia lá seus motivos— porfiou-se renitente em dizer que era natural do estado do Piauí, aonde eu teria de ir logo se quisesse conhecer, e deveria querer conhecer, e inclusive "antes que acabe...". Conversamos. Colhendo esse derradeiro depoimento pude fechar o itinerário malfadado: resultou o incidente final assim trágico como esperado, ou tão mais cruel quanto previsível: o poço por baixo, as pedras pregadas em cima, o homem no poço, o poço não é poço, e o nordestino brasileiro (como sempre) de balde gritando. Armendaris pôde então sofrer todo o peso que um latino-americano pode sofrer com a liberdade ianque no lombo, e, "God bless America!", a banana que desde o refeitório guardava no bolso com o jeito, a esta hora já estaria passada, pois não resistiu. Patético: latino, em Manhattan, preso pela liberdade, lambuzado de banana podre.
          Nisso, acabava o horário de almoço. Como ele não voltasse, nosso chefe me mandou à cata dele, sendo imprescindível a sua atividade na seção (já é notado quão abjuradamente faz jus ao nome que tem), pela sobrecarga do pós-greve. Assim foi que me interei de todos estes acontecimentos e, estando de passagem pelo Rio de Janeiro, na Confeitaria Colombo, li a respeito de uma considerável soma em dólares como prêmio dum concurso literário. A verdade é que não vai ser muito fácil livrar meu colega lá de baixo da Estátua da Liberdade, por isso tenho fé no concurso... Todavia, um apelo é válido:
          Rogo em favor do cidadão dominicano Armendaris Fuentes Mudimbe de Orleans y Trompovsky y Romanov y Kurosawa (filho bastardo de todas as nações) que ajudem, estando ao alcance, por meios quaisquer. Dêem vida nova àquele, e um epílogo feliz a esta estória.

Marcos Satoru Kawanami
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